A saúde diz respeito a uma espécie de equilíbrio dinâmico, metabolismo em evolução permanente que, a um mesmo tempo, articula todas as células de um organismo, todos os organismos de um ecossistema, todos os ecossistemas de um bioma e todos os biomas deste planeta. Nesta perspectiva a saúde corresponde à manutenção de um nexo gigantesco que, uma vez fraturado em qualquer ponto de seu continuum, abre espaços para mecanismos de degradação que, não sendo contidos, se estenderão em níveis de abrangência crescente.
Uma só saúde. Este é o conceito a ser compreendido.
Simples assim: a falência operacional de uma parte, compromete a funcionalidade do todo.
Desde a distorção no funcionamento de uma célula, até a derrubada de uma floresta, se a atividade destrutiva não vier a ser corrigida, ou compensada de alguma maneira pelas atividades de outras partes do sistema (outras células ou outras áreas da floresta), a decadência tenderá a se expandir ameaçando a integridade do complexo inteiro (órgão/sistema/organismo/floresta) onde a parte é apenas isso. Uma parte.
E se aquilo ocorrer, em sequência devem ser esperados impactos indiretos sobre outros organismos (ou complexos) associados àquela primeira parte, ou que com ela vierem a interagir ao longo de seu ciclo de vida.
O que já sabemos sobre alterações hormonais e genéticas provocadas em seres humanos, por moléculas de agrotóxicos revela a dimensão social destas iniquidades. Imagine alteração em um processo de divisão celular afetando o desenvolvimento de um feto, ou de um bebê, como consequência da presença de algum herbicida, no sangue ou no leite materno, e os impactos disso sobre toda a família em seus diferentes espaços de convivência.
A semelhança se evidencia na perspectiva dos holobiontes. A fragilização/ruptura de redes metabólicas que atuam de forma coletiva na sustentação de ecossistemas específicos, ao impactar sobre a estabilidade e os serviços ambientais oferecidos em escalas mais amplas, pelos grandes biomas, compromete tudo aquilo que dependa de suas conexões. Considere o fato de que o desmatamento e o envenenamento dos solos, das águas e das redes vitais, no rastro de avanço do ecocídio deflagrado na região amazônica, está na raiz de processos destrutivos tão abrangentes que já determinam tragédias climáticas no Sul do Brasil e da Argentina, na Bolívia, no Uruguai e no Paraguai.
Além disso, as queimadas e outras formas de degradação dos ecossistemas naturais, estimuladas em favor de interesses econômicos relacionados à pecuária extensiva e aos monocultivos de exportação (mineração, grandes barragens, etc.), além de acelerarem o aquecimento global estão provocando o vazamento de zoonoses (como Covid, Gripe aviária, Gripe suína, Aids) e outros tipos de violências e contaminações que, no todo, criam zonas de sacrifício populacional onde também os direitos humanos já deixaram (ou estão em vias de deixar) de existir.
A saúde é uma só e onde não há cura possível, as medidas devem ser precaucionarias e preventivas.
Para citar apenas um exemplo revelador da possível magnitude de relações entre o micro e o macro: uma microalga (a cianobactéria Prochlorococcus) presente em 75% das superfícies oceânicas banhadas pelo sol (“o menor e mais abundante organismo fotossintético da terra”), que atualmente gera (por fotossíntese) cerca de 50% do carbono que alimenta as redes tróficas dos mares tropicais, e que por isso se coloca como fundamental para toda a vida marinha, deixa de se multiplicar a partir dos 28,7°C , e tende a desaparecer quando a temperatura da água de superfície excede os 30°C. Os pescadores de Salvador (BA) não sabem disso, mas estão prestes a enfrentar as implicações da destruição de ecossistemas indispensáveis àquele microrganismo tão invisível quanto fundamental à suas vidas.

Com a naturalização do negacionismo e diante das evidências de que sete dos nove limites de resiliência do metabolismo planetário já foram superados, parece que restam poucas alternativas ao caos.
Mas isso só será verdade se nada fizermos, coletivamente, para alterar as tendências que nos desagradam. Se permitirmos que a degradação da saúde planetária ameace a extinção de nossa espécie. E são muitas as pessoas fazendo algo no espaço micro, e com possibilidade de conter o que vemos expresso no macro, com quem podemos colaborar. Aliás, não precisamos nem inovar, basta apoiar e seguir a quem faz. Com consciência, tendo presente que será necessário enfrentar os interesses beneficiados pela concentração e uso predatório da terra, pela degradação da água e dos ecossistemas, pela redução da biodiversidade, pela poluição química, pelo uso excessivo de fertilizantes e inaceitável de agrotóxicos, pela acidificação dos oceanos e, obviamente, pelo consumo de energia e recursos que aceleram o aquecimento global, e pela divulgação de mentiras destinadas a enganar, desmobilizar, frear as reações em defesa da vida. É demais? Bom, também é possível contribuir de forma efetiva fazendo apenas alguma ou outra coisa e ajudando a esclarecer e a motivar outras pessoas que possam estar desatentas em relação à crise em que estamos metidos, e que talvez precisem apenas de alertas insistentes para se comprometerem com a defesa de sua própria saúde. Quem sabe até, pelo menos, escolhendo melhor seus/nossos representantes e retirando de cena os negacionistas, nas eleições de 2026.
Talvez as discussões na COP30 possam oferecer algumas oportunidades inovadoras em relação a isso. Mas também aqui, não podemos nos iludir. Se houver solução para a crise de saúde planetária, ela virá da sociedade organizada e não de governos ou estados capturados pelos interesses patrocinadores da crise.
Costumam ser falsas as soluções que aqueles grupos tendem a oferecer. Aí estão o AgroPop com seus agrotóxicos e transgênicos, as viagens a marte e os carros elétricos do Musk, as compensações ambientais, o RED++, o Hidrogênio Verde, e as propostas de geoengenharia e fertilização oceânica, entre tantos outros exemplos de mega experimentações onde somos tratados como cobaias.
Sempre que o capitalismo do desastre se inova é para tentar manter ou estender seus domínios, e isso tem levado nossos problemas reais a se ampliarem e a se multiplicarem.
Sabemos que a financeirização de tudo é uma espécie de cavaleiro do apocalipse, e que a bala de prata, contra ela, está na mudança de nossos hábitos, sonhos, desejos e valores. Também está claro que precisaremos de outras lideranças, mais comprometidas em deter a sangria com que o Império e seus parceiros nos vampirizam. Vale para todos nós, os povos da América do Sul e outros assemelhados. Ao mesmo tempo, precisaremos desmascarar os traidores que cumprem papel de correia de transmissão de intencionalidades que nos aprisionam, e desmistificar as metáforas com que nos iludem.
Por exemplo, todos precisamos entender que Agrotóxico Mata e que os países “centrais”, aqueles que são nossos devedores, mas nos exploram, mesmo quando alegam boas intenções, por exemplo quando criam áreas de reserva ambiental em seus países, para ajudar o conter o aquecimento, ou quando importam nossas commodities agrícolas e minérios, para ajudar em nossas contas nacionais, estão operando com objetivos e intenções não reveladas, que sempre são boas para eles mas podem ser péssimas para nós. Naqueles casos, por exemplo, via de regra as nações ricas estão nos exportando extinções. Estão transferindo para o sul global o ônus de degradar o que aqui existe, para geração de itens do interesse deles e às expensas da saúde de nossos povos e ecossistemas. Se trata de externalização de custos ambientais com impacto similar à venda de agrotóxicos proibidos em seus territórios, acobertados entre nós por seus representantes em nossa terra. E na COP 30, assim como naquelas reuniões do congresso onde aprovaram flexibilizações de leis ambientais e o pacote do veneno, é sempre que isso estará em jogo.
Nesta perspectiva confio antes em resultados pró saúde ecossistêmica, que possam ser obtidos a partir de atividades propostas pela sociedade, e abraçadas pelos governos em exercício, do que em acordos realizados por cima, distantes do povo, e validados por uma tecnociência sempre enviesada a serviço do capital.
De um lado, entendo que apenas atividades construídas pela sociedade poderão contribuir para o esclarecimento dos envolvidos, de maneira mobilizar o povo em ações que exigirão sacrifícios. E serão necessárias mudanças radicais no modelo de consumo. Tantas e tão profundas alterações comportamentais que as pessoas sem compreensão do todo encontrarão motivos para reclamar e poderão ser arregimentadas em defesa da manutenção do que precisamos mudar.
Por isso, uma vez que as armas neste campo serão a consciência, ela precisará ser aprimorada pela identificação coletiva dos problemas, com priorizações e decisões negociadas por ativistas comprometidos com a construção de uma ciência digna, verdadeiramente cidadã e tão atenta às inovações como respeitosa à história, à cultura e às tradições de nossos povos.
E não nos faltam exemplos de avanços, neste sentido.
Muito resumidamente, para registro, considere-se que há duas semanas agricultores assentados no RS comemoraram os 40 anos de ocupação da Fazenda Annoni . Naquele local onde hoje as famílias gerenciam cooperativas, escolas e vários tipos de ocupações produtivas, os jovens são atraídos pela qualidade de vida e querem ficar no campo, ao invés de escapulir para as cidades. Alguns até saem, mas voltam.
Ali, o Instituto Educar já formou centenas de profissionais em agronomia, com ênfase em agroecologia. Jovens adultos que emergem de sua vivência naquela área reformada capacitados a contribuir com a construção de uma sociedade emancipada, cientes de suas responsabilidades e comprometidos com as necessidades de transformações em defesa da vida.
Naquela reunião festiva (em 24/10) o Ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira anunciou convênios e solicitou sugestões à implementação do Programa Nacional de Redução dos Agrotóxicos – Pronara, recentemente aprovado pelo presidente Lula. Reivindicação antiga da sociedade civil, finalmente acolhida pelo Governo Federal, o PRONARA está começando a estabelecer seus protocolos de ação. Confiamos que ele ajudará a sociedade e o governo na realização de medidas efetivas em proteção da saúde humana e ambiental, com estímulos à produção de alimentos limpos. Também esperamos redução nas ameaças à saúde de populações residentes em áreas de sacrifício assim definidas em função da aplicação de agrotóxicos há décadas proibidos na união europeia e de uso corrente no Brasil. Mas sabemos que tudo isso permanece em disputa e que vencerá a perspectiva mais bem sucedida nas eleições de 2026. De momento, predomina no congresso nacional aquela perspectiva negacionista, entreguista, protofascista, que opera em favor dos interesses do império e contra a saúde do planeta e que precisamos alterar.
Encerrado o encontro do MST, na semana seguinte (30/10) o Fórum Paraense de Combate ao Uso Indiscriminado e Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (FPPA) realizou em Belém um Diálogo Preparatório para a COP 30: O impacto do Uso dos Agrotóxicos e a Mudança Climática, que resultou em Proposta de criação de Política Pública Estadual que poderá vedar a comercialização, no Pará, de agrotóxicos proibidos na União Europeia. Encaminhada ao Governador Helder Barbalho pela coordenadora do FPPA, Dra. Ângela Maria Balieiro Queiroz, a proposta também recomendou criação urgente de um programa de fiscalização e monitoramento do uso de agrotóxicos bem como a implantação/fomento de campanhas de conscientização e apoio a atividades educativas sobre os riscos dos venenos e sobre a importância de práticas e alternativas, de base agroecológica.
Como embasamento técnico foi utilizado documento elaborado sob liderança da professora Sonia Corina Hess, encaminhado (em 28/10) ao ministro Paulo Teixeira, do MDA, como subsídio à implementação do Programa Nacional de Redução dos Agrotóxicos (PNARA). Sonia Hess também apresentou aquele documento em palestra (4/11) ministrada durante a quarta reunião anual do FNCIAT – Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos. Já me estendendo, mas também para registro, agrego aqui comentários adicionais sobre aquele documento.
Resumindo tudo isso:
Precisamos confiar em nossa gente, para ações integradas em defesa da saúde humana e ambiental, entendendo que elas fazem parte de uma unidade que não pode ser fracionada.
Somos da América do Sul e não precisamos de medo. Todo dia é dia de viver
Por isso, para manter a tradição de finalizar esta coluna com uma música, em homenagem ao inesquecível Lô Borges, dele: Para Lennon e McCartney.
Sugestões para atividades desta próxima semana, aos moradores de Porto Alegre:
Na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, dia 13 de novembro, 17h30 às 19h30, no Auditório Erico Verissimo, do Clube do Comércio (Rua dos Andradas, 1085 – 2º andar)… Seminário “A Diversidade Sustenta o Futuro III: da ideia de humanidade-e-natureza para a premissa humanidade-na-natureza”, com lançamento de livros. Mais detalhes no Instagram.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato.

