No final de 2021 escrevi nesta coluna a respeito da instalação, na Austrália, da Caixa Preta da Terra. Se tratava de projeto internacional a ser complementado em 2026, onde um conjunto de instrumentos conectados à redes satélites registraria nosso avanço, rumo ao fim do tempo dos humanos na terra. O projeto está em andamento e vai garantir a preservação -para a curiosidade de outras formas de vida, quem sabe alienígenas – dos registros do apocalipse, caso ele não venha a ser evitado.

O que está sendo monitorado naquela estrutura é o tic tac do relógio do juízo final. Criado em durante a guerra fria entre União Soviética e USA, aquele sistema anunciava que em 1991 faltavam 17 minutos da meia noite. Agora, em janeiro de 2025, estamos a 89 segundos do fim do mundo. As causas envolveriam essencialmente o aquecimento global e os avanços do uso militar da inteligência artificial e da energia nuclear.
A maioria das pessoas prefere não olhar para isso. Afinal, é péssimo o sentimento de infelicidade e impotência carregado por informações desta natureza. E é justamente aí que reside o maior perigo: a apatia e o negacionismo são doenças que tendem a acelerar o avanço do pior. A respeito disso, naquele artigo de 2021 citei um texto do craque Raí, irmão do super-craque Sócrates, sobre a peste, que reafirmo aqui. Nas palavras dele, se referindo ao Bolsonarismo, se não combatermos a peste que nos ameaça, ela nos transformará. Delegando nossas responsabilidades e poderes aos agentes do caos, passaremos a ser a própria peste.
E de fato, foi lutando contra a instalação de uma nova ditadura que impedimos o pior.
Mas também foi fazendo vista grossa aos laços de retroalimentação da crise que chegamos a este ponto. Agora, os indicadores de degradação da vida chegaram a patamar que justifica/exige a reiteração de denúncias e a emergência de medidas radicais. Em seu mais recente livro (Ecocidio), o cientista Luiz Marques destaca que a próxima utopia da humanidade pode se resumir à luta pela sobrevivência. Não mais o socialismo, a casa própria, os filhos na universidade, uma vida calma ou mesmo coisas menores a exemplo dos marcadores diferenciais de abundância, a exemplo das cirurgias plásticas “de moda”, do carro do ano, ou do reconhecimento midiático e algum tipo de fama. A sobrevivência! Aquela realidade distópica primária, com a humanidade reduzida a disputas ferozes, no dia a dia, pelo acesso a tudo que possa que se referir a condições essenciais para manutenção da vida.
E isso merece muitas reflexões.
De um lado, porque confiamos na racionalidade humana mas também porque não podemos fazer qualquer coisa a respeito, podemos deixar de lado as preocupações em relação à guerra nuclear e ao uso da inteligência digital por regimes ditatoriais.
Mas de outro lado, naquele espaço onde nossas atitudes fazem diferença, precisamos entender que ainda estamos em tempo de agir. Para começar, sabemos que estamos em um território privilegiado. Afinal, as evidências indicam que o aquecimento global disparará as tragédias de maneira desuniforme, sendo que as condições naturais do Brasil são muito favoráveis ao retardo dos dramas. Aqui, em que pese as diferenciações horrendas de acesso a tudo, a disponibilidade de recursos e de grandes contingentes populacionais vivendo em relativa harmonia com a natureza garante perspectivas de otimismo, a serem consideradas. Por exemplo, os moradores do semiárido e do sertão nordestino podem capacitar os moradores do sul e do sudeste a uma convivência adaptativa às tendencias de alteração em nossos biomas, pelo aquecimento global. Ao mesmo tempo, o avanço da conscientização das populações urbanas, quanto à importância do que ocorre nos territórios rurais, para a vida nas cidades, pode levar à mudança no perfil dos gestores e das políticas públicas que hoje atuam de forma a agravar nossos problemas socioambientais.
Mas para isso precisamos acelerar verdadeira revolução na atual realidade de acesso/controle sobre os recursos naturais e políticas de estado. Literalmente, nas palavras de Luiz Marques, o modelo agroexportador (do agronegócio que domina nossos governos) que se coloca como responsável maior pelos quatro vetores que degradam a vida e impulsionam o colapso socioambiental, não pode ser corrigido e precisa ser destruído. Aqueles vetores de degradação impulsionados pelo agronegócio seriam (1) o aquecimento global (pelo desequilíbrio e os crimes ambientais, as inundações e a desertificação…), (2) a aniquilação da biodiversidade (com a ruptura de serviços e equilíbrios ecossistêmicos e a emergência de zoonoses,…), (3) a poluição química/industrial (pela contaminação do ar, da água e dos solos e pelas doenças causadas pelos agrotóxicos e outros xenobióticos,…) e (4) a ampliação na desigualdade socioeconômica (pela degradação da política, com a captura da democracia pelo capital, a criação/ampliação de zonas de sacrifício, a violência institucionalizada e o agravamento na concentração de terras e poder…).
Em outras palavras o modelo de agronegócio financiado com recursos escassos e subtraídos de áreas prioritárias ao presente e futuro dos brasileiros, precisa ser substituído por alternativa que recupere o vínculo fundamental entre nossas populações e suas culturas regionalmente vinculadas às características vitais dos diferentes territórios e ecossistemas.
Trata-se de revalorizar conexões práticas, de ordem cultural e espiritual, entre a sociedade e a natureza, de maneira a recuperar os compromissos plurigeracionais que abandonamos e que se mostram essenciais para sustentação das mudanças estruturas necessárias.
Entre estas, uma das bases de apoio, ou um dos pontos de partida, corresponde à consciência coletiva de que todas as perspectivas de concentração, que viabilizam monopólios, são criminosas e insustentáveis. Os monocultivos na agricultura e na formação do inconsciente coletivo, a partir das grandes mídias, correspondem a doenças daquele tipo, que para serem superadas, exigirão democratização do acesso à terra e o controle público dos mecanismos de informação/compreensão, organização e mobilização política.
E aqui se faz conveniente relembrar que aqueles espaços onde as tragédias tendem a emergir primeiramente e de forma radical, correspondem aos grandes aglomerados populacionais. Provavelmente a barbárie surgirá naqueles ecossistemas urbanos que já hoje, pela privatização de serviços públicos, escassez de água, alimentos, energia e segurança, se mostram incompatíveis com a qualidade de vida de milhões de mulheres, crianças e idosos. Quanto maiores as cidades, mais complexa será a questão da segurança física, alimentar e sanitária. Portanto, embora ocorrendo entre nós, as crises explodirão nos países do capitalismo central, onde já se observa a a emergência de um imaginário de fugas para os territórios rurais, de países satélites, como o nosso.
Isso também já acontece nas grandes cidades do Brasil, onde o sonho de uma vida tranquila no campo se manterá no espaço das impossibilidades até que as populações urbanas se conscientizem da urgência de alterações de ordem político-estrutural que o inviabilizam.
Objetivamente, o retardo do avanço dos ponteiros do relógio do apocalipse, entre nós, dependerá da conscientização de nossas populações urbanas. São elas que definirão a configuração de políticas públicas relacionadas às pautas ambientais e tudo o que será indispensável para a exequibilidade de novas utopias.
Basicamente, precisamos olhar para experiências que estão encaminhadas no rumo que nos parece correto, espalhar a consciência nacional a respeito de sua importância para o futuro de todas e todas, e eleger políticos comprometidos com aquela visão.
Tudo a ver com as eleições de 2026.
Um exemplo de que não estou falando por falar, sem o apoio de referências do mundo real ? Na semana passada (7 de fevereiro) estive na solenidade do 27º aniversário do assentamento Contestado, na cidade de Lapa, PR. Ali, onde foram assentadas 108 famílias, hoje vivem cerca de 600 pessoas e o grupo planeja reorganizações que poderão acomodar, nos próximos 25 anos, em torno de 2 mil pessoas. A organização local comporta a Associação Agrícola do Contestado, a Cooperativa Terra Viva, a Escola Latino Americana de Agroecologia, outras formas de associações por setores de atividade, uma creche para crianças a partir dos 4 meses de idade, escolas de ensino médio, e (iniciando agora) cursos de formação pós médio em administração rural e turismo. Muitos dos filhos da primeira geração se tornaram profissionais de qualificação superior e todas as famílias contam com moradias de qualidade, boas estradas, energia elétrica, mercado, água potável, posto de saúde, igrejas, e lazer incluindo práticas de futebol masculino e feminino e rotina de festas comunitárias, além de projeto de espaço para acolhimento de idosos, com acompanhamento especializado.

A produção é diversificada, envolvendo contraste entre famílias totalmente agroecológicas, em transição para a agroecologia ou mantendo o modelo do agronegócio que depende de insumos químicos em regime de monocultivo. Ainda assim, em maioria, as famílias assentadas dominam e executam sistemas de base agroecológica, comercializando interna e externamente alimentos saudáveis (frutas de clima temperado, hortaliças e grãos).
A Cooperativa Terra Livre, com mais de 240 associados, oferece mais de 20 toneladas semanais para a merenda escolar de 120 escolas públicas. O assentamento também mantém cerca de 1.000 hectares de floresta nativa, além de muitas áreas de agrofloresta nos lotes, garantindo Assistência Técnica comprometida com sistemas de produção protetivo ao ambiente e buscando formas de compensar a famílias que cuidam e recuperam a natureza.
Na festa de aniversário do assentamento, com baile, campeonato e futebol e exposições sobre a construção e os projetos de futuro daquela realidade, cerca de mil pessoas desfrutaram da abundância de uma partilha de realizações o que permite destacar, aqui, que aquele coletivo se apresenta como um exemplo de utopia realizada e em construção permanente.

E sendo este apenas um dos exemplos das possibilidades de sucesso associadas à uma organização sócio-política comprometida com o combate às desigualdades e com a proteção à natureza, vale reafirmar: nestas eleições, onde o medo e a indignação serão elementos definidores de votos das populações urbanas, precisamos ajudá-las a entender que a crise só será inevitável, se interrompermos as políticas tortas conduzidas pelas representações legislativas e executivas que operam a serviço do caos.
Precisamos eleger Lula no primeiro turno, e garantir que seu novo governo conte com apoio de bancadas legislativas e governadores estaduais comprometidos com aquelas mudanças estruturais que nos permitirão ocupar o lugar de liderança devido ao Brasil, entre o concerto das nações, no combate ao aquecimento global e suas consequências.
Pra começar, precisamos retirar de funções chave e órgãos públicos todos e todas que se posicionam contra a reforma agraria popular, contra o fim da jornada 6X1, o passe livre no transporte urbano, a tributação das grandes fortunas, o fim das isenções de impostos a agrotóxicos, a implementação do Pronara, o fortalecimento das políticas de cotas e a criminalização/penalização dos golpistas e seus financiadores ocultos.
Uma música? De Cartola: Preciso me encontrar.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

