Nesta última quarta-feira (20) a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul conferiu, em sua 56ª legislatura, a Medalha do Mérito Farroupilha para Maria José Guazzelli. A “Zé”.
Um resumo? Se faz evidente, que na opinião unânime dos 55 deputados que votaram em favor dessa homenagem, aquela menina inconformada com o modelo de agricultura impulsionado pelos venenos, e que na faculdade de agronomia dos anos 1970 assumia posição divergente em relação à maioria capturada pelos holofotes da revolução verde, estava certa. Foi por manter a coerência em defesa de suas convicções que agora, 50 anos depois de formada, a engenheira agrônoma Maria José Guazzelli recebeu a maior homenagem que pode ser concedida a alguém, pelos parlamentares gaúchos. Se trata do reconhecimento (e do enaltecimento) de suas atitudes e empenho pessoal, em termos de pioneirismo, relevância e contribuições concretas para a construção de uma sociedade pautada por valores de base ética e moral solidária.
Como disse a própria Zé, quando destacou a dimensão coletiva daquela homenagem, é muito bom ver uma luta de tanto tempo, conduzida pela consciência de tantas pessoas, sendo valorizada por seus méritos em favor do conjunto da sociedade. Com estas palavras ela pretendia atribuir a Medalha do Mérito Farroupilha a uma construção coletiva que muitos indivíduos e organizações vêm desenvolvendo, na certeza de que um novo mundo é possível. O deputado Pepe Vargas, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, na condição de proponente da homenagem, salientou: a humildade da Maria José, em relação a seu protagonismo pessoal e visionário em busca de uma realidade superior em termos de justiça social, ilustra mais uma de suas qualidades. Em suas palavras, com as quais todos concordamos, este reconhecimento da assembleia gaúcha, ainda que de fato extensivo a todos e todas que lutam pela construção da agroecologia, não só é justo em sua personalização, como por merecimento, já deveria ter sido concedido à Maria José há mais tempo. Entre os argumentos listados (a sessão foi gravada e por isso não vou repetir aqui o tanto que foi dito) incluem-se o papel desempenhado por Maria José na elaboração da Lei Gaúcha dos Agrotóxicos (que impedia o uso, entre nós, de venenos que não obtivessem aprovação de uso ou que viessem a ser proibidos em seus países de origem – posteriormente alterada para pior, perdendo aquelas qualidades durante os governos Sartori e Eduardo Leite) e na criação do Centro Ecológico (em 1985, quando Ipê ainda era distrito de Vacaria) estimulando o protagonismo social que garantiu sua emancipação e posterior elevação à condição oficial de Capital Nacional da Agricultura Ecológica.
O Centro Ecológico é pioneiro em termos da oferta de assistência técnica gratuita e de base agroecológica. Ali são atendidos mais de 80 grupos de famílias de agricultores conectados a feiras livres e a consumidores conscientes, e já foram capacitadas pelo menos duas gerações de profissionais habilitados ao desenvolvimento social e ambientalmente consciente, e à construção de articulações entre a saúde humana e ambiental.
Se trata de muitas atividades de apoio objetivo ao fortalecimento de um metabolismo maior, que diz respeito à proteção a crises e ao estímulo a aspectos de soberania relacionados à saúde, renda, dignidade e valorização de quem produz e de quem consome os resultados de um trabalho agrícola digno e respeitoso à natureza.
Neste sentido as ações conduzidas em Ipê, ilustram possibilidades a serem buscadas em espaços territoriais mais abrangentes. Por exemplo, os inegáveis avanços já obtidos em escala nacional através do Plano Safra da Agricultura Familiar e do apoio à distribuição de alimentos limpos através do PAA, da PNAE, bem como a incipiente Política Nacional de Agroecologia, poderão ser ampliados e qualificados adotando aquela lógica de formação, trabalho e monitoramento com protagonismo social.
Também é evidente que tais avanços exigirão enfrentamentos assemelhados àqueles protagonizados por Maria José Guazzelli e todos/as que com ela se identificam em uma trajetória comum em defesa da autonomia dos agricultores familiares. Trata-se de uma luta em defesa do reconhecimento de direitos e da necessidade de reprodução qualificada de modos de existência ameaçados por políticas públicas viesadas em favor do controle do país por interesses transnacionais, com apoio de seus agentes estabelecidos entre nós. Ali se incluem a concentração da propriedade de terras produtivas, o controle das sementes, a validação de determinados conhecimentos e a negação de outros, bem como a homogeneização das práticas, métodos e lógicas de exploração predatória que estão na raiz da concentração, da exclusão e da degradação de paisagens e formas de vida. Isto, que deve ser enfrentado, vem sendo alimentado pelo avanço de políticas públicas que a um só tempo favorecem a erosão da biodiversidade, o aumento da pobreza, e a degeneração da sociabilidade, com a exclusão e a desvalorização das pessoas.
Aí estão as evidências. Crises ambientais sucessivas e tragédias socioeconômicas relacionadas aos envenenamentos de pessoas, solos e águas. A morte de abelhas comprometendo a polinização que sustenta todas as formas de vida. A anulação de atividades produtivas e o desfazimento de tecidos sociais.
Em contraste, temos aqueles outros exemplos de atividades meritórias, que precisam ser estimuladas através de políticas que viabilizem sua consolidação e seu entendimento a todo o universo representado pelos vários segmentos da agricultura familiar.
Portanto, e agora voltando aos desafios que Maria José se propôs a enfrentar desde a juventude (em atitudes que naquele tempo poderiam se assemelhar a leituras proféticas de uma realidade por ela antevista como perigosa, mas que hoje, dada a violência com que se expressa, se faz inegável para todos que não se refugiam no negacionismo), temos que agir.
Felizmente aí estão os exemplos de sucesso desenvolvidos pelos agricultores de Ipê, pelos agentes do Centro Ecológico e por milhares de outros/as que compartilham as mesmas convicções. Com eles, ganha densidade a busca de formas de trabalho e acordos políticos orientados ao enfrentamento do caos que se avizinha. E é neste sentido que a homenagem merecidamente recebida por Maria José Guazzelli deve ser entendida como um sinal de estímulo e valorização a todos e todas que acreditam na responsabilidade de cada um, para com a construção coletiva de um novo mundo, que de fato é possível.
Para conseguir isso precisamos seguir os bons exemplos. Tratar de contribuir para que eles se multipliquem de maneira a que possamos recuperar a fundamental (e já quase perdida) aliança entre as gerações.
As eleições de outubro de 2026 se relacionam diretamente a esta leitura de responsabilidades do presente, para com o futuro que virá, tendo em conta as experiências do passado.
Por isso, encerro esses comentários lembrando que todos os candidatos a cargos eletivos que se mantiveram alinhados aos partidos políticos (com seus mecanismos de trocas de legendas) responsáveis pelas ameaças à democracia e pela destruição das legislações protetivas ao ambiente e aos grupos economicamente fragilizados, não devem ser esquecidos. Eles precisam ser desmascarados, responsabilizados e substituídos.
Precisamos ajudar nossos irmãos, colegas e vizinhos, a escolher com cuidado aquelas pessoas que a partir de 2027 atuarão como nossos representantes na formulação de normas legais e políticas públicas que definirão a sociedade que teremos, diante das mudanças que o futuro trará.
Desta vez, se no coletivo errarmos como em 2018, não haverá perdão.
Sugestões de acesso, sobre o tema da coluna de hoje https://www.instagram.com/p/DQf0UxmDOMQ/
*Instagram:* https://www.instagram.com/reel/DYlS8T2tYia/?igsh=eXluMmVneTE2czlk
*Facebook:* https://www.facebook.com/share/v/1BAqdibCP7/?mibextid=wwXIfr

