No início deste mês assisti ao filme Honestino, seguido por debate animado pela professora Roberta Baggio e pelo jornalista Paulo de Tarso Carneiro, sob coordenação do professor Fabio Canatta. Excelente e importante atividade. Todos e todas que puderem, devem tentar ver aquele filme. E nestes momentos eventuais comentários a respeito são especialmente relevantes porque ali está explicitado o clima que levou ao desaparecimento, sequestro e morte de líder estudantil comprometido com a verdade e o respeito aos direitos humanos. A atualidade do que o filme mostra se evidencia na semelhança entre o que ocorria naquele momento de disputas ideológicas em cobrança de uma sociedade democrática e includente e o que resultou, a partir do sucesso da extrema direita. A consequente anulação de qualquer possibilidade de expor discordâncias quanto à subordinação do Brasil a interesses dos Estados Unidos, que na ocasião bloqueou perspectivas de desenvolvimento nacional autônomo, aprofundando desigualdades e estendendo por décadas um projeto político calcado na impunidade e disposto a anular outras visões de mundo, está de volta, urubuzando nosso futuro.
Como destacado por Paulo de Tarso, naquele debate, a recuperação da história de Honestino Guimarães, liderança entre muitos jovens que, por consciência cívica se opuseram ao entreguismos e ao domínio da violência absoluta, no passado, cumpre papel decisivo para a proteção do Brasil, nos dias de hoje. De fato, e especialmente para as gerações que não vivenciaram aquele período, compreender a dimensão do que houve e o papel das memórias que o filme reativa, para nossa maturidade coletiva, se coloca como algo essencial neste período eleitoral.
Afinal, quem poderia, de sã consciência, ser favorável a um estado de coisas onde o sadismo oficial admitia a tortura de crianças, na frente dos pais, e vice-versa? Quem poderia ser favorável às mortes, às perseguições, aos desaparecimentos, ao exílio de cientistas e intelectuais brasileiros de renome internacional, à destruição de livros, ao apagamento de nossas possibilidades e trajetórias, com a instauração da ignorância consentida, da submissão voluntária e do medo como instrumentos de controle social praticados pelo Estado? Como não ver relações entre aquilo e o elogio à torturadores, o deboche de moribundos, a premiação de assassinos, a aliança com corruptos e a utilização do Governo para proteção e enriquecimento de familiares?
No entanto, aí estão os índices de apoio ao bolsonarismo e seus cumplices. E aí está a grande mídia, tentando desfazer as conexões daquele passado, com o futuro que eles pretendem impor, a todos nós.
E é esse o ponto.
A sociedade precisa rejeitar a impunidade e a ocultação de fatos que parecem estar servindo para atiçar uma espécie de naturalização acrítica de caminhos que podem nos levar ao pior dos retrocessos.
Se trata de olhar na vida dos candidatos da direita, examinar o que eles já fizeram, como se posicionam, para entender o que se pode esperar daquelas pessoas, caso eleitas.
Como eles e elas se referem ao papel das mulheres, aos direitos das crianças, dos idosos, daqueles que necessitam de qualificação de serviços públicos nas áreas da saúde, educação e segurança pública? O que pensam de um estado ativo ou minimizado e sob controle dos interesses “de mercado”? O que pensam da captura de mentes em formação, por parte das mídias digitais e do saque de recursos das famílias, por meio das bets?
O que eles consideram necessário para controlar a emergência de doenças contagiosas antes contidas por processos de vacinação? E o que pensam a respeito da redução das jornadas de trabalho com implantação da garantia de dois dias de descanso semanal e convívio familiar, para todos os trabalhadores?
Como se posicionam em relação à soberania nacional, à expansão no número e no perfil das escolas, dos cursos profissionalizantes e das universidades, com cotas de acesso para grupos sociais desfavorecidos?
Como se relacionam, de fato, aquelas pessoas que nos sorriem, de cara limpa, nos banners, diante das trocas de favores com grupos de corrupção ativa, com as malas de dinheiro, com o golpe que depôs a Dilma e com a farsa da Lava Jato que impediu a eleição de Lula em 2018?
O que eles pensam a respeito da recuperação da imagem do Brasil, em escala internacional, ou como se colocam frente aos que pedem imposição de taxas aos produtos brasileiros, pelo governo norte americano?
O que pensam a respeito de empresas públicas brasileiras controlando a exploração do petróleo, das terras raras, dos serviços de abastecimento de água e luz? O que pretendem em relação ao aquecimento global, a agroecologia e políticas includentes e respeitosas aos diferentes modos de ser e existir?
O que fizeram antes e como se comportarão no futuro, se eleitos, com respeito à demandas dos que pedem a consolidação e o avanço da democracia participativa?
Honestino Guimarães foi torturado e morto porque refletiu e se posicionou em relação a temas como este, que dizem respeito a um projeto de nação soberana, para todos e todas.
Não fossem assassinados, ele e outros tantos estariam trabalhando para ajudar no esclarecimento daquelas pessoas desinformadas ou iludidas em relação ao objetivo dos/as enganadores/as que pretendem esconder a que interesses servem e o que pensam ganhar recolocando este país na condição de colônia do império norte-americano.
Também por isso, e em homenagem aos que nos antecederam, a memória deve alimentar nossa força e servir de nossa bandeira. Se trata de expandir a consciência a respeito do que nos livramos e do quanto isso nos custou, como pavimentação do caminho que nos levará ao futuro que merecemos.
Esta é nossa responsabilidade e até 15 de outubro este será o passo inicial daquilo que, a partir de 2027, se tornará nosso maior desafio: sustentar a democracia.
Juntos, porque ninguém faz nada sozinho.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

