Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Ano eleitoral vai transformar 2026 num caldeirão fervente

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Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Daqui em diante, tudo aquilo que possamos fazer, pensar ou ignorar, se refletirá nas eleições

Acabou o carnaval. Não é coisa para rir, nem para chorar. Acabou e pronto. Mais uma vez. E antes de nos livrarmos da ressaca já estamos no calor das questões políticas que vão transformar este ano num caldeirão fervente.

Daqui em diante, tudo aquilo que possamos fazer, pensar ou ignorar, se refletirá nas eleições e tende a ser decisivo para nosso futuro. Então, pode ser uma atitude de bom senso aproveitar os próximos dias para refletir sobre o que este carnaval nos trouxe de novo.

Mesmo sem entender muito das regras que definem a hierarquia das escolas campeãs, quem assistiu os desfiles e vem acompanhando os comentários, há de ter notado que também ali já não sobra mais espaço livre de condicionamentos estabelecidos pelo poder do dinheiro e pelas e relações políticas. Acho que deve ter sido sempre foi assim, com a novidade de que agora as intencionalidades ficaram bem mais explícitas. Como no domínio das políticas de conchavos de ocasião, onde predominam aquelas relações de amor fingido, tudo indica que neste carnaval a disputa das escolas cariocas correspondeu a uma guerra definida pela grana, onde as informações mais valiosas estão nos detalhes.

Por isso, entendo que o resultado das disputas entre as grandes escolas pode ter sido afetado de saída por relações de medo, construídas em favor de interesses que perdem espaço desde que falhou a última tentativa de golpe. Me refiro à imediata prisão de golpistas de alto escalão, às ameaças de desmascaramento de parlamentares corruptos, às associações entre o Banco Master, o crime organizado e prefeitos e governadores bolsonaristas, tudo aquilo acelerado pelo sucesso de políticas do governo Lula, que tornam praticamente certa, sua reeleição. Isso, mais o contraste entre e o poder da grana investida no carnaval das grandes escolas, em contraste com a audácia quase juvenil, a inexperiência e o rebuliço que o tema da Acadêmicos de Niterói impôs à todas as mídias do país, ajudam a entender o que aconteceu.

Voltamos a viver aquela tensão, aquela síndrome do medo. O medo de um novo tipo de golpe.

Com a Acadêmicos de Niterói homenageando a trajetória de Lula, alegando crime eleitoral, se apressaram a pedir proibição do desfile. O TSE rejeitou os pedidos. O desfile foi liberado e os ministros Kássio Nunes Marques e André Mendonça, que estarão controlando a presidência e a vice-presidência do Supremo Tribunal Eleitoral (TSE), durante as eleições, afirmaram seus entendimentos de que até ali não haveria indícios de crime. Como o futuro vai depender do entendimento deles, durante as eleições, todos ficamos de orelha em pé. Inclusive, me ocorreu – e comentei- que o melhor seria se o desfile da Acadêmicos de Niterói fosse cancelado, ou se a escola mudasse tudo que fosse possível mudar. Trocar até o Olê Olê Olá, Lu-lá, Lu-lá por olê olê olá, O-Bá, O-Bá, por exemplo, e assim por diante. Mas não. A decisão da escola foi fincar o pé, escorar o cotovelo no balcão e ir em frente. A decisão do governo se limitou a impedir que os ministros e a primeira-dama desfilassem com a escola.

Aconteceu. E foi lindo, direto, forte, alegre, divertido e boicotado pela Rede Globo. Será comentado durante muito tempo, tanto em Niterói como no Brasil superficial e quem sabe até no Brasil profundo. A escola venceu o tempo, fez história. Foi Davi, exemplo de coragem e ousadia, vitorioso mesmo na derrota conta Golias. Mas eu gostaria que não tivesse acontecido este ano, até porque, como previsto, a oposição já avisou que vai entrar na justiça do TSE, alegando crime eleitoral.

E é preciso reconhecer que o desfile da Acadêmicos de Niterói foi algo como uma partida preliminar, um esquenta antes dos jogos principais do Carnaval. Quando vieram as outras escolas, os grandes times, ficou evidente pelas fantasias, pelos carros e pela tradição de grandiosidade que orienta os julgamentos daquelas disputas: não havia como a escola de Niterói ir muito longe neste carnaval do Rio. Assim, embora com motivos muito justos, e com – para meu prazer- a melhor das músicas (único quesito onde a escola recebeu – dos quatro jurados-, duas notas dez), finalizados os desfiles a escola foi rebaixada  e os bolsonaristas festejaram. Resultados? Difícil dizer. Parece que há uma espécie de regra geral nas disputas do carnaval carioca, onde as escolas pequenas, no mesmo ano em que ascendem, voltam a cair.

Nesse sentido é possível interpretar que aconteceu o normal, com repercussões diversas. Ótimo para escola, que venceu no sentido de alcançar notoriedade impensável, com repercussão internacional. Péssimo para nós, que ainda podemos ter muito a perder, e nada mais a ganhar. Por isso vou repetir, teria sido ótimo acontecendo em qualquer outro ano, que não esse.

Por outro lado, deu para ver que neste carnaval a ênfase das coreografias e das mensagens dos sambas-enredo, em todas as escolas destacou, em paralelo à festa, à alegria e à cultura, processos e projetos de natureza política.

Assim, o carnaval carioca parece avançado politicamente, abandonando aquela imagem tradicional de convite à alienação e fuga aos desafios do mundo real, passando a explicitar compromissos com a conscientização popular. Um enorme progresso, que não é inédito nem parece ter alcançado a todos os foliões, mas que marca uma transição de conteúdo. E que esteve presente também no carnaval de rua, em todas as cidades que a televisão mostrou.

Aí está algo que me parece justificar o sentimento de este carnaval foi especial, por que colocou alegria e a maior festa popular deste país como elementos de estímulo e apoio à disputa eleitoral deste ano, em defesa da democracia.

Penso assim por que os desfiles que eu vi, mostraram o essencial: a timidez foi superada. O povo e as escolas não aceitam mais o papel de abafadores da consciência, nem se limitam a referenciar de grandes nomes, ou se intimidam diante das grandes figuras.

Com isso, partes sombreadas do inconsciente coletivo foram iluminadas de tal forma pelas escolas, que, olhado com isenção, não há como negar: este carnaval encarnou a luta contra todas as discriminações e desta forma se colocou como aliado de todos e todas que se percebem compromissados/as com a construção política de um novo país. Sem complexo de vira-latas, independente, soberano, em aprimoramento e com orgulho de suas raízes.

Sem dúvida, foi empolgante acompanhar a trajetória heroica da vida de Lula, o menino que se transformou numa ideia tão cativante que além ter melhorado a condição de vida de milhões se projeta -ao final de seu tempo- como um vetor capaz de contribuir para alterar o futuro de todos. Entretanto – e isso é grande- uma comparação do samba-enredo da vida de Lula com as outras histórias cantadas no carnaval do Rio, mostra a riqueza de nosso povo. Guardadas as dimensões dos personagens, é possível dizer que, no todo, as nuances estéticas e dramáticas projetadas nos sambas-enredo revelaram correspondências de conteúdo para as tão diferentes, mas igualmente magnificas trajetórias de vida ali representadas.

Particularmente, entendo que este carnaval foi extremamente rico na exposição de heróis e heroínas revolucionários/as como Ney Matogrosso, Rita Lee, Carolina Maria de Jesus, Xico Science e, de importância ainda maior, no destaque ao espiritualismo boicotado há séculos, das mulheres negras, das sábias e perseguidas mulheres bruxas e de divindades de todas as religiões entre outros aspectos que perdi, ou não alcancei compreender. Escolas chamando e mostrando Exu que abre caminhos e espíritos guerreiros da floresta amazônica, cobrando iniciativas concretas, em defesa da vida biodiversa. O Principe Negro Custódio, de memória controversa, o batuque do sul e a ascensão do negrinho do pastoreio; o candomblé e Bembé do Mercado.  A criatividade e o brilho de pessoas grandiosas do povo humilde, encarnadas em Rosa Maria Magalhães e na simplicidade do Mestre Ciça, o grande vencedor deste carnaval.

Bola pra frente. A escola que homenageou Lula caiu fora do grupo especial e isso enfatizou a importância de sua ascensão. Fato que se estende a todos que possam se identificar com as realizações e propostas da nação zumbi de Chico Science, com o Rock de Rita, com a coragem e o pioneirismo revolucionários de Ney, de Carolina Maria de Jesus, de Lula e de tantos que ainda aprenderão com eles, a fazerem o melhor de sua vida, tocando no coração dos que não se recusam, olhando para si, a enxergar possibilidades de grandeza, em todos/as os/as demais.

Como exemplo adicional, para finalizar este comentário, tivemos aquela estupenda homenagem ao MST, que com um samba-enredo bonitaço e uma coreografia marcante, deu à acadêmicos de Tautapé o 4º lugar no carnaval de São Paulo. A escola voltará a desfilar no grupo das campeãs, este sábado (21). No enredo, a vida começa com Tupã, o deus Tupi Guarani. E evolui descrevendo a história de ocupação do nosso território. Expropriações, injustiças, degradação e lutas desiguais, de resistência, por parte dos povos do campo, das matas e das águas. Finalmente, a escola conclui com evidências de realizações que mostram a viabilidade de um projeto de país mais justo, mais decente, mais includente. Este objetivo nos desafia a todos, envolvendo a valorização de quem quer se proponha a defender a natureza, criando conscientização emancipatória e participativa, produzindo e repartindo alimentos saudáveis.

Nesta perspectiva o carnaval deste ano se associa ao que pode emergir de sua ressaca. Ele enfatiza e cobra posicionamentos políticos e ações concretas, mostrando resultados e reclamando espaços crescentes de participação popular para construção de um projeto de nação soberana.

A Reforma Agrária Popular ganhou as ruas como bandeira coerente com nossas necessidades mais prementes: proteção dos ecossistemas, combate aos agrotóxicos, multiplicação de oportunidades de trabalho envolvendo ocupações produtivas relacionadas à expansão da agroecologia  e à oferta de alimentação saudável para as populações urbanas.

Portanto, pensando sobre este carnaval acredito que ele nos trouxe muita coisa de bom. A união de elementos da folia, com arte, poesia e elementos históricos, orientada para a construção de consciências ajudará a desmontar os discursos, que estarão muito ativos neste período eleitoral.

Nossos medos serão cotejados com nossa indignação e com a força do povo, nas ruas, o que espero que garanta vitórias sobre a apatia, o comodismo e a covardia. Para os golpistas, que também estão com medo ao ponto de fazer malas de dinheiro voar pela janela, desejo a prisão e longa vida, em convivência com os amores fingidos e os ódios sinceros que tão bem os caracterizam.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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