No Brasil, temos no senso comum a máxima de que o ano só começa, de fato, após o Carnaval, mas em Juazeiro do Norte, na região do Cariri cearense, o ano começa é no Dia de Reis, 6 de janeiro. Começamos o ano, queimando a palha que marca o final do Ciclo Natalino, época em que o estalo dos chicotes dos cãos percorrem as ruas da cidade, abrindo caminho para a passagem dos reisados.
No João Cabral, bairro periférico que historicamente é estigmatizado como local de violência e pobreza, é, na verdade, um dos principais locais de produção e resistência da cultura popular da cidade, com diversos grupos de reisado, lapinha, bacamarteiros e muito mais.
É tão doida a energia que os grupos ativam pela cidade que mesmo que você não tenha chegado para acompanhar a saída dos Quilombos, como é conhecido os cortejos que os reisados realizam, basta sair pelas ruas dos bairros por onde eles caminham que logo você escuta os pífanos, a caixa e a zabumba dando o tom e o ritmo da caminhada. São tantos grupos que não vai te faltar oportunidade de achar algum para brincar junto.
Esse ano acompanhei dois grupos, Reisado dos Irmãos “Discípulos do Mestre Pedro”, um dos mais tradicionais e simbólicos dessa tradição na região e o Reisado Amigos de Infância, fruto do Reisado dos Irmãos, e segue alimentando essa tradição tão forte na cidade. Para mim é sempre muito simbólico lembrar de quando criança eu morrendo de medo dos cãos passando em frente minha casa e batalhando, dos encontros de dois reisados e das disputas para tomar a rainha do outro, das espadas soltando faísca enquanto riscavam o asfalto, assustado e, ao mesmo tempo, fascinado por tudo aquilo. Talvez aqui a cultura já tinha me escolhido e eu ainda não sabia.
Mas, nesse ano, foi muito difícil estar ali, acompanhando o Reisado dos Irmãos pelas ruas do João Cabral, momento de pura alegria, em que toda a comunidade festeja, se diverte, que a vida mostra que ainda presta, enquanto o povo venezuelano ainda se recuperava do ataque vil do imperialismo estadunidense, incertos do amanhã. Eu pensando que no ano passado eu acompanhava pelas redes sociais as postagens de algumas amigas lá de Caracas com suas tradições de Dia de Reis, mas esse ano o que via era o povo na rua lutando para que Maduro e Cília fossem devolvidos ao seu país e que os ianques de merda paguem por todos os seus crimes.
Mas o que poderia eu, trabalhador da cultura e da comunicação, fazer desde o Cariri em relação a essa situação? A única coisa que podemos fazer no momento é nos solidarizarmos com nossas irmãs e irmãos latinoamericanos e denunciar em todos os meios e formas possíveis os crimes dos EUA. O que, é importante que digamos, não é uma coisa pequena. A solidariedade e a empatia são coisas muito importantes para mostrar nossa ética e nossa moral. Sem falar, que defender a soberaniza da Venezuela é também defender a soberania do Brasil e de todo o continente que é uma zona de paz violentamente atacada pelos EUA, seja por meio de bombas como fez agora com a Venezuela, seja por meio de sanções econômicas e políticas como faz com todo e qualquer país que não baixe a cabeça e faz o que eles querem. Mesmo o Brasil, que sempre tem posturas moderadas em relação ao governo Trump sofreu sanções econômicas recentemente com a sobretaxação de 50% sobre diversos produtos nacionais.
Se engana quem acha que o imperialismo ianque representa liberdade e desenvolvimento.
Por isso, convoco a todas as pessoas trabalhadoras da cultura e da comunicação a se unirem na denúncia dos ataques imperialistas contra a América Latina e o Caribe, que isso, sim, é lutar por liberdade e soberania de nossos países. Se não, daqui a pouco seremos nós a ser bombardeados, sequestrados, censurados e vilipendiados.
Primeiro levaram os negros
Bertolt Brecht (1898-1956)
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
*Lívio Pereira é trabalhador da cultura e militante social, escreve para o BdF desde 2022.
** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
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