Lívio Pereira

Trabalhador da cultura e militante social.

Aprender a olhar ou uma possível discussão sobre a função social da arte

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Registro da performance 'Você aceita?', onde uma pessoa com EPI de aplicação de agrotóxicos oferece maçãs aos transeuntes
“Uma coisa que sempre penso muito no meu processo criativo e nos projetos culturais que decido investir uma energia, é sobre a função social do que estou fazendo” | Crédito: Rodolfo Santana

Ver e olhar não é a mesma coisa. Ver é um ato passivo, enquanto olhar é uma ação intencional que envolve atenção, direção do olhar e intenção deliberada.

Por vários motivos, eu não vinha conseguindo manter essa coluna aqui no BdF. As múltiplas demandas de trabalhos que se sobrepõem simultaneamente para nós, trabalhadores da cultura que atuam de forma autônoma, somadas a outras demandas que tenho aqui mesmo no jornal, além da finalização do mestrado e da tentativa de entrar no doutorado, das demandas de construção de um movimento social e das tarefas que assumi no processo — enfim, muitas coisas. Mas há pelo menos umas três semanas um texto vem se insinuando em minha cabeça, e escrevê-lo talvez seja a única forma de parar de pensar nele. Ademais, como aprendi na minha formação política, a gente estuda é para ajudar no processo de conscientização da classe trabalhadora e na construção de um mundo melhor, e não para ficar mais sabido. Pois bem, feito este preâmbulo, passemos ao texto.

Uma coisa que sempre penso muito no meu processo criativo e nos projetos culturais em que decido investir energia é sobre a função social do que estou fazendo. Qual a contribuição desse trabalho? Que debates ele ajuda a problematizar? Como isso pode colaborar para um amadurecimento do pensamento crítico da sociedade onde ele se insere? São algumas das perguntas que me faço.

Não quero dizer com isso que sou contra trabalhos que são sobre a beleza, pois creio que eles também cumprem uma função importante, inclusive parte da minha produção em poesia é sobre o amor, mas me interessa sobremaneira refletir sobre a conjuntura e sobre temas sociais, pensando a arte como dispositivo de abertura de diálogo com o povo.

Dito isso, acredito na função de ensinar a olhar da arte, para além de apenas ver as coisas à nossa volta. Marcel Duchamp, aquele artista francês que, em 1917, meteu um mictório numa exposição de arte sob o nome de A Fonte, fazia uma dura crítica à sociedade por assumir uma postura retiniana perante a vida. Com isso, ele queria dizer que éramos muito dependentes da visão, negligenciando nossos outros sentidos e mesmo o nosso pensamento crítico.

Ver e olhar, é importante dizermos, não é a mesma coisa. Ver é um ato passivo, natural para as pessoas que enxergam; está relacionado à nossa capacidade visual, ao simples ato de nossos olhos registrarem algo. Já olhar, ao contrário, é uma ação intencional que realizamos, envolve atenção, direção do olhar, intenção e busca por perceber todos os detalhes do que olhamos.

Para falar de outra maneira, que talvez possa ser mais compreensível, evoco Eduardo Galeano, escritor uruguaio, um dos maiores do mundo com toda certeza.

A função da arte/1
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!

Essa e outras crônicas podem ser encontradas n’O Livro dos Abraços, editado no Brasil pela L&PM, inclusive outras funções possíveis para a arte. E, assim como ele, também creio que a arte possui diversas contribuições sociais.

Mas por que diabos eu estou falando tanto sobre o olhar e sobre a arte como essa escola do olhar? Porque uma parte importante da arte ajuda a gente a pensar sobre nossas condições, a perceber o quanto certas situações que nos são impostas não são naturais, como querem nos fazer crer os fascistas e a direita. As desigualdades e violências, em geral, são de ordem estrutural e servem para nos manter apassivados e sem impor resistência.

Assim como há uma outra parte da arte, também importante, vinculada aos interesses da classe dominante, como é o caso do sertanejo, do brega e de partes do forró e do axé ligados ao agronegócio, ao capitalismo e a setores conservadores. Falam de política, sobretudo pelo fato de não a abordarem diretamente em suas canções, para ficar no exemplo da música. Gusttavo Lima declarando apoio a Bolsonaro em seus shows, os escândalos de diversos artistas vinculados a cachês milionários em cidades pequenas, por vezes recebendo mais do que todas as políticas públicas do local, Cláudia Leitte mudando referências às religiões de matriz africana em suas músicas para referências cristãs, Wesley Safadão saindo ao lado de candidatos evangélicos e de direita na propaganda eleitoral. Os exemplos são inúmeros.

Aqui no Ceará, em outros contextos, falamos de parlamentares que atacaram exposições na Pinacoteca, no Dragão do Mar e até mesmo a comunicação visual da Bienal do Livro, que usava pronome neutro, ou das livrarias que vendiam livros vinculados ao pensamento de esquerda, como a Lamarca, que infelizmente fechou suas portas por não conseguir se manter da venda dos livros.

Chamo a atenção para o fato de que a disputa política que se dá na sociedade entre nós, que somos o povo trabalhador, e aqueles que se apropriam do fruto do nosso trabalho também acontece na arte. Nós, artistas que propomos trabalhos que ajudam o povo a compreender melhor o contexto em que vivem, que escracham e denunciam as violências, que clamam pelo direito à vida de populações minorizadas, enfrentamos os que produzem obras de arte que ajudam a não pensar em nada sério, que dissimulam a luta de classes, que defendem a meritocracia, que reproduzem violência e que tentam, a todo instante, criminalizar os ritmos, cores e sons das periferias, além de domesticar artistas dissidentes com ameaças e perseguição.

Por isso, retomo a minha coluna semanal no BdF Ceará, clamando aos trabalhadores da cultura que não esqueçam da importância da arte como uma educação do olhar. E aqui entendamos olhar de forma mais ampla, ou seja, falo também de uma escuta ativa, de um tato sensível, de um olfato apurado e de um pensamento afiado.

Mas, sobretudo, conclamo todas as pessoas, em geral, a ampliar o seu olhar e o consumo para artistas que estão propondo algo novo, que não se calam diante das agressões dos que estão no poder!

*Lívio Pereira é trabalhador da cultura e militante social, escreve para o BdF desde 2022.

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato. 

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Editado por: Camila Garcia

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