Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Tudo que nóis tem é nóis. E tudo depende da superação do medo

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Mulheres do MST ocupam área em Presidente Epitácio, em São Paulo
Mulheres do MST ocupam área em Presidente Epitácio, em São Paulo | Crédito: Divulgação MST/SP

O futuro de muitos depende do que permitirmos que aconteça

Como pontificou o Emicida: “Tudo que nóis tem é nóis”.

E uma imagem que pode ajudar a discutir algo comum a tudo que ocorre nas dimensões mais abrangentes da vida, está na identificação da forma errada como temos lidado com as causas e consequências do avanço dos monocultivos de eucalipto e soja, sobre o território gaúcho.

Afinal, não é por falta de indicativos de realidade (e de base científica) que a sociedade vem validando a interpretação de que “dentro dos meus direitos, em minha propriedade e em busca do melhor para mim, posso fazer o que quiser e azar dos outros”. Há nisso um medo de exigir mudanças. Um vício de aceitação comodista, indicativo de tendencia a desprezar os sinais de que algo que possa parecer justo e adequado na perspectiva de alguns, eventualmente precisa ser controlado antes de se tornar impeditivo ao atendimento de necessidades/direitos dos demais.

Nesta perspectiva, pretendo desenvolver dois comentários: (1) precisamos exigir revisão de normas, possibilidades e comportamentos aceitos como válidos, quando estes se revelam tendentes a promover/sustentar/expandir iniquidades. Aquelas leis que estimulam o egoísmo a seu limite máximo precisam ser condicionadas por freios que impeçam exageros na busca de vantagens individuais às custas de danos coletivos. E o caminho para alcançar isso exigirá mudança radical no perfil dos legisladores que sistematicamente defendem aquele tipo de normativas, e (2) precisamos levar a sério, para todas as dimensões da realidade que nos afeta, aqueles indicadores que estão cobrando urgência em ações preventivas, para contenção antecipada de resultados inaceitáveis. Ver, refletir e agir.

No primeiro caso, o básico a destacar está no fato de que as eleições deste ano definirão os legisladores de amanhã. E o perfil dominante que aí está, convenhamos, precisa ser modificado. Isso porque conforme indicado por suas atitudes e desejos manifestos, aquela maioria é responsável pela destruição de legislações protetivas ao ambiente, pela naturalização vínculos entre profissionais da política e do crime organizado, por ameaças à democracia, e, no pior dos mundos, pela inviabilização de um projeto de nação autônoma, para o Brasil.

No segundo caso, que também se relaciona aos futuros resultados eleitorais, o problema é ainda mais amplo: estamos minimizando/ignorando sinais a respeito do que está sendo construído pelo Império Norte Americano, com apoio de maus brasileiros e contra a ideia de nações soberanas, em toda América Latina. Aqui a ameaça aponta para o desenvolvimento de ditaduras capazes de tratar nossos povos – com a colaboração de feitores locais – daquela mesma forma com que os palestinos e os cubanos estão sendo tratados.

Para discutir isso podemos retirar alguns ensinamentos daquela ilustração relativa à ocupação do território gaúcho, por monoculturas. Afinal, em todos os casos existem indicações a serem interpretadas e ações a serem deflagradas. As alterações gradativas do cenário, com as mudanças na paisagem, com as modificações nos atores mais relevantes e com a transformação de tudo aquilo que estávamos acostumados a entender como parâmetros capazes de sustentar nossas interpretações da realidade e planejamentos de vida, traduzem o resultado de forças em andamento. Mudanças que aceitamos passivamente por ignorar que elas dependem de nós e que podem estar sendo estimuladas por nossa apatia. Em outras palavras, acontecerá o que, coletivamente, permitirmos.

Em todos os casos, aquelas reconfigurações da realidade que servem aos interesses de alguns poucos, às expensas da maioria, além de indicarem o descaso (da maioria) aos primeiros sinais do mal (e aos alertas quanto à suas implicações) – que seriam facilmente controláveis -, também apontam a que isso nos leva. Para onde estamos indo e o que nos espera.

Isto ocorre em todas as dimensões da vida: nos tornamos parte daquilo que confere poder de concretização ao que nos aguarda. Por isso, quero chamar atenção para alguns dos sinais/tendências mais relevantes trazidos ao conhecimento público pelas grandes mídias, esta semana,

1 – A guerra no Oriente Médio, que já desestabiliza o planeta, não terá vencedores. O Irã acredita que não será derrotado e anunciou suas condições:  exige o reconhecimento de seus direitos legítimos (políticos e estratégicos), o fim imediato das operações militares contra o território iraniano e indenizações pelos danos. Os EUA não podem aceitar isso nem conseguem impedir a crise mundial devida ao fechamento do estreito de Ormuz . Ao mesmo tempo,  o Irã parece ter validado entre os países  vizinhos a interpretação de seus os drones e mísseis (lançados sobre países aliados dos EUA)  devem ser interpretados (opostamente ao que ocorre em relação a bombardeios israelenses no Libano), como contra-ataque orientados a bases militares norte americanas naqueles países, e não a seus povos. Assim, mesmo arrasado e irã será vencedor moral e o governo norte americano precisará buscar outros espaços, para cantar vitória.

2 – Ameaças à América Latina – Em busca de uma saída para a crise por ele criada no oriente médio, o governo Trump parece estar se mobilizando no sentido de “ocupação” das américas. Os sinais a serem considerados aqui se somam ao que já ocorreu com a Venezuela e estaria prestes a acontecer com Cuba. Vale destacar:

2.1A Criação do “Escudo das Américas .  Se trata de articulação entre países subordinados aos EUA (Argentina, o Chile, El Salvador, Equador,  Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Panamá, Paraguai, Guiana e Trinidad e Tobago), que à exclusão do Brasil, da Colômbia, do México e do Uruguai, estariam alinhados e dispostos segundo Trump a “destruir cartéis e redes terroristas” e a “promover estratégias que impeçam a interferência estrangeira no nosso hemisfério”.  A referência à China é bem clara.

2.2 – A articulação direta entre o governo Trump e o prisioneiro Bolsonaro – o governo norte americano solicitou, obteve e posteriormente teve negada autorização para que Darren Beattie, representante da extrema direita que atua como conselheiro para relações dos Estados Unidos com Brasil, para visitar e articular ações políticas com Jair Bolsonaro. O fato (que incluia) ocorre em momento que a crise do petróleo chega ao Brasil, e quando as pesquisas apontam viabilidade eleitoral do candidato antipetista e sem projeto de governo, Flavio Bolsonaro.

2.3- O posicionamento da Argentina em relação à democracia brasileira– o governo Milei (para atestar que a Argentina entende estarem ocorrendo perseguições políticas no Brasil) concedeu asilo político para condenado por ações antidemocráticas realizadas durante a tentativa de golpe de 2023. Se trata de precedente que, em sendo ampliado para outros casos e outros países do Escudo das Américas, terá as implicações que podemos imaginar

2.4 – A base militar norte-americana na fronteira do Paraguai com o Brasil. Foi anunciado novo acordo entre os governos dos EUA e do Paraguai. Se trata de cooperação binacional que a um só tempo garante plataforma internacional para quaisquer instalações e ações militares norte americanas, no lado paraguaio da tríplice fronteira, como ainda assegura que seus “operadores” poderão utilizar (sem informação prévia e sem fiscalização) quaisquer “equipamentos” e praticar ações não susceptíveis de julgamento por parte do sistema judicial daquele pais.

Evidentemente estes fatos sinalizam a construção acelerada de um modelo de integração latino-americana subordinada aos interesses políticos, financeiros, militares e ideológicos dos EUA. Isso ajuda a entender o desejo de Trump em classificar como “terroristas” as organizações criminosas brasileiras, mexicanas e colombianas. O rótulo, que já  foi utilizado contra a Venezuela, dispensa o governo Trump de autorizações do congresso norte-americano para outras intervenções militares na América Latina. Neste sentido, e de forma imediata para o Brasil e o Uruguai, a nova “base” norte americana no Paraguai adquire enorme relevância.

3- O escândalo do banco Master, sendo deslocado do campo mafioso que associava Daniel Vorcaro e parceiros envolvidos com corrupção e com financiamento de campanhas políticas da direita, para os desafetos daquele grupamento, no STF, sinaliza no mesmo rumo das informações anteriores.  As notícias que ligam aqueles esquemas ao tráfico internacional de drogas (o narcotraficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin teria sido  um dos investidores por trás da operação de compra do Banco Master pelo empresário Daniel Vorcaro),  a milicias privadas e a facções criminosas atuantes dentro do Brasil, estão sendo trabalhadas (pela grande imprensa) de maneira a ocultar da sociedade e da polícia federal possível envolvimentos de senadores, deputados, governadores e lideranças civis da extrema direita.

As ameaças que estas sinalizações carregam devem ser interpretadas como estratégias construídas para nos amedrontar. O pressuposto é de que o mesmo medo que paralisa alguns facilitará a cooptação de outros.

O quadro geral precisa ser conhecido e interpretado. O que está em jogo envolve outros atores e vai além de articulações golpistas, para evitar prisões e para inviabilizar a vitória de Lula. De um lado, além do Brasil ser grande demais para ser invadido ou bombardeado, o caso Epstein, a derrota no Irã e os problemas internos dos EUA fragilizam Trump a tal ponto que ele pode não chegar ao fim de seu governo. De outro lado, uma vez reeleito e com o apoio de novos perfis no senado, na câmara e nos governos dos estados, Lula tenderia a fortalecer alianças do Brasil com o México, a Colômbia, a China, a Índia e a Rússia, bloqueando a captura das Américas, pelo Governo norte-americano.

Neste sentido, em uma leitura bem otimista, creio que as ameaças só se concretizarão se não inviabilizarmos a predominância de golpistas no controle dos poderes executivo e legislativo, em níveis estaduais e federal. Portanto, estamos novamente diante de uma possibilidade concreta, relacionada à construção de uma saída pacífica pela via democrática eleitoral, que este ano seguramente dependerá de nós.

Vale repetir: em outubro nossos adversários não serão o Rambo ou os mariners, mas apenas aqueles golpistas (e formadoras de opinião equivocadas de sempre), agora muito fragilizados pela iminência do desmascaramento e das prisões. E eles sabem que seus parceiros, os oportunistas da turma do cada um por si, não merecem confiança e estarão prontos para abandoná-los, debandando em massa rumo à Argentina.

Concluindo: o futuro de muitos depende do que permitirmos que aconteça. Sempre se tratará de alguma questão relacionada ao comportamento e à determinação, onde para vencer o medo e ir em frente só precisamos lembrar que no fundo, tudo que nóis tem é nóis.

Principia, de Emicida.

Finalmente, um convite para atividade importante, relacionada a esta conversa. A 1ª Conferência Internacional Antifascista, se reunirá de 26 a 29 de março de 2026 em Porto Alegre (RS – Brasil). Será um ato político urgente de resistência coletiva contra o avanço global da extrema-direita e a escalada autoritária que ameaça os direitos e a democracia. O evento contará, no tema do clima, com atividade específica intitulada: Biodiversidade e ciência cidadã: combatendo o negacionismo ambiental e climático, entre outras. Informe-se, participe.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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