Nesta semana pretendo acompanhar a 1ª Conferência Internacional Antifascista Pela Soberania dos Povos. Sinto necessidade de me inteirar a respeito do que representantes da sociedade organizada, de outros rincões do planeta, estão percebendo como alternativas para contenção do empoderamento de agentes do fascismo e suas consequências, entre nós.
Confesso que preciso disso.
Sem o auxílio de informações de boa fonte me percebo incompetente para interpretar o que estou vendo acontecer nestes tempos que associam o autoritarismo e a destruição da biodiversidade ao negacionismo climático. Acredito que este não é apenas o meu caso. A conferência há de ser útil para muitos, e acontece em boa hora.
Em meu otimismo espero que as discussões, mais do que apontar caminhos, ajudem a esclarecer os motivos por que grande parte (talvez a maioria) das pessoas parece não se importa com, ou está inclusive decidida a apoiar ocorrências que -no interesse de uma minoria – comprometem a vida de todos.
Não me parece razoável que tanta gente ignore o fato de que as grandes tragédias já não podem mais se restringir a países, regiões ou bairros situados em locais distantes do nosso umbigo. Elas, as tragédias, estão entre nós. Se trata de um novo padrão de realidade, onde avançam os medos, as angústias e uma desesperança que deforma as utopias da juventude e inviabiliza a paz dos idosos.
Talvez por isso cresçam os suicídios entre pessoas com mais de 60 anos (o índice já é 50% superior ao observado no restante da população) ao mesmo tempo em que o negacionismo e a alienação se espalham entre os jovens.
É particularmente assustadora aquela informação de que toda uma geração de adolescentes brasileiros (16 a 24 anos) entende ser razoável (segundo pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg) sentir mais medo de uma reeleição do Lula (48,3%) do que do que da eleição de Flavio Bolsonaro (25,6%), em 2026.
Se aquela pesquisa estiver correta, precisaremos descobrir com urgência os motivos que estariam levando uma maioria (72% da amostra pesquisada) dos brasileiros e brasileiras que dentro de 20 anos estarão conduzindo este pais, a desaprovarem um governo que nos retirou do mapa da fome, recuperou a credibilidade do pais entre as nações, controlou a inflação, abriu mercados internacionais, vem criando oportunidades recordes de acesso a empregos, à saúde, à casa própria e à universidades, abrindo espaços para inclusão econômica, política e social de milhões de jovens e adultos.
Isto sinalizaria para a expansão de demandas em relação ao autoritarismo? Parece que sim. Afinal uma interpretação possível é de que os jovens estariam pedindo por uma mão forte, autoritária, comprometida com o controle dos “outros”, capaz de tirar de cena os diferentes e “mudar tudo isso que está aí”. Anúncios de que rumamos para o fim de uma era de acolhimento e solidariedade que, com evolução (e não supressão) do projeto Lula tenderia a alcançar, em ondas crescentes, os filhos e netos das gerações historicamente desfavorecidas.
A pergunta seria por quê? Por que as realizações do Governo Lula 3, em sequência ao desastre dos períodos Temer-Bolsonaro estariam sendo vistas, pelos representantes da nossa juventude, como inadequadas, irrelevantes ou insuficientes? Estariam sendo interpretadas a partir de filtros pró-fascistas, facilitadas por erros de comunicação dos agentes do governo Lula ou se trata de recusa ao amadurecimento onde (na perspectiva da juventude) nada disso importa?
Talvez nesta geração as insatisfações, os medos, o isolamento e a percepção das tragédias bloqueiem estímulos generosos e contenham ações por mudanças que beneficiem a quem quer que seja? Aqueles impulsos revolucionários característicos da juventude deixaram de existir? Ou eles simplesmente perderam o interesse em melhorar o mundo e só querem viver os bons momentos que se apresentarem, tratando de arrumar um canto, um lugar para chamar de seu, entre aos opressores?
Se esta é a realidade, a culpa é nossa. Afinal, as falhas dos filhos/as também são reflexos das falhas dos pais. Muita proteção, muito descuido, ou tudo aquilo que não quisemos, não permitimos ou não soubemos fazer. Ou quem sabe apenas por que não conseguimos apoiar a formação de valores morais, elegendo bons representantes, criando desafios adequados, valorizando atitudes positivas para o conjunto, apontando caminhos?
O fato é que a realidade mudou e aparentemente os jovens preferem ignorar as tragédias que aí estão, para ficar.
Elas deixaram de ser episódicas e localizadas. Passaram à condição permanente das hipocrisias coletivas. Com a mercantilização de tudo acabamos permitindo a naturalização do desejo de participação em mecanismos que interligam os lucros relacionados à destruição àqueles lucros provenientes da reconstrução do que foi destruído. Territórios de morte em vida, nas famílias e nas nações, com a absorção e com a transformação ou com o descarte daqueles e daquelas que não conseguirem escapar.
Pessoas e países operando na lógica das guerras de rapina, participando da justificação de roubos, pilhagens e genocídios, com ondas de colonização reabrindo as portas do inferno na terra. E tudo isso em meio às crises decorrentes do aquecimento global.
Aí está um padrão de comportamento que precisa do envolvimento da juventude, para ser revisado e corrigido, antes que seja tarde.
Esta semana fomos alertados que desde o protocolo de Kyoto e passando pelo Acordo de Paris, os países estão dispensados de contabilizar o impacto de seus gastos militares, sobre o aquecimento global. Isso significa que, no concerto das nações envolvidas em debates e negociações para contenção do aquecimento global, se admite que a luta em defesa da biosfera não deve impor limites ou responsabilidades aos senhores das guerras.
E apenas isso já tornaria urgente fazermos de tudo para acordar os jovens, multiplicando o que possa haver de atrativo para eles em discussões de fundo como aquelas previstas para acontecer na Conferência Antifascista e pela Soberania dos Povos.
Os gastos com armamentos, principal ramo industrial dos impérios com tendencias autoritárias, já corresponderiam a 5,5% de todas as emissões anuais de gases do efeito estufa. O Carbono de Guerra informa que isso seria relativo apenas à produção de armas. Não inclui o que possa ser associado aos genocídios, à devastação ambiental, à destruição das obras físicas, às migrações e a tudo aquilo que se fará necessário para a recuperação dos territórios arrasados (bem como para a reposição “melhorada” dos armamentos disponíveis). Os 5,5% correspondem a centenas de milhões de toneladas de CO2, mais do que as emissões da Rússia, país que hoje ocupa o quinto lugar no ranking dos maiores responsáveis pelo aquecimento global.
Para ficar em apenas três exemplos citados no texto de Caetano Scannavino : (1) o custo climático da destruição e reconstrução de Gaza (31 milhões de toneladas de CO2) será superior às emissões de mais de cem países; (2) no caso da guerra na Ucrania (200 milhões de toneladas de CO2) o custo ambiental equivalerá ao total de emissões necessárias para rearmamento da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e (3) os gastos militares globais de 2024 (US$ 2,7 trilhões) corresponderiam ao dobro do valor reivindicado pela ONU (metas da COP30 – US$ 1,3 trilhão/ano) para apoiar as nações mais pobres no combate à mudança do clima.
Portanto, uma vez que as guerras, o aquecimento global, o controle de informações e a distorção dos horizontes que motivam a juventude dos nossos povos se misturam, se potencializam e não vão perder -por si mesmos- a força destrutiva que carregam. Resta concluir que está mais do que na hora dos adultos se mobilizarem.
Afinal, avançamos no arrastão do colapso climático sabendo de antemão que sem a consciência da juventude, qualquer esperança será nula. E ela não virá enquanto os jovens preferirem uma vida norteada pela intensidade de “dez ano a mil” em relação à paz de “mil anos a dez”.
E certamente, precisaremos nos capacitar a entender o que está acontecendo, buscando os conhecimentos que não temos e arrumando alternativas para superar a inércia que nos colocou diante desta realidade. As mudanças devem começar em nós e a disputa será no campo informacional.
Estamos sendo derrotados em disputa de comunicações que definirá como nos sairemos neste desafio de remodelação do que somos, em favor da qualificação de nossos contatos com a geração que ajudamos a desencaminhar e que certamente irá nos substituir.
Assim, retornamos ao tema da Conferência Antifascista, com a multiplicidade de subtemas que ali serão discutidos e onde talvez possamos encontrar novas perguntas, quem sabe algumas respostas ou mesmo orientações que nos levem a fazer diferente, e melhor, a parte que nos cabe dos compromissos intergeracionais relacionados ao clima e a todas as guerras contra a vida.
Particularmente, vou tentar acompanhar a programação principal, mas também estou comprometido com atividades paralelas que ocorrerão nos painéis 1,2 e 3, do dia 28 de março, no prédio branco da Ufrgs/Centro.

Em seu foco, aquelas discussões pretendem relacionar a biodiversidade, a água, a ciência digna e a reforma agrária à uma luta de todos, contra o negacionismo climático e pelo despertar da juventude, em pessoas de todas as idades.
Com sorte nos encontraremos por lá, ou talvez em outras atividades que serão desenvolvidas ao longo deste ano, pela recuperação de horizontes de solidariedade e pela reconstrução de compromissos em defesa da vida.
Uma música? De um roqueiro de direita: decadance avec elegance.

