Com os informes sobre as implicações da guerra no Oriente Médio, com o acúmulo de notícias horríveis sobre o clima, sobre o descaso às leis e as barbáries contra mulheres e adolescentes no Brasil (envolvendo inclusive por membros de “nossas” a elites econômica e judiciária), com o escândalo e a corrupção sistêmica e enraizados no centro de poderes da República comprometidos com o Banco Master e a tentativa de suicídio de informante chave daquele esquema, sob a guarda da polícia federal…, de fato, está difícil manter o ânimo. (Após concluído este texto, o “suicidado” foi ressuscitado com notícias sucessivamente modificadas. De início, que ele não havia morrido, depois, de que havia tido morte encefálica e por último, de que estaria na UTI em estado grave porém sem morte encefálica).
E é sobre isso que pretendo tratar nesta coluna: precisamos encontrar estímulos para seguir em frente. E eles existem. Aliás, eles mostram que a realidade está nos exigindo determinação e coragem, para participar na construção do que nos envolve. Se trata de encontrar energia para sair do atoleiro, buscando meios para compreensão das forças em ação e, a partir dali, dentro de nossas limitações e no nosso campo de ação, desenhar caminhos para superação dos medos e dos desafios que o esclarecimento possa nos trazer.
Felizmente temos bons exemplos a relatar, e até o fim do texto vamos chegar a alguns deles. Porém, antes disso vamos à uma breve contextualização sobre a guerra e o clima.
No caso da guerra, onde nada podemos fazer além de mudar hábitos de consumo para minimizar os dramas que virão, a situação pode ser resumida assim: vai piorar.
O Irã já contabiliza (até a madrugada do dia 5 de março) mais de mil mortos. Os relatos oficiais também apontam seis mortes entre soldados dos EUA e dez mortes de civis, em Israel. Porém agora a guerra já se estendeu para o Líbano (77 mortos), Iraque (13), Síria (4), Kuwait (3), Emirados Árabes Unidos (3), Omã (1), Bahrein (1 morto), se tornando um conflito de repercussões globais onde as informações deixaram de ser confiáveis. Aparentemente tudo começou pelo interesse do governo Trump, em criar fatos que lhe permitissem abafar assuntos internos que vinham comprometendo sua manutenção no poder.
Quando os Estados Unidos surpreenderam o mundo com aqueles misseis que mataram o líder máximo do Irã e outras pessoas relevantes na hierarquia do pais, além de 167 crianças, em uma escola para meninas, resultou inviabilizado um acordo de paz que evoluía em bons termos. O presidente Trump fez aquilo confiando (anunciou isso) que a guerra duraria 4 a 5 semanas, o que acabou dando base à argumentação de analistas que alertaram para a discrepância entre os horizontes de tempo e custos com que estão trabalhando os atacantes e a capacidade de resistência dos atacados. Os pontos cruciais, sob a perspectiva econômica seriam estes: (1) O Irã já cumpriu ameaça de bloquear o trânsito de navios pelo estreito de Ormuz.
Em 15 dias os preços dos combustíveis – que já são crescentes – se multiplicarão e a crise será global; (2) a proteção de Israel e das bases e navios norte americanos e dos seus aliados, contra os mísseis e drones enviados pelo Irã, já justificam preocupações relacionadas aos estoques, à capacidade de produção e a desproporção entre os custos, que em todos os casos são largamente desvantajosos para os norte-americanos; (3) a cultura milenar de resistência a conflitos, agora potencializada pela valorização de martírios e pelo sacrifício de crianças, reduz a possibilidade de uma paz negociada. O Irã não vai capitular e os Estados Unidos não conseguirão “vencer” uma guerra sem fim. Possivelmente, mantidas as bases e tendências atuais, estes fatos possam ajudar a entender tanto o saque do petróleo venezuelano como as dúvidas sobre o futuro do Estado de Israel e da continuidade do governo Trump.
Tudo isso sugere que as possibilidades de sucesso e as implicações desta aventura militar, tanto no que diz respeito à qualidade de vida dos norte-americanos comuns, como relativamente à estabilidade socioeconômica global, foram subestimadas, levando a equívocos de planejamento por parte do governo Trump. Se isso de fato aconteceu, possivelmente em breve teremos acesso a argumentações relacionando as últimas experiências militares (ataques anteriores ao Irã e a captura relâmpago da Venezuela) dos EUA, a mudanças “imprevisíveis” de cenário, impostas pela cultura milenar iraniana, sob os ataques. Agora, para os iranianos já não restam opções além da resistência por prazos indefinidos, enquanto para os demais o tempo (e os custos econômicos e políticos) já se fazem desesperadoramente abusivos.
Portanto, na avaliação desta guerra devemos considerar falhas na leitura da realidade, equívocos de planejamento, descaso a efeitos colaterais e subestimação de possibilidades inerentes ao envolvimento e às reações populares. No fundo, este relato descreve a importância de erros comuns, frequentes em nosso cotidiano e repetidos nos outros dramas da atualidade.
No caso do clima, como na discussão sobre a guerra, o negacionismo e a ganância de elites dirigentes, levando a decisões equivocadas e sistematicamente favoráveis ao interesse de grupos minoritários (portanto contrárias as necessidades da maioria), estão na base da questão. Felizmente em algumas dimensões ao menos os impactos do clima podem ser reequacionados, desde que variáveis importantes venham a ser recolocadas sob o controle da sociedade organizada.
Para discutir isso se faz importante lembrar que na natureza não existem eventos únicos. Tudo se repete. Portanto, os anúncios de que aí vem uma nova onda do El Niño, aquele fenômeno climático que nos trouxe as tragédias climáticas de 2024, devem ser levados a sério. Neste contexto, qualquer encaminhamento no sentido de preparação da sociedade para o enfrentamento de crises futuras (no caso, relacionadas ao clima) precisará se apoiar em leituras não negacionistas da realidade, que contribuam – a um só tempo – para a compreensão das relações dominantes de causas/efeitos e para a instrumentalização de ações protetivas.
Com essa perspectiva o MST-RS promoveu (dia 4 de março) um seminário envolvendo representações de todos os agricultores afetados pela última enchente, assentados em municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre. Participaram lideranças dos assentamentos estabelecidos (microrregiões da Cootap) nos municípios de Eldorado, Canguçu, Encruzilhada, Tapes, Charqueadas, Viamão, Nova Santa Rita e Alvorada, com apoio analítico do Conselho Estadual de Direitos Humanos, da Faculdade Josué de Castro, do Instituto Preservar, das Amigas da Terra, da Agapan e do Movimento Ciência Cidadã, além de cinco professores da Universidade Federal do RS e de representações dos gabinetes dos deputados estaduais Miguel Rosseto e Matheus Gomes.

A realização daquela atividade, fruto da organização popular e contributiva para a sociedade em geral, já poderia ser considerada como um resultado expressivo. Entretanto, suas consequências tendem a ir além.
Inicialmente foi discutida (e isso não será detalhado aqui por limitações de espaço) a instalação de um gigantesco Data Center, no município de Eldorado do Sul. O deputado Matheus Gomes apontou as dimensões daquele projeto e suas implicações, discorrendo sobre riscos associados à oferta e demanda de energia, de água, de ocupações produtivas e de facilidades oferecidas pelos poderes públicos local e regional, a gigantes globais da área da tecnologia de informações. Interessados em transferir para o Brasil limitações já enfrentadas por unidades similares, nos Estados Unidos (custos de água e energia, sobrecarga de sistemas, resistência da população, tribulações e imposto), aqueles investidores selecionaram o município de Eldorado do Sul por características que agregam facilidades legislativas à proximidade do aeroporto internacional e da subestação de energia Guaíba 3, em ambiente de inovações tecnológicas, com cedência de 700 hectares em área não inundável e vantagens adicionais decorrentes da inserção subordinada do Brasil (e América do Sul), na conectividade de informações sob controle dos EUA.
Projetada para atender a fábrica da FORD, a subestação Guaíba 3 opera com capacidade ociosa. Supostamente, ela teria possibilidade de oferecer até 5 GigaWats para o Data Center que, no limite, necessitaria de 1,8 GW.
O projeto vincula-se a novo estágio do complexo militar norte-americano, associando-se à reconfiguração/dominação geopolítica global, no contexto de uma “economia de atenções” que avança em paralelo à disputa pelo acesso a recursos naturais estratégicos e terras raras, percebidos como essenciais para a captura de subjetividades e o domínio/controle das nações periféricas.
A sociedade gaúcha praticamente desconhece o que está em jogo. As escassas informações se limitam a elementos de marketing institucional. A Assembleia Legislativa estaria preparando relatório analítico sobre o tema, que foi demandado pelos organizadores do seminário e que deverá ser utilizado como elemento necessário à ampliação do conhecimento e do protagonismo social, a serem ativados através de audiências públicas e ações de massa em defesa dos interesses coletivos.
Mais objetivamente, e agora sobre os impactos do aquecimento global, os facilitadores do seminário evidenciaram que todas as sociedades tendem a construir percepções equivocadas sobre eventos climáticos extremos. Isto se prenderia ao controle/à manipulação de informações e à sobrevalorização isolada de indicadores (temperatura, secas, enchentes) que correspondem à ampla desorganização de relações ecossistêmicas que – por sua vez- dependem da forma de ocupação dos territórios e da assimetria na apropriação dos recursos vitais.
O sistema capitalista, historicamente conduzido em benefício de parcela quantitativamente irrelevante da população mundial (o que colocaria a noção de “capitaloceno”, em oposição à sugestão de responsabilidades generalizadas pelo aquecimento do planeta, popularizada através do conceito de antropoceno), seria responsável tanto pela geração da crise ambiental como pela ocultação de suas responsabilidades.
Um exemplo ilustrativo corresponde ao tratamento privilegiado assegurado ao modelo de agronegócio responsável maior pela emissão de gases de feito estufa, no Brasil, em oposição ao oferecido a modelos amigáveis em relação à natureza, como aqueles propostos pela agricultura familiar de base agroecológica e pela Reforma Agraria Popular. A diferença de recursos destinados ao plano safra do agronegócio (R$ 516 bilhões), em contraste com os valores assignados para a Agricultura familiar e outros segmentos comprometidos com a soberania alimentar (R$ 89 bi), não apenas é gritante como se amplia quando observamos que a indústria de agrotóxicos (que em 2023 registrou globalmente faturamento de US$ 20,7 bilhões) recebe, no Brasil, isenções de impostos (R$ 13 bilhões em 2024) valores maiores do que os disponíveis para o sistema de conversão de modelos produtivos.
Como isto decorre de orientações políticas assumidas pelos representantes da sociedade estabelecidos em postos chave dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, o quadro total revela estarmos diante de problema relacionado à dificuldade de conscientização das populações urbanas e rurais, quanto à necessidade de acordos coletivos em relação a um projeto de desenvolvimento nacional ambientalmente equilibrado e socialmente justo.
O mesmo raciocínio (que repercute em escala internacional) se aplica aos níveis municipais e se associa à crise climática na medida em que as causas e consequências de seus impactos dependem da gestão territorial, envolvendo mudanças nas paisagens que são estimuladas por políticas públicas.
Neste sentido, o enfrentamento de suas tendências negativas exige alteração imediata e radical, nas formas de ocupação do território. Uma comparação simplificada das implicações de modificação na paisagem gaúcha, com a substituição de cobertura biodiversa de caráter permanente, por lavouras de ciclo curto, bem como a desestruturação de legislações protetivas ao longo dos últimos governos liberais, ajuda a entender estes argumentos e suas conexões com a tragédia ambiental de 2024.
Em outras palavras, o enfrentamento da crise ambiental está a exigir expansão de conhecimentos/conscientização social a respeito de interrelações entre os fatores ambientais/geográficos e as ações humanas, para que interpretações coletivas da realidade estimulem, garantam e assegurem suporte a ações consequentes com essa perspectiva.
Objeto do seminário em questão, a busca de avanços nesta direção apontou que a destruição das capacidades de planejamento e de intervenção estatais, pelas gestões neoliberais do governo gaúcho, se colocam entre os fundamentos da crise. Neste sentido, ao mesmo tempo em que se faz necessário ampliar a capacidade de influência da sociedade organizada sobre os poderes públicos, no futuro imediato será necessário que cada grupo populacional, em cada local, se habilite a lidar com suas dificuldades e possibilidades para contenção de impactos do aquecimento global.
Em termos operacionais isto se estende do nível de comunidades para escalas regionais e nacional. Em cada espaço os grupos terão que se preparar para conhecer os riscos e assumir suas responsabilidades coletivas em termos de gestão do território, como condição para a construção de políticas realistas em face de suas potencialidades, ameaças e perspectivas.
A convicção trabalhada no seminário, dando conta de que os ecossistemas dependem do clima e ao mesmo tempo contribuem para sua definição, revelou que: (1) as alterações na paisagem deflagram tendências que demandarão ações planejadas com vistas à contenção e à reversão de processos indesejáveis… e que (2) a organização e a mobilização da sociedade constituem elementos para a construção de mecanismos necessários à prevenção, enfrentamento e minimização de tragédias ambientais.
Para tanto, além da construção e difusão de informações adequadas, se fará necessário (em vista da inviabilidade de soluções individuais e da conexão entre os espaços afetados), que os movimentos sociais, as agremiações, os sindicatos e os partidos políticos se façam mobilizados.
Enfim, tendo em vista que os danos e as ações relacionados à modificações no clima global se expressam localmente, haverá necessidade de mapeamento de prioridades, em termos do que precisará ser desenvolvido nos diferentes ecossistemas. Isto demandará a capacitação e o envolvimento das populações ameaçadas, como condições a serem incluídas entre os elementos fundantes de políticas públicas, envolvendo condicionantes e contrapartidas para concessões de benefícios públicos a investidores privados.
Reconhecendo que as políticas públicas respondem a pressões sociais, e que esperar soluções institucionais por iniciativas do governo estadual corresponderia a ignorar o desmonte de suas capacidades, pelos últimos gestores, coloca a necessidade de ampliação nas formas de ativismo como alternativa para renovação no perfil dos ocupantes de postos chave da administração pública. Os processos eleitorais são relevantes neste sentido.
Em outras palavras, na medida em que os desastres ambientais têm início e evoluem através da captura do Estado por interesses de uma iniciativa privada, que tende a operar de maneira facilitada em função do despreparo da sociedade, para lidar com este tipo de questões, o seminário examinou um caso concreto: a questão do dique para contenção de enchentes, projetado para acontecer no município do Eldorado do Sul.

A Região Metropolitana de Porto Alegre, antes e durante a enchente de 2024. Fonte: https://th.bing.com/th/id/ODF.ur0s-fvi2XFNS_FawJ8tJg?pid=ImgDet&w=32&h=32&dpr=1,3&o=7
Detalhamento do projeto daquele dique revela a inadequação dos planos em que as obras tendem a se basear. Trata-se de uma entre 4 alternativas projetadas nos anos 1970, por agência pública hoje inexistente (a Metroplan), que trabalhou com base em números relacionados à enchente de 1941, bastante distintos daqueles vivenciados na enchente de 2024. Como ilustração, considere-se que a destruição causada nesta última se deve mais ao peso e ao atrito dos elementos em suspensão (200 Kg por m3 ) do que ao volume de água propriamente dito, em que pese seu gigantismo. Neste quadro também deve ser considerada a enorme alteração na ocupação daquele território, ao longo dos últimos 50 anos. Ademais, ainda que existam recursos disponíveis para a obra, alocados pelo governo federal com vistas à recuperação da última tragedia ambiental gaúcha, aqueles valores estão restritos à gestão por parte do governo do Estado, que opera sem atenção ao potencial contributivo da população afetada.
Neste sentido, os mapas disponíveis sugerem que as obras projetadas tenderão a ser executadas de forma clientelista, com escassa transparência, tomando por base cenários irrealistas que envolverão desde o erguimento de taludes em área urbanizada até a exclusão de boa parte da população em relação aos espaços de área protegida.
Ao mesmo tempo, o fato de que ainda hoje a população não teve acesso às informações necessárias para compreensão do que está em jogo coloca em evidência algumas oportunidades relacionadas ao atual momento político.
Em suas conclusões para esta questão, o Seminário apontou a disponibilidade de recursos (R$5,6 milhões depositados na Caixa Econômica Federal) e o apoio de universidades e organizações envolvidas com a justiça ambiental e a proteção dos direitos humanos, como elementos de suporte potencialmente úteis para a reivindicação de um novo projeto, mais ajustado às reais necessidades da população.
Outras iniciativas, como a organização de comitês de defesa popular, audiências públicas e pressões diretas, midiáticas, sobre os governantes, apareceram como elementos indutores de planos de gestão inovadores para os territórios ameaçados, contemplando mecanismos de educação e capacitação social, elaboração de mapas de risco em nível de comunidades, entre outros pontos a serem detalhados posteriormente.
Concluindo, no caso da guerra, como no agravamento dos impactos da crise climática e no uso inadequado de recursos disponíveis para obras corretivas de tragédias ambientais, os impactos negativos tendem a ser ampliados pela apatia e pelo imobilismo das vítimas como também pelos erros de leitura da realidade e outros equívocos de planejamento cometidos por executores ignorantes em relação ao potencial contributivo da sociedade organizada.
A atividade realizada pelo MST, no município de Eldorado do Sul foi bastante elucidativa a respeito disso.
Penso que para todos os gaúchos as informações a respeito da metodologia de trabalho ali exercitada, bem como das conclusões daquele seminário tenderão a ajudar a reduzir, entre nós, o medo da chuva, trauma que nos acompanha desde a tragédia de 2024.
Sabemos agora que podemos fazer muito, e que o futuro dependerá da eleição de deputados, senadores e um governador não negacionistas, que nos respeitem.
No final das contas, só o que não podemos é desanimar.
Música: Raul Seixas, Medo da Chuva.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

