Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

PEC da Bandidagem Blindada e a iminência do desmascaramento de criminosos

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Essencialmente, 296 deputados decidiram que os parlamentares criminosos só poderão ser criminalizados após uma investigação que só poderá ser iniciada após eles

A iminência do desmascaramento de criminosos, e a culpa das vítimas, estão na base de discursos que precisamos revisar.

Convencido de que todos os espaços de discussão precisam ser mobilizados para evitar o pior, nesta semana me atrevo a fazer dois comentários com um mesmo objetivo: se continuarmos permitindo no faz de conta que os grandes problemas não têm a ver conosco, seremos cúmplices ativos desta erosão degenerativa brutal, que evolui em nossa sociedade e que já compromete a vida de todos que amamos.

No primeiro comentário, o tema diz respeito às relações sociais. Aqui, o grande fato da semana é a aprovação (dia 17/9, na Câmara Federal) da PEC da bandidagem blindada. Essencialmente, 296 deputados decidiram que os parlamentares criminosos só poderão ser criminalizados, façam o que fizerem, cometam o crime que cometerem, após uma investigação que só poderá ser iniciada após eles (os pares dos acusados) darem autorização. E esta autorização (que ocorreria depois de transcorrido tempo suficiente para destruição de várias provas) seria concedida sem que os autorizadores precisassem assumir que estão autorizando. O voto secreto garantiria uma espécie de troca-troca onde ninguém precisaria mostrar a cara, assumir a cumplicidade.

Bem oportuna, esta posição daqueles 296 asseguraria que pelo menos os 108 deputados, que já estão sob investigação do Supremo Tribunal Federal (STF), poderão continuar dormir tranquilos, mantendo seu modo de vida. E os outros? Como saberemos o que pretendem manter oculto do povo brasileiro?

Estranhamente, os deputados incluíram nesta reedição piorada da PEC 3/2021 uma emenda que confere foro especial aos presidentes dos partidos. Eles agora seriam julgados apenas pelo STF. Também estranhamente, nesta mesma semana reportagem do ICL e do UOL acusa os presidentes de partidos essenciais à onda golpista (Ciro Nogueira, do PP, e Antônio Rueda, do União Brasil), de envolvimento com o crime organizado. Vamos colocar uma pedra sobre este assunto, ou vamos saber mais sobre casos que talvez comprometam pessoas associadas àqueles líderes?

A lista nacional, onde verificamos que também entre os parlamentares de direita existe consciência de que esta baixaria é inaceitável, para quem se dá um mínimo de respeito, pode ser vista aqui.

Aproveitando o impulso de desrespeito à ética, aos princípios norteadores da constituição e à credibilidade legislativa os golpistas também criaram um mecanismo que – segundo eles – torna legal o fato de Eduardo Bolsonaro manter o cargo, o salário e  as vantagens concedidas a um deputado federal, enquanto opera contra o Brasil, em seu exercício de traidor internacionalizado. A deputada Caroline de Toni (PL-SC), renunciou ao posto de líder da minoria em favor do Dudu, que assim ficará dispensado de registrar presenças na Câmara. Com isso o filhote de inelegível não será cassado por ausência ao trabalho, e ainda terá “direito” – até o final do ano – a cerca de R$ 2 milhões (R$ 46 mil de salário e R$ 133 mil em verba de gabinete/mês) para operar contra o Brasil.

Estima-se que, com a esperada reação da consciência nacional, estas sinalizações do quão baixo podem rastejar os golpistas, no nível de desespero a que chegaram, se façam bloqueadas no Senado Federal. Saberemos em breve.

No segundo comentário da semana, este centrado nas relações biológicas, destaco atividade promovida pelo serviço Vigilância em Saúde das populações exposta a agrotóxicos (VSPEA), da Secretaria de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul. Dentre as muitas evidências ali apresentadas, vou me fixar na interpretação de que as águas que correm em nossas torneiras, consideradas potáveis, contém  resíduos de venenos que ameaçam a todos nós. Estes venenos, que não podem ser retirados por filtros, afetam a saúde dos que com eles entrarem em contato por ingestão, inalação e absorção dérmica.

E os perigos, que são maiores para fetos, bebês, adolescentes e idosos, vão além de distorcer relações metabólicas, comprometendo a formação e a funcionalidade de todos os sistemas orgânicos, em escala multigeracional. Isso significa que os impactos sobre o sistema reprodutivo inviabilizam muitas gestações e tendem a comprometer a qualidade de vida de gerações futuras.

Para completar, boa parte dos venenos identificados na água que bebemos e nos alimentos que consumimos (avaliados de maneira isolada) são de uso proibido no Brasil e suas misturas e operam em relações sinérgicas desconhecidas.

Além disso, os níveis de contaminação identificados, mesmo quando apontados como dentro de limites considerados toleráveis pela legislação brasileira, superam em muito (no caso do glifosato, o mais usado dos agrotóxicos, em 5 mil vezes) os limiares proibitivos estabelecidos para a União Europeia.

Como se fosse pouco, os agricultores, tratados com insumos tangidos a fazer o que fazem por interesses que os iludem e patrocinam um modelo de produção ecocida, seriam os culpados. Habitando em zonas de sacrifício, onde os índices de câncer e problemas de desregulação endócrina superam as médias nacionais, aquelas vítimas se recusariam (ou não estariam habilitadas) a entender e a respeitar recomendações técnicas que operam no campo das ficções. São inviáveis, como as tentativas de contenção da aleatoriedade climática, ou não funcionam, como os Equipamentos de Proteção Individual e Coletiva.

E a população urbana, também afetada pelo resultado de normativas inadequadas e estímulos econômicos que viabilizam tais iniquidades, se deixa enganar por discursos falsos que afirmam ser bom para o Brasil e indispensável para o mundo, que transnacionais criminosas descarreguem aqui, em nossos corpos,  a cada ano, parcela das mais de 800 mil toneladas (sem considerar aqueles venenos que encontramos na água e que não estaria sendo vendidos aqui) de lixos tóxicos que, destruindo a natureza, seriam “necessários” para resolver o problema da fome no mundo.

E aí está o problema estrutural, de fundo.

Populações urbanas manipuladas por campanhas de idiotização coletiva estão sendo levadas a eleger representações legislativas previamente capturadas por interesses opostos às expectativas de vida saudável, que todos temos, para com os filhos e filhas deste território.

Vereadores, prefeitos, governadores, deputados e senadores cientificamente negacionistas e ofensivamente desrespeitosos em relação às necessidades de seus eleitores, e às funções sociais que deveriam cumprir, destroem leis ambientais protetivas, alteram limites técnicos, concedem vantagens econômicas indevidas, contribuem para a ocultação e distorção de informações que ajudariam a impedir a generalização destes males.

E são eles que aí estão, promovendo a PEC da bandidagem blindada, pedindo anistia como pediram fim do marco temporal, o uso da cloroquina e a aprovação do pacote do veneno, a intervenção militar e a submissão deste país aos desatinos do Trump.

Em 2026 estarão nas mídias, pedindo votos.

Mas hoje, confiantes na memória curta e na distração de suas vítimas, aí estão, explicitando, descaradamente o quanto odeiam a transparência, os princípios constitucionais e a conscientização popular.

É grande o medo que eles têm de nós. O pesadelo deles, é que nós acordemos.

Driblando a censura, ainda durante a ditadura militar, o MPB-4 cantava assim (de Paulo Cesar Pinheiro e Mauricio Tapajós).

Lembrete: em 2026 precisamos eleger senadores, deputados e governadores que mereçam nosso respeito.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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