Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

A Polícia Federal e o caminho do dinheiro

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polícia federal em ação
Gabriel Magno (PT) pede abertura de inquérito para a Policia Federal investigar a compra do Banco Master pelo BRB | Crédito: Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Os grandes fatos da semana, eclipsando as negociações na COP30, dizem respeito ao crime organizado e suas conexões

Os grandes fatos da semana, eclipsando as negociações na COP30, dizem respeito ao crime organizado e suas conexões com o topo da cadeia alimentar, em nosso país. Siga o caminho do dinheiro, é a regra fundamental para atitudes que pretendam levar ao desbaratamento de organizações criminosas infiltradas em áreas chave da vida pública. Cobrir os rastros e impedir o fluxo do dinheiro são os mecanismos de defesa que aqueles interesses costumam utilizar.

E eles são eficazes. Tanto em suas ações preventivas, antecipatórias ao que entendem como problemas, como nas ações corretivas, destinadas a minimizar os danos em situações em que seus crimes venham à tona. E são muito bem relacionados, com representações efetivas em áreas onde se define o que é possível fazer, sem medo de ser punido, neste país.

Resumindo: eles querem e conseguem bloquear ações investigativas, retirar recursos da polícia federal, impedir prisões, impedir bloqueio e apreensão de bens e valores dos criminosos e ainda assim, posar de bacanas.

Pois tudo isso tem a ver com o ocorrido nesta semana, abafando a COP30, ofuscando a necessidade de união global na luta contra a febre de Gaia.

O fato: os bancos dispõem de um fundo garantidor de 140 bilhões para dar segurança às operações bancárias. E um banquinho, que com menos de 1% dos ativos do sistema financeiro, já estaria ameaçando 40% daquele total, graças à ação da Polícia Federal foi “parado” pelo BC. Se trata do Banco Master, propriedade do empresário Daniel Vorcaro, preso no aeroporto de Guarulhos (SP) quando tentava embarcar para a terra do Ali Babá. Na opinião da Polícia Federal, ele estaria fugindo. Na opinião de seus advogados, estava a partir em viagem de negócios, para vender o banco a compradores de Dubai. O que não dá no mesmo, mas é igual.

Políticos da direita golpista (e alguns dos quais citados em outras ações da PF) que estariam tentando salvar aquele banco, mesmo após os indícios de sua falência, se alvoroçaram.

O caso é tão relevante que as mídias são confusas até mesmo em relação aos valores envolvidos. Fala-se em dezenas de bilhões de reais. E a coisa teria chegado a este ponto, entre outros motivos, por que o Banco Master prometia pagar taxas, para acesso a recursos trocados entre bancos, de até 150% do CDI (bancos pagam menos de 90% do CDI, e ainda lucram com os 10%).

Como os profissionais do ramo sabiam disso, apenas investidores incautos, mal aconselhados, ou que manejam com a grana dos outros, ou com interesses pouco compreensíveis, jogariam dinheiro naquele local que prometia remunerações inviáveis.

Ainda assim Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal estaria ligado a tentativas agora investigadas– contra a recomendação do Banco Central e analistas do setor- de salvar o Master. Faziam isso tratando de transferir os problemas do Daniel Vorcaro, para Banco Regional de Brasília- BRB. No limite, o BRB compraria o Master. Quanto a PF trouxe o assunto à público, noticiou-se bloqueio, depois cancelado, de R$ 12,2 bilhões, no BRB, por decisão da justiça.  Falou-se em mais de 100 mil servidores públicos apavorados poque recebem seus proventos pelo BRB, o que estendia o drama da capital federal, se sabe agora, pelo menos para São Paulo, Tocantins e o Piaui. E isso pode ir mais longe.  Aliás, segundo noticiado na Fórum, alguns municípios (São Roque, Cajamar, Araras, Santo Antonio de Posse…) e o governo de São Paulo também teriam realizado investimentos de recursos de seus pensionistas, em letras financeiras do Banco Master.

 Da mesma forma, falou-se em movimento assustador onde os correntistas estariam começando a retirar seus investimentos dos bancos afetados, sugerindo que a crise do Master se estenderia profundamente ao BRB, que talvez ainda venha a ser federalizado para evitar o caos.

Claudio Castro, governador golpista do RJ também estaria envolvido de alguma maneira na operação da PF já que, por algum motivo a Rio Previdência (fundo previdenciário que garante a vida de cariocas aposentados) controlada por seu governo, teria colocado (por meio de 3 fundos de investimentos) mais de 1 Bilhão de reais (fala-se agora em R$2,6 bi) no banco Master. O Jornal Valor Econômico fala em 2,6 bilhões do RJ para o banco Master. Com estas transferências, perto de 235 mil famílias de aposentados e pensionistas seriam afetadas.

Tudo ainda está confuso, e o que se sabe é “apenas” que os valores envolvidos na liquidação extrajudicial do Banco Master tendem a repassar prejuízos bilionários, para a sociedade em geral.

Como se chegou a este ponto? Como isso se tornou possível? É esse o tema. Tudo indica que estamos diante de mecanismo de proteção a criminosos de elite, coisa que estaria envolvendo instâncias de poderes atuantes na República, e que só será esclarecida se a Polícia Federal seguir o rastro do dinheiro.

Teria algo a ver com interesses escusos relacionados ao crime organizado e suas conexões no executivo e no legislativo?  Ainda saberemos, mas só no caso das investigações prosseguirem.

Por hora, parece que o caso do Banco Master possa ter (muito) a ver com outros rebuliços ligados a interesses que nestes últimos meses vêm patrocinando posturas em bloco, na Câmara Federal.

Neste ponto as referências da mídia escorregam do sistema financeiro para artimanhas legislativas. Aqui as notícias sugerem relações cruzadas de todo o tipo, colocando na linha de frente alguns senadores, deputados e pessoas endinheiradas já mencionados em outros casos sob exame da Polícia Federal.

E estas relações sugerem que, de fato, a independência da PF festaria fazendo medo aos seguidores e associados a interesses defendidos por aquele ex-presidente que dizia não ter dúvidas em relação a forçar mudanças de delegados, secretários, e até ministros, para proteger os seus.

E isso, que possivelmente se relacione àquela tentativa de aprovar a PEC da Blindagem enterrada pelo Senado em atendimento à pressões das ruas, também parece conectado à aprovação em regime de urgência, da chamada  lei antifacção,  que entrou em cena para fragilizar projeto do governo contra o crime organizado. Aconteceu que na noite de 18 de novembro, 370 deputados votaram em favor de redação legislativa (contra 110 pela rejeição e 3 abstenções) que claramente enfraquece a polícia federal e beneficia criminosos de alto escalão, além de gerar outras confusões.

Na lei aprovada nos defrontamos com um novo conceito, subjetivo, relacionado a crimes envolvendo organizações ultraviolentas. O projeto final de Guilherme Derrite, secretário de segurança licenciado do governo de são Paulo, para assumir condução e relatoria daquela manobra, ainda vai dar o que falar. Aquele deputado com histórico de comportamento marcado pela violência criou a figura do domínio social estruturado e novos tipos penais, subtraindo recursos destinados à PF, e passando -novamente- para o senado a responsabilidade de corrigir as estripulias comandadas pelos controladores da câmara federal.

Em síntese: o texto originalmente apresentado pelo Governo Federal, que evoluiu ao longo de um ano de negociações, foi deturpado em favor dos criminosos de alto nível. E o resultado poderia ter sido pior. Afinal em sua versão original o deputado Derrite incluía no combate aos crimes organizados que articulam milicias a colarinhos brancos, uma versão de terrorismo associada àquele discurso entreguista do Eduardo Bolsonaro, que daria base a intervenções do Governo Trump, no Brasil. Ele também foi obrigado a desistir da pretensão de submeter à decisão dos governadores eventuais investigação da PF, para crimes realizados em seus Estados. Mas incluiu a criação de um fundo que estabelece regra para recebimento e partilha de valores e bens apreendidos de criminosos.  Com isso, os bens apreendidos (como exemplo, o avião particular onde o dono do banco Master pretendia fugir, apreendido em São Paulo, vale R$ 200 milhões) não estarão imediatamente disponíveis. E a distribuição daqueles recursos, além de ser protelada por tempo indefinido, passará a ocorrer por tipo penal (crime estadual e federal), onde o titular da investigação ficará com o dinheiro.

Quem ganhará com isso, que seguramente também afetará inclusive casos em andamento? Alguém deve saber…, mas a sociedade, para ter ciência disso, precisará que a Polícia Federal conclua seu trabalho, seguindo o rastro do dinheiro.

E quanto à apreensão dos bens? Como fica?

O patrimônio apreendido, que poderia ser leiloado, com os recursos auferidos destinados para investigações da PF, agora terá destino incerto. Os bens aprendidos (por exemplo na casa de um dos diretores do banco Master havia mais de 1,5 milhão de reais, em espécie – ali estava um banqueiro que, espertamente, não confiava no seu próprio banco) ficarão indisponíveis e não poderão ser usados para combater outros crimes, até que cada processo tenha sido concluído, com finalização do trânsito em julgado. Neste sentido, a dificuldade de apreensão e a confusão sobre a destinação dos bens contribuirá para sua degradação (por exemplo no caso de carros, aviões e barcos) prejudicando o serviço da PF. Claramente, por dificultar o perdimento de seus bens, a medida é do interesse dos criminosos.

E o domínio social estruturado,  nova expressão que aqueles deputados entenderam importante de ser incorporada ao sistema legal, serve para que fim? Se trata de norma que diz, entre outras coisas, que quem apoia criminosos, será punido como os criminosos apoiados. Uma mãe que abra a porta de casa para um filho portando arma irregular, pode pegar 20 anos de cadeia. Um morador de zona controlada por milícia, que abra a porta de casa para um líder de facção, mesmo sabendo que se não o fizer pode ser morto, em o fazendo pegará 20 anos de cadeia.

E isso valerá para empresários e banqueiros que acobertam desvios de milhões? Valerá para deputados e senadores proprietários de veículos (de carros a caminhões, helicópteros e aviões) associados ao transporte de criminosos e drogas? Ou só valerá para quem vier a ser acusado de andar (ou ser amigo de quem anda) com arma na mão, em periferias?

Esperamos que tudo isso possa ser revisto, anulado e esquecido por meio de atitude responsável do Senado Federal. Isso porque agora cabe aos senadores, onde os golpistas são numerosos, mas não controlam a casa, bloquear mais estas maquinações emergentes da Câmara, contra a democracia, os direitos humanos e a estabilidade social.

De nossa parte, resta trabalhar para que um novo perfil de parlamentares passe a predominar tanto na Câmara como no Senado Federal, a partir das eleições de 2026. Para isso, precisamos conversar muito, para ajudar no esclarecimento da população a respeito de quem é quem e quem serve a que interesses, tanto nas instâncias de representação social como nas mídias que os apresentam à sociedade.

E para concluir. Vale lembrar dois assuntos que se relacionam inclusive no tom de fofoca.

1 Esta semana as mídias deram grande espaço aos desaforos do Chanceler alemão, em relação ao que ele viu, ouviu ou vivenciou, em Belém do Pará, durante a COP30. Feliz por deixar Belém e voltar para sua casa limpa, fria e segura, o sr  Friedrich Merz, em discurso oficial pronunciado no parlamento alemão, explicitou seus sentimentos racistas. Jamil Chade fez um bom resumo disso, vale a pena ler ou ver/ouvir isso.  

2 – Nos EUA, parlamentares decidiram que os arquivos do tal de Epstein, predador sexual relacionado com políticos locais de repercussão internacional, serão liberados no todo. Com isso, o que se falava sobre pedofilia envolvendo Trump, passará a ser o grande tema dos dias que virão, com suas implicações. Podemos esperar, por exemplo, maiores agressões militares à Venezuela e à Colômbia, bem como apoio a maquinações golpistas em outros países, ou coisas que ainda não nos ocorre, mas que possa servir para proteger o governo Trump de uma finalização vergonhosa, traumática até mesmo para aquele falsos moralistas pendurados nos cadarços de seus sapatos.

Uma música? Em homenagem a Jards Macalé, que nos deixou esta semana: mal secreto. Mal Secreto – Jards Macalé.

Extra: Caíram as tarifas contra os produtos brasileiros. Trump sabe e assume que foi enganado. O que os golpistas dirão a respeito disso na próxima semana, quando Bolsonaro deverá estar no local que lhe cabe, esperando os outros comparsas. Aliás, o delegado Ramagem não foi vigiado, e fugiu do país.

Editado por: Vivian Virissimo

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