Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Estamos diante da necessidade de uma inflexão radical, que se estenderá por gerações na organização de projetos revolucionários em defesa da vida

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Editorial do Brasil de Fato Paraná – Especial 19ª Jornada de Agroecologia | Crédito: Foto: Wellington Lenon

Não se trata de aceitar algum apocalipse inevitável, mas sim de agir de forma consciente para impedir que o pior se instale

Nesta mesma semana em que o relator de processo sobre o comportamento de Eduardo Bolsonaro (deputado que não comparece ao trabalho e se dedica a atiçar o governo norte-americano contra o Brasil) concluiu não haver motivo para cassação de mandato daquele parlamentar, o presidente Donald Trump, voltou a elogiar Lula e foi além. Disse que vão se encontrar de novo,  que ele virá ao Brasil e que faremos bons negócio. 

Levei medo.  

Até porque aquele Trump simpático ao Lula também convocou a 800 generais e almirantes subordinados a seu novo Ministério da Guerra. Chamou a todos de molóides. Disse que conta com eles para enfrentamento, na porrada, aos inimigos terroristas que estariam agindo dentro e fora daquele país. E que quem não gostasse podia dar o fora. Disse ainda que as cidades norte-americanas perigosas, como no caso de Washington, Nova York, São Francisco, Portland, e Chicago (a cidade mais perigosa do mundo, segundo ele), poderão usadas como campos de treinamento para preparação de ações que levarão ao enfrentamento do que ele entende como sendo a nova realidade.

Muita gente fala que ele deve estar doido. Doente do corpo e do espírito. E isso faz certo sentido. Afinal, tanto pela coerência no narcisismo extremado como pelo zigue-zague de seus posicionamentos, no trato com o mundo, ele não age como uma pessoa normal.

E o pior é ele não está sozinho. Seu grupo tem estas mesmas características. Basta ver o que RFK JR, seu titular da área da saúde tem feito, contra as vacinas ou reler os posicionamentos do Marco Rubio, que vai negociar com o Brasil, para entender que eles são uma turma de assemelhados.

Bom, segundo as estatísticas, no mundo temos mais de um bilhão de pessoas padecendo de algum transtorno mental, com destaque para aqueles relacionados a sintomas de estresse, ansiedade, paranoia e depressão. Aparentemente isso se relacionaria tanto à apatia, como à busca de remédios e outras drogas, ou mesmo à surtos de euforia e a comportamentos antissociais extremados.

Para a maioria, o que se lê nos jornais a respeito daquilo que passa nos lares e a exposição de relações entre os dramas da vida doméstica e as pressões sociais, com os desafios do presente  e os medos do futuro, são ilustrativos de um fato. As sociedades estão doentes.

Em todos os casos, parece que os elementos fundantes radicariam no descaso político em relação às doenças mentais. Isso se verificaria em avaliações do uso dos recursos destinados a investimentos governamentais, em políticas de saúde, comparativamente aos gastos com as indústrias de armas, os exércitos e os orçamentos de guerra.

O mais alarmante é que esta condição (privilégio às guerras em relação à questões de saúde) se coloca como uma espécie de padrão comportamental que vem sendo reproduzido por todas grandes civilizações, ao longo da história humana.

Peter Turchin, um biólogo com perfil de historiador, afirma, literalmente, que a humanidade depende das guerras. Que foram as guerras  que impulsionaram tanto os astecas como os romanos, os ingleses, os otomanos, enfim, todas as grandes civilizações, a alcançarem seus momentos de esplendor. Ele estudou 800 sociedades e nelas identificou uma espécie de padrão relacionado ao desenvolvimento das tecnologias de guerra. Seus argumentos sugerem que a afetividade, presente nos pequenos coletivos, se dilui à medida que os grupos crescem, e isso estimula impulsos guerreiros, faz surgir e impor lideranças deste tipo, coisas assim. Desta forma, a expansão no tamanho e na complexidade dos coletivos levaria ao surgimento de estados e impérios cuja manutenção impulsionaria corridas armamentistas. Em consequência, as guerras, que obviamente derivam do medo, seriam a expressão da tecnologia social suprema.

Ele argumenta que nossos últimos dez mil anos correspondem a um tempo muito escasso para surgimento e fixação de evoluções biológicas. Neste sentido tudo que interpretamos como processos evolutivos decorreria tão somente de aprimoramentos culturais cumulativos, adaptações apoiadas nos sucessos de gerações anteriores. E o progresso decorreria da busca de controle sobre o ambiente e sobre os outros, em disputa pelo usufruto de bens e territórios. Seria uma espécie de normalidade o fato de que desde a invenção da agricultura, e até agora, a complexidade que percebemos na vida atual resulte de conflitos. Os conflitos estimulariam a produção de tecnologias de guerra de eficácia crescente, cuja existência estimularia o medo e a insanidade.

Até agora, momento em que o uso das armas modernas se tornou inviável. Neste momento histórico onde o que nos ameaça a todos é a questão climática, e não os vizinhos ou aqueles que praticam outros costumes e religiões, o negacionismo é a besta do apocalipse.

Vejam que entre os novos fenômenos de doenças mentais destaca-se a ecoansiedade. Se trata de uma espécie de epidemia de angústias relacionadas à impossibilidade de fugir do aquecimento global, que paradoxalmente amplia os perigos reais,  na medida em que permite aos negacionistas, tão bem explicitados por Trump e seus principais assessores, se empoderarem como vendedores de pavor para alguns e tranquilidade para outros.

As evidências de que apenas no  do último verão europeu, as emergências climáticas já provocaram  18 mil mortes e 43 bilhões de euros em prejuízos econômicos,  acabam abrindo novas opções de mercado para movimentos de financeirização predatória e para a venda de  falsas soluções, a exemplo da geoengenharia , da fertilização dos oceanos e outros empreendimentos gigantescos e excludentes, que desconsideram a participação e a sabedoria dos povos tradicionais, bem como sua capacidade de contribuição em defesa da vida.  

E de resto, a grande maioria da população está perplexa e paralisada, sem saber por onde correr, com a certeza de que não haverá soluções individuais e com a convicção de que, se a sociedade não reagir de forma organizada, em algum momento todos nos defrontaremos com a miséria e a barbárie.

O que fazer? Aqui a resposta é bíblica: só a verdade poderá nos libertar da armadilha.

Os perigos envolvendo Trump, as esperanças envolvendo Lula, as lutas contra os negacionistas no congresso são relevantes, porém transitórias. O problema maior está na belicosidade inerente ao comportamento humano, o avanço inevitável do aquecimento global e a escassez de recursos que isso tende a trazer, o negacionismo em relação à necessidade de ações urgentes e radicais para enfrentamento das causas.

Não se trata de aceitar algum apocalipse inevitável, mas sim de agir de forma consciente para impedir que o pior se instale.

Cada povo deverá enfrentar sua cota de sacrifício, escolher seus líderes e obrigá-los a que atuem em parceria e de forma coerente com o que sabemos ser indispensável. Reduzir ao mínimo a queima de petróleo e carvão, zerar os desmatamentos, plantar árvores, cuidar da água, repovoar o rural estimulando policultivos e reduzindo os passeios de alimentos. Racionalizar hábitos de consumo, contendo desperdícios e desativando a produção de supérfluos. Estabelecer outras métricas para avaliar a necessidade, a prioridade e a performance de todas as políticas públicas.

Enfim, estamos diante da necessidade de uma inflexão radical, que estenderá por gerações. Precisaremos de políticas educativas voltadas à reconstrução de nexos de sinergia positiva, entre a humanidade e a natureza para recuperação de laços de solidariedade intergeracional que se perderam com a mercantilização de valores éticos e bens comuns.

A superação deste momento coloca a humanidade diante de um novo tipo de guerra, que exigirá tecnologias inovadoras e o apoio das diferentes sociedades aos atores que nelas buscam organizar projetos revolucionários em defesa da vida.

Entre nós, o mais urgente começará pela eliminação da doença que afeta os sistemas de representação coletiva, hoje dominados por negacionistas climáticos e doentes mentais obcecados pelo desejo de violência. A derrota imposta ao governo Lula nesta quarta-feira (8), pelos golpistas da câmara federal, anulando a possibilidade de recuperação de receitas pela tributação de setores não produtivos, ilustra a importância disso. O impacto sobre as contas do governo recairá sobre a sociedade, fragilizando as lutas contra o aquecimento global, as injustiças e as doenças mentais, com danos maiores sobre os menos favorecidos.

Por isso, em paralelo às campanhas de esclarecimento e aos chamados do povo às ruas, precisaremos apoiar novas lideranças, comprometidas com a reconstrução da democracia participativa, com a necessidade de implementação da Reforma Agrária Popular, contra a jornada 6×1, pela tributação dos super-ricos, pelas cotas redutoras das injustiças históricas, e tantas outras iniciativas que vierem a surgir, em favor de reconstrução de uma solidariedade coletiva, de base agroecológica e amigável em relação ao ambiente natural.

Não será fácil. Trata-se de alterações nos símbolos de sucesso e no modo de vida de todos, que trará impactos maiores sobre as camadas sociais que detém e aspiram privilégios negados para a maioria, que também será afetada.

Mas é urgente. Precisa começar já e exigirá a superação (só a verdade liberta) do medo infantil que todos nós, adoentados pela crise destes tempos, sentimos diante dos desafios e das responsabilidades que se desenham.

Somos capazes de realizar esta mudança. Vivemos no país com melhores condições para lidar com este futuro, que virá trazendo aquilo que fizermos por merecer.

Música? Refloresta, de Gilberto Gil, Gilsons e Bem Gil.

Lembrete: É fundamental que em 2026 os senadores eleitos nos respeitem e mereçam nosso respeito. Fora Golpistas! Sem anistia aos traidores, sem tolerância com os vendilhões da pátria.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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