Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Flavio Bolsonaro e suas promessas perversas

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Ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado do filho, o senador Flávio Bolsonaro
Ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado do filho, o senador Flávio Bolsonaro | Crédito: Reprodução/Instagram

E não será pouca coisa: desmonte do Estado, privatizações generalizadas, a destruição de direitos constitucionais e até uma espécie de massacre dos aposentados

No passado a imprensa já havia divulgado algumas promessas do candidato filho 01 de Bolsonaro, revelando que se ele viesse a ser eleito presidente retomaria ameaças e perversidades ocorridas durante a gestão do seu pai, o presidiário Jair. Mas esta semana, sem que isso repercutisse nas grandes mídias, vieram à tona informações dando conta de que -se depender dele- a realidade será ainda pior. Embora de um lado a equipe do Bolso-filho pareça preocupada em esconder detalhes de um plano de governo que, em sendo veiculado, provocará muitas reações negativas por parte da sociedade, de outro lado eles não parecem se preocupar muito com os problemas que vão criar para outras pessoas. E não será pouca coisa. O desmonte do Estado, com privatizações generalizadas, a destruição de direitos constitucionais e até uma espécie de massacre dos aposentados. Basicamente, o plano do filho do coiso carrega desconsideração simultânea tanto à defasagem já existente entre os proventos da aposentadoria e as necessidades crescentes dos idosos, como ao fato de que o crescimento da população exige construção e qualificação de equipamentos e serviços voltados ao atendimento daqueles direitos constitucionalmente garantidos, nas áreas de educação e saúde. Pois bem, o filho 01 promete que em seu eventual governo aqueles orçamentos que deveriam acompanhar o crescimento da economia (a Constituição estabelece que pelo menos 15% da receita corrente líquida deve ser aplicada na saúde, e 18% da receita de impostos, na educação) não receberão nada mais que a reposição de perdas por inflação. Também informa que deverão acontecer modificações regressivas na legislação trabalhista e previdenciária e que a retomada das privatizações pode alcançar a maioria das estatais. Além disso, devemos esperar algo similar àquilo que Delfim Neto chamava de Plano Herodes às avessas, levando à redução da perspectiva de vida dos idosos, pela queda no poder aquisitivo real de suas aposentadorias (que passarão a ser desvinculadas do salário mínimo).

Em resumo, está prometido um horizonte de corte em direitos já adquiridos, com agravamento de injustiças e aprofundamento das repercussões sociais negativas relacionadas à crise climática e à depressão global que acompanharão o fim da era Trump. O filho Flavio Bolsonaro pretende (e se eleito pode conseguir isso) que tenhamos no Brasil algo semelhante ao provocado por Javier Milei, na Argentina, onde as privatizações e a subordinação do governo aos interesses do mercado já inseriram até carne de cavalo na dieta do povo.

Aliás, como não esperar o pior de gestores estaduais bolsonaristas, durante a presidência de outro Bolsonaro, se mesmo agora, em plena gestão Lula III, eles se atrevem a fazer o que têm feito?

Para ficar em poucos exemplos, vejamos inicialmente o caso de Santa Catarina. Ali o governador Jorginho Mello (PL) tentou emplacar uma lei racista  que pretendia proibir cotas raciais nas Universidades daquele estado. Se apoiava, descaradamente, no argumento de que “singularidades demográficas” apontariam que em SC reside uma maior proporção de população branca, do que no resto do país. O STF derrubou aquela afronta à Constituição, por unanimidade. E o Flavio Dino destacou em seu voto que qualquer interrupção de ações afirmativas de natureza étnico-racial não poderá ser efetuada sem consideração às consequências de sua descontinuidade. Entenda-se que o significado desta afirmativa vai além das cotas universitárias, e que aí se expressa mais um dos motivos da raiva dos golpistas, contra o STF.

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado simplesmente realizou acordo internacional que não lhe compete, para venda de riquezas estratégicas do subsolo brasileiro à uma empresa norte americana (USA Rare Earth). Aqui o escândalo tem precedentes. De uma forma geral, assim como Bolsonaro pai vendeu joias que pertenciam à União, Caiado tentou avançar irregularmente sobre espaço decisório e riquezas sob jurisdição do governo federal, para retirar do Brasil o controle de minas de terras raras existentes em Goiás.  Ok, se trata de algo diferente do que fez o Bolsonaro pai, que no caso das joias tentou surrupiar o resultado da venda de patrimônio nacional. O governador Caiado pretendia tão somente se projetar como estadista, colocar Goiás no mapa mundi, ficar bem com o governo norte-americano e decidir, afoitamente e desde sua condição regional, sobre o futuro do país. Não vai conseguir. E seu movimento ainda revelou mais uma tentativa de golpe desenvolvida por conluio de entreguistas, contra a democracia e a soberania nacional. Em poucas palavras: aquele acordo irregularmente proposto por Caiado (ao estipular que 100% das terras raras extraídas da mina de Pela Ema se destinariam à cadeias produtivas e agências ligadas à empresa norte-americana) comprometeria a possibilidade de desenvolvimento nacional de indústrias de alta tecnologia bem como avanços no sentido da transição energética. Lula criticou o acordo salientando que as chamadas terras raras são insumos estratégicos tão fundamentais para a autonomia das nações, que não apenas fogem à competência de decisões regionais como também afetam a geopolítica global, envolvendo a China e os EUA.

Evidencia-se neste caso mais um movimento de bancadas parlamentares comprometidas com a direita entreguista apoiadora do candidato filho do coiso, ao cargo de presidente do Brasil. Por exemplo, estão com ele além da Bancada Ruralista (responsável pelo Pacote do Veneno, pelo Pacote da Devastação, pelo Marco Temporal e pelo ainda não totalmente enterrado Pacote da Impunidade Criminal) também a Frente Parlamentar pela Mineração Sustentável, que atua  visando garantir facilidades a operadoras interessadas no saque de nossos minerais críticos.

Como isso é possível? Ora, se trata de uma construção viabilizada pelo controle de informações. Esta questão é debulhada no excelente texto de Edward Magro, intitulado A lógica da Infocracia: por que a economia melhora, mas o brasileiro não sente, publicado na RED, que deve ser lido com atenção.

Aquele artigo apresenta a Infocracia como uma nova realidade, onde a circulação e o filtro de informações estabelecidas por redes digitais definem reconfigurações de poder, nas sociedades contemporâneas. Trata-se de construto onde a priorização de conteúdos simplificados opera como fundamentação para interpretações distorcidas da realidade, levando à formatação de convicções que dispensam bases concretas para se fixarem no inconsciente coletivo.

Mesclando informações com desinformações, sua utilização sistemática levaria à emergência de sentimentos interpretados como validados pela exposição repetitiva, ainda que desconectados de evidências concretas.  Assim, com a realidade filtrada por um fluxo intenso de informações e opiniões que alteram sua compreensão, os fatos acabariam se tornando subjetivamente irrelevantes.

Desta perspectiva se compreende que, apesar do crescimento do PIB, do controle da inflação, da superação do mapa da fome, da reconquista da soberania, da auto estima e da credibilidade internacional, com a valorização da democracia e com os avanços no sentido da construção de um futuro baseado na redução de injustiças, com ampliação de cotas, etc, etc,  as pesquisas de opinião mostrem que Lula não se distancia dos Bolsonaros, na intenção de votos do brasileiro médio.

Na prática isto decorre do poder de um ambiente digital controlado por poucos, que potencializa a circulação de informações indutoras de reações emocionais que estimulam distorções interpretativas favoráveis aos interesses defendidos por aqueles poucos. Em outras palavras, com ondas massivas de contra-informação neutralizando reflexões baseadas em dados, aquelas interpretações pré-moldadas que reforçam percepções alinhadas aos interesses do mercado passam a ser aceitas como expressões da verdade.

E é isto que está em andamento e é por isso os discursos de Lula na Espanha e na Alemanha tendem a não ser conhecidos pela população. Por outro lado, ao dispensar racionalidade, aquelas repetições de mantras sustentando que tudo vai mal neste país porque Lula é comunista ou porque vivemos sob a ditadura da toga, e que tudo vai melhorar numa ditadura fascista, reduzem a eficácia das campanhas informativas produzidas por agências federais.

O que fazer, então?

Aparentemente precisamos de chamados que estimulem ações massivas, de rua, com músicas, alegria e distribuições de material informativo que ajudem a esmiuçar os anúncios de realizações do governo, em conversas pessoa a pessoa. Também precisamos de estímulo às mídias críticas e independentes, que operam desde sempre em favor da democracia.

E felizmente, quando estiver autorizado o início da campanha eleitoral, a esquerda poderá sair da posição defensiva e trabalhar as biografias e as histórias de vida, dos candidatos da direita, mostrando suas fichas corridas, seus compromissos, seus sócios e patrocinadores.  

Também será importante a produção de folhetos mostrando o nome, o rosto, o número, o partido e o posicionamento histórico dos golpistas, destacando o tratamento que sempre ofereceram aos grupos discriminados, ao aquecimento global, aos Pacotes do Veneno, da Impunidade, da Devastação, do Marco temporal, do fim da jornada 6×1 e o que mais soubermos sobre a ficha corrida daqueles que precisamos manter afastados dos espaços de representação social.

Uma música? De Nei Lisboa, O futuro do exterminador.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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