Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Combate ao negacionismo climático precisa ser prioridade

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Soldados do Corpo de Bombeiros e voluntários fazem busca e resgate de pessoas em escombros de casas soterradas por lama após fortes chuvas
Soldados do Corpo de Bombeiros e voluntários fazem busca e resgate de pessoas em escombros de casas soterradas por lama após fortes chuvas em Juiz de Fora (MG) | Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tragédias em Minas Gerais nesta semana já contam dezenas de mortos e milhares de desabrigados

Com as tragédias em Minas Gerais, que nesta semana já contam dezenas de mortos e milhares de desabrigados, o tema das alterações e pior, do negacionismo climático precisa ocupar espaço de destaque entre as prioridades que orientarão nossos posicionamentos neste ano eleitoral. Precisamos eleger representantes da sociedade verdadeiramente comprometidos com isso.

Devemos encarar, até por precaução egoísta, que aquilo que se passa hoje com as maldades de Donald Trump em relação aos direitos humanos em Cuba, em Gaza, na Venezuela, ou com a estupidez descaradamente criminosa de Javier Milei, destruindo os direitos trabalhistas na Argentina, tem paralelo com o horror dos soterramentos em Minas. São realidades traumáticas indicativas de erros e covardia política que, não sendo bloqueadas e corrigidas a partir do que já significam, se expandirão e inevitavelmente irão nos alcançar.

Por isso, o acerto de recente decisão do governo federal, recuando da privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, que agilizaria o fluxo de mercadorias obtidas pela destruição da floresta amazônica (Decreto nº 12.600/2025, ao incluir – em favor do Agro ecocida- trechos daqueles rios no Programa Nacional de Desestatização – PND), tem tudo a ver com aquilo, e deve ser comemorado.

O ativismo dos povos indígenas, que levou àquele resultado por consequência da ocupação do terminal portuário e do escritório da Cargill, exportadora de grãos em Santarém (cerca de 400 indígenas representantes de 14 povos do Baixo Tapajós/PA) ocorreu “pelas nossas vidas, pelos nossos territórios, e pelo futuro da Amazônia e do planeta”, como bem afirmou Auricélia Arapiun, liderança do povo indígena Arapiun.

Ela está certíssima. O que aconteceu ali foi algo conduzido por poucos, no interesse de milhões.

A vista grossa às implicações do apoio político ao modelo de agronegócio que ameaça a vida constitui uma dimensão de negacionismo que precisamos entender e enfrentar.

Não faltam documentos científicos sustentando esta interpretação.

Vou citar apenas alguns dos mais recentes.

No caso da necessária proteção à floresta amazônica, sabemos que o valor anual da chuva ali produzida, pela floresta em pé, Amazônia, excede os R$ 100 bilhões de reais (US$ 20 bilhões). Isso medindo apenas a água gerada, valorizada em US$ 0,00594 por metro quadrado (US$ 5,94 – cerca de 33 reais pela água gerada em um hectare de floresta em pé). Portanto, sem considerar os efeitos multiplicadores dos rios aéreos, sobre a economia do centro sul de toda a América Latina.

Segundo os pesquisadores, cada metro quadrado de floresta tende a ofertar 240 ± 60 litros por ano. Na Amazônia isto alcançaria a 300 ± 110 L/ano. Assim, a Amazônia Legal brasileira proporcionando 2,4 milhões de litros de água por hectare/ano ofereceria ao país, em forma de água, US$20 ± 7 bilhões por ano. Isto não deveria ser levado em conta nas políticas públicas?

Os pesquisadores concluem que sim e alertam que 85% da agricultura brasileira depende das chuvas, onde algumas lavouras demandam mais água do que a área que ocupam teria capacidade de gerar, mesmo que coberta pelas florestas nativas do Pará. Por exemplo, cada metro quadrado plantado com o algodão GM, que hoje avança sobre a Amazônia Legal, necessitaria de 607 litros/ano. O mesmo metro com algodão consome o dobro do produzido em água, com a floresta intacta.

Enfim, com os rios sendo transformados em estradas para escoamento de safras de grãos o governo facilita a  devastação da floresta amazônica. Com isso, contribui para alteração no ciclo das chuvas, acelerando crises relacionadas à escassez de água em alguns pontos e ao excesso em outros.

Os impactos econômicos negativos tendem a ser crescentes no tempo. As áreas remanescentes de floresta tendem a ser afetadas pelo clima mais seco, entrando em regime de degradação progressiva que se amplia com maiores riscos deincêndios florestais.

As relações complexas do agronegócio com o clima podem ser observadas pelas influências das multinacionais e da bancada ruralista, tanto em práticas relacionadas à desestruturação das legislações ambientais através do que ocorre em outras dimensões.

Esta semana, por exemplo, a imprensa noticiou perseguição a uma professora municipal que denunciava impactos dos agrotóxicos sobre a saúde de alunos no município de Belterra (PA). Naquela região têm sido crescentes os registros de intoxicações relacionadas a venenos utilizados em lavouras de soja e milho. Belterra concentraria 135 dos 231casos notificados na década. As denúncias da professora Heloise Rocha teriam levado à suspensão judicial do uso de agrotóxicos, no entorno de 16 escolas (incluindo aquela onde ela lecionava) e de uma Unidade Básica de Saúde, motivo pelo qual ela teria sido afastada.

(Gráfico: Rodrigo Bento/Repórter Brasil – disponível em Repórter Brasil

Nas estratégias do agronegócio, as perseguições a denunciantes de crimes que expõem suas facetas negativas correspondem a uma espécie de lugar comum. Elas se assemelham em certo sentido às pressões para obter alterações em livros escolares. Publicação recente de Gisele Lobato, em Aos Fatos,  examina “ofensiva sobre editoras” … liderada por ONG De Olho no Material Escolar, “que dissemina desinformação climática”. Basicamente se trata de estratégia voltada à minimização -na educação básica- de percepção das implicações negativas do agronegócio, com ênfase para suas conexões com o desmatamento, as mudanças climáticas e os impactos dos agrotóxicos, entre outros aspectos.

No fundo , se trata de desfazer compreensões que associam negativamente o agronegócio  ao avanço da destruição ambiental, e/ou ao crescimento nos casos de suicídio no campo, problemas reprodutivos, abortos e malformações fetais, bem como a dramas relacionados à contaminação da água, do ar, dos alimentos e do leite materno por agrotóxicos, entre outras situações que estão se multiplicando em todo o Brasil.

Aliás, e isso coloca o tema em abrangência internacional: no início deste mês a Bayer/Monsanto anunciou acordo com indenizações no valor de US$ 7,25 bi, para encerramento de 67 mil processos sobre casos de câncer relacionados ao uso do glifosato. O objetivo da Bayer seria encerrar e impedir novas reclamações judiciais, dentro dos EUA.

Lembrando que o glifosato é o veneno de maior uso no mundo (só no Brasil, 250 milhões de litros/ano), vale destacar que aqueles pagamentos se somam aos bilhões de dólares já dispendidos em indenizações anteriores, e se estenderão por até 21 anos. Com motivação de “reduzir a incerteza jurídica” das litigações, a Bayer se propõe a indenizar pessoas comprovadamente expostas ao glifosato antes de 17 de fevereiro de 2026, que já tenham diagnóstico de linfoma não Hodgkin ou que venham a recebam o diagnóstico dentro de 16 anos após a aprovação final do acordo.

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E aqui está o ponto crucial. Após abrir período para reavaliação do glifosato, no Brasil, a Anvisa concluiu que ele não causa câncer, sobrevalorizando casos de intoxicação aguda e desprezando impactos crônicos, reduziu o o grau de toxicidade para uma centena de produtos que continham aquele princípio ativo.

Para que se tenha uma ideia da importância desta questão, o presidente Trump emitiu (em 18 de fevereiro de 2026) uma ordem executiva incluindo o glifosato nos temas de segurança nacional, “tornando seu acesso e produção uma questão militar e visando garantir seu uso contínuo”. Se trata de resposta ao reconhecimento internacional de estudos apontando que aquele produto como cancerígeno. Literalmente, a publicação cientifica que garantia sua segurança se retratou após ter sido desmascarada por falsidades de conteúdo. Claramente, a medida adotada por Trump objetiva beneficiar a Bayer. Agora, naquele país, apenas a lei federal pode avaliar os casos de contaminação envolvendo glifosato. Isso elimina a possibilidade de tramitações em processos sob em leis estaduais, onde os demandantes vinham obtendo êxito. O fato é que, como a ANVISA, também a agência federal norte americana (EPA – Agência de Proteção Ambiental) considera insuficientes os estudos que mostram incidência de câncer e irrelevantes os riscos associados ao glifosato.

Parece até um deboche, mas é fato que a Bayer acaba de anunciar que, com o decreto do presidente dos EUA ​invocando a Lei de Produção ​de Defesa para garantir o fornecimento de glifosato no mercado americano, não haverá escassez daquele veneno para os usuários de outros países.

Com isso, o agronegócio brasileiro vê justificadas em escala global suas iniciativas para desinformar o país a respeito dos problemas causados por sua forma de operar no território nacional. Isto se relaciona diretamente ao clima e à devastação da Amazônia até pelo fato de os herbicidas correspondem a 45% do total de venenos (quase a metade é glifosato) de uso majoritariamente concentrado em áreas sacrificadas do Mato Grosso e Rondônia (juntos 32% da área tratada no Brasil), seguidas pelo Matopiba ( Maranhão, Tocantins, Piauí e Pará) +  Bahia, com 18%.

Todos estes argumentos pretendiam salientar apenas três pontos: (1) As tragédias socioambientais tendem a se repetir de forma agravada; (2) O agronegócio está na raiz do problema – a desinformação que vem semeando impede a efetivação de políticas públicas para enfrentamento/contenção das tragédias; (3) o heroísmo dos povos indígenas, e o apoio de segmentos do governo Lula, naquela luta desigual em defesa de interesses de todos, precisam ser reconhecidos e apoiados.

É fundamental que isso seja levado em conta nos debates que estão em andamento e que, com o resultado das próximas eleições, definirão o futuro deste país.

Precisamos eleger governadores, senadores e deputados comprometidos com um projeto de nação que envolva a implementacao de politicas respeitosas à saúde humana e ambiental.

Uma música? Novamente, porque sua mensagem é pura e definitiva: Juízo final, de Nelson Cavaquinho.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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