Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Os grandes mistérios não podem ser explicados

No audio source provided.
dia de iemanjá
Dia de Iemanjá em Capão da Canoa (RS) | Crédito: Leonardo Melgarejo

Não sendo dos mais sabidos acredito na conveniência de que os grandes mistérios permaneçam inexplicáveis

Nesta semana tive oportunidade de acompanhar dois eventos marcantes, reveladores da dimensão inegável da espiritualidade na vida de todos e todas que se disponham a aceitar o valor da perplexidade, para a formatação daquilo que percebemos como realidade.

Antecipando reconhecimento de minha incapacidade para alcançar compreensão plena do significado daqueles acontecimentos, mas por acreditar que diante do relato pessoas mais sabidas possam retirar alguma utilidade, vou me atrever a trazer aqui, a partir de sua descrição resumida, algo que sinto como uma espécie de conexão entre eles.

Dias 1 e 2 de fevereiro acompanhei, em Capão da Canoa (RS), no Centro Memorial de Matriz Africana 13 de Agosto, sob orientação da ialorixá Iyá Vera Soares e com apoio dos Tambores da Rede RS, a roda de conversas “O Cuidado das Águas” e a oferenda “Presente: as águas de Iemanjá”.

Tudo ali foi muito impactante: silêncios e falas profundas, repletos de momentos instigadores de ampla reflexão. Quem viu, sabe. Para os/as demais, vou me limitar a relatar o que me pareceu mais relevante, na atividade do “bate folhas”. Linhas gigantes de pessoas majoritariamente de pele branca, fechando os olhos, inclinando a cabeça, estendendo as mãos e girando o corpo, para receber apoio espiritual mediado por poucas pessoas de pele negra, que ali estavam, em pé e sem fazer cara feia, atendendo a todos, o dia inteiro. Mais do que aceitando o cerimonial, as pessoas daquelas filas que (no total dos dois dias) se estenderam por aproximadamente de 20 horas (cerca de 5 mil pessoas), estavam (conscientemente ou não) reverenciando a sabedoria ancestral de matriz africana que o mundo dos brancos não apenas sempre negou como até hoje insiste em tentar apagar.  A racionalização com que nos acostumamos a viver, baseada na luta de todos contra todos, na mercantilização e apropriação egoísta de valores espirituais e bens comuns, explica a negação de uma verdade maior, ali emergente. Se entende. Trata-se da manutenção, pela força e por legislações criminosas, de privilégios inaceitáveis. Aquela busca (por parte dos favorecidos pelo aporte espiritual gratuito) de proteção de forças divinas da natureza, sob mediação da fé amorosa de seus irmãos e irmãs desfavorecidos (e em tantos momentos ignorados), e a generosidade destes últimos, evidenciam que aquela racionalização não se sustenta. Em realidade, ali se anunciava que a concepção de diferenciação de raças, que tem dado base à continuidade do pior de todos os crimes, está chegando ao fim.

Crédito: Leonardo Melgarejo

Aquela espécie de romaria em busca de ajuda, e aquele acolhimento superior por parte dos que trazem consigo a marca de tantos sofrimentos, me surgiu como um passo da revolução silenciosa e inevitável, onde em algum momento o bem prevalecerá. Uma manifestação coletiva, ainda que não compreendida de todo, de multidões que avançam em busca de perdão espiritual por barbaridades que não podem ser esquecidas, e que devem ser enfrentados com a certeza de determinados crimes jamais poderão ser compensados no mundo material em que vivemos. Por isso é necessário e esperado que, em resposta ao entendimento de que também as matas, os rios e os mares sofrem pelas ações estúpidas de parte da humanidade, emerja uma mobilização consciente, voltada à mudanças radicais no comportamento humano. A expectativa, aqui, é de que aqueles e aquelas que se pretendam espiritualmente elevados/as, se somarão a movimentos sociais que já reclamam por políticas includentes, capazes de enfrentar e corrigir iniquidades, em defesa de bens comuns e forças vivas da natureza que precisam ser protegidas, respeitadas e franqueados ao usufruto acessível de todos e todas.

A meu sentimento, aquelas filas de bate folhas indicam a existência de avanços que em algum momento resultarão em ondas poderosas demais para serem represadas. E foi com a sensação de que aquelas energias, aquelas forças naturais expressas pelos orixás, não podem ser enfeixadas sob a ideia de um deus único, observador passivo do sofrimento e da luta de muitos, contra todos os males, e em benefício de poucos, que me deparei, no dia 4 de fevereiro, com o outro evento mencionado ao início deste texto.

Crédito: Leonardo Melgarejo

Frei Sérgio Görgen, franciscano da Ordem dos Frades Menores, faleceu no dia 3 de fevereiro, aos 70 anos, tendo sido homenageado de corpo presente e sepultado no cemitério dos freis, Convento São Boaventura, distrito de Daltro Filho, na cidade de Imigrante (RS).

Militante histórico e intelectual orgânico da luta camponesa, um dos fundadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Movimento de Pequenos Produtores (MPA), do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), do Levante Popular da Juventude, Frei Sérgio foi apoiador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e agente ativo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), tendo desempenhado papel decisivo na criação de políticas públicas tão importantes como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a aposentadoria rural, a educação do campo, e as compras da agricultura familiar, entre outras. Um dos pioneiros na luta contra os agrotóxicos e transgênicos, formulou análises, publicou livros, ajudou a criar muitas cooperativas, casas de semente e espaços de comunicação como a Rede Soberania e o jornal Brasil de Fato. Também prestou apoio espiritual, entre tantos outros,  ao presidente Lula, durante aquele período de prisão em Curitiba (PR). Auxiliou de forma particular e concreta a muitas pessoas, em certo sentido representadas por aquelas que, na homenagem de despedida, relataram depoimentos abrangendo desde situações pessoais até atividades coletivas relacionadas à luta pela terra, à reforma agraria e à conscientização popular, romarias, seminários e congressos, ocorridas ao longo dos últimos 50 anos. Frei Sérgio foi deputado estadual, Secretário de Estado, líder espiritual, escritor, e influenciador de ações e estratégias de desenvolvimento orientadas em defesa da democratização de acesso à terra, defesa da natureza, soberania alimentar e agricultura camponesa como modo de vida.

O aparente gigantismo deste relato na  verdade minimiza o que ocorreu naquela  despedida uma vez que Frei Sérgio, como escreveu o presidente Lula foi e é, de fato, “um exemplo e inspiração a todos nós”.

O reconhecimento dessa realidade pode ser avaliado pela presença daquela multidão, na igreja lotada do Convento São Boaventura (distrito de Daltro Filho, Imigrante, RS). Amigos que incluíam pelo menos quatro deputados federais, cinco deputados estaduais, o ex-governador Olivio Dutra, o atual e dois ex-ministros do Desenvolvimento Agrário (MDA), delegados dos Ministérios da Agricultura e Desenvolvimento Agrário, diretores de instituições de ensino, coordenadores e lideranças de organizações sociais, os presidentes e superintendentes do Incra Nacional e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e inúmeras parcerias de várias fases e períodos de vida. Ademais, os serviços religiosos foram prestados por – no limite de minhas anotações – pelo menos dois bispos, 8 frades, um pastor e um reverendo.

Tudo isso porque, segundo escutei em alguns depoimentos, “apenas uma pessoa muito boa seria capaz de reunir, em local tão pequeno, tantas pessoas boas vindas de regiões tão distantes” ou ainda “algumas pessoas não morrem, ficam encarnadas nos que as conheceram”,  e finalmente, agora nas palavras de Frei Olávio Dotto, Ministro Provincial dos Franciscanos do Rio Grande do Sul, Frei Sérgio morreu de tanto viver

Em declaração do Cimi, ele foi semente e semeadura, força viva a mover o mundo na direção do Bem Viver, da fraternidade, da solidariedade e da justiça social. “Foi esteio e tronco antigo, firme, enraizado nas premissas do amor – aquele amor profundo de Jesus, de um Evangelho encarnado no meio dos pobres, dos pequenos e dos injustiçados, no caminhar junto aos povos indígenas, quilombolas, sem-terra e pequenos agricultores.”

Creio que estas palavras resumem bem a passagem pela vida de uma pessoa que viveu de maneira simples e despojada, sem nada reservar para si, tudo oferecendo aos demais. Tendo sido perseguido e ameaçado de morte, jamais transigiu em relação a seus princípios de solidariedade para com os mais necessitados. Na tentativa limite, para alcançar decisões políticas bloqueadas pela insensibilidade de alguns gestores públicos, colocou em risco a própria vida, em cinco greves de fome. Na participação direta de vários conflitos foi gravemente ferido pelo menos duas vezes. Com esta postura escreveu dois dias antes de falecer, em uma espécie de carta testamento, que chegava aos 70 anos “acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das Benções divinas.”

Em resumo, Frei Sérgio demonstrou ser possível, para uma pessoa espiritualizada e com fé na capacidade humana, viver muitas vidas em uma só, e assim, trabalhando para contribuir com mudanças na vida de outras pessoas, mudar o mundo.

Para mudar o mundo é preciso ter coragem”, e isso não faltou para ele, disse Stédile, enfatizando a importância e a escassez, na história da humanidade, de pessoas capazes de manter, permanente, como Frei Sérgio, a força da coerência entre as ações e as ideias que defende.

E assim retornamos ao tema dos orixás, da natureza humana, da Natureza Maior que a engloba e da espiritualidade cuja força não podemos negar mas devemos respeitar, mesmo que não alcancemos entender.

Em qualquer doutrina que se adote, será fácil perceber que atualmente a fragilidade das relações amorosas e afetivas decorre do avanço do medo e da insegurança, em substituição ao respeito mútuo. A ausência de perspectivas e a sensação de abandono explica isso, que se reflete na sociedade, como causa e consequência de iniquidades, pela criminalização da miséria, pela concentração de riquezas, pelo esgarçamento de direitos e pela construção de zonas de sacrifício decorrentes de crimes socioambientais. São sinais do avanço de projetos de desumanização, que prosperam mais facilmente na ausência de espiritualidade e na falta de lideranças guerreiras, que defendam o que está sendo perdido.

Vejo nisso sinais de que todos os povos precisam de pessoas como Frei Sérgio, dispostas a lutar em favor do combate às misérias e em defesa das pessoas indefesas.

Isto me parece associado com aquela perspectiva das religiões africanas, que com apoio em suas divindades de fundamentação na Natureza, retiraram  das lutas pela preservação da espiritualidade, a força mantenedora de sua humanidade sob o terror da escravatura. Uma luta desigual, da fúria dos opressores, tentando acabar com a cultura, contra a resistência maliciosa, inteligente e absolutamente corajosa, que utilizava subterfúgios relacionados a todas as dimensões da vida possível, no exercício da fé e seus símbolos, para resistir.

Os símbolos passaram pela transfiguração dos orixás em santos cristão, estavam no preparo dos alimentos preferidos pelos santos, no encantamento das festas populares, nas cores, nas danças, nas orações, nos tambores, nas guias e nos serviços de limpeza como a bateção de plantas referida no início desse texto.

Dos orixás, destaco aqui São Jorge, o Santo Guerreiro. Ele teria sido morto por se recusar a trucidar cristãos, contrariando ordens do imperador romano Diocleciano. Exemplo de fé, coragem e compromissos inabaláveis, São Jorge é Ogum. Espírito guerreiro, guardião dos caminhos, da metalurgia, tecnologia e agricultura. Ogum é comilão, detesta bajuladores e adora sopas de galo e feijoadas. Em seus dias de festa são relembrados os compromissos de luta e promovidas as grandes partilhas, de comida e fé.

Lembrando que estas são algumas das características mais evidentes de Frei Sérgio, um homem branco que se mostrava respeitoso a todas as religiões sem descuidar de sua extremada fé cristã, trago aqui um depoimento pessoal. Em determinada ocasião, perguntado se ele falava com Deus e se Deus respondia às suas falas, Frei Sérgio disse: “sim, com atos, com evidências de realidade que às vezes custo a entender, mas que depois se revelam como a resposta divina às minhas perguntas”.

Hoje, anos depois, entendo que aquela resposta equivale à ensinamento de liderança espiritual de matriz africana, que a rigor deveria ser ensinada nas escolas por ser de valia para todos nós (e que espero não estar distorcendo ao repetir de memória): quanto mais tempo a gente vai avançando dentro daquilo que é nosso, aceitando e respeitando todas as crenças e religiões, mais evoluímos e menos precisamos de elementos de outras crenças, para nos afirmar. 

Posso estar muito enganado, mas acredito que isso tem conexão direta com as práticas de vida de Frei Sérgio, que transcrevo aqui aproveitando as palavras de Andrei Thomaz Oss-Emer, da CPT-RS  “sempre foi camponês, significou a existência e a resistência camponesa, afirmando em coletivo que a vida é formada por muitas jornadas, nas quais nossa vida tem sentido quando trilhada em coletivo”.

A perplexidade que ajuda a formatar aquilo que aceitamos como realidade se associa a uma coerência de eventos em permanente risco de transformação. Não é essencial, até por ser impossível alcançar compreensão plena dos significados e revelações que a vida oferece. O fundamental está na certeza de que tudo e todos estamos conectados e que há uma luta entre forças de agregação e desagregação, onde mesmo sem perceber, atuamos.

Por isso, finalizando o relato das experiências desta semana posso afirmar que as palavras que escutei de Frei Sérgio, de Iyá Vera Soares, e de outras pessoas que estiveram nos eventos acima relatados, passam a ser fundamentais para minha interpretação atual da realidade. Creio que haverá nisso algo de Maria, algo de Iemanjá e talvez muito de Ogum, atuando de maneira que sinto positiva, que me desafia e conforta, ainda que eu não consiga explicar ou mesmo entender.

Mas isso não importa. Não sendo dos mais sabidos acredito na conveniência de que os grandes mistérios permaneçam inexplicáveis.

Uma música? Ogum, de Zeca Pagodinho e Maria Bethânia.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

|

Newsletter