Leitura Crítica da Mídia

A coluna tem o objetivo de realizar uma análise precisa por uma mídia ética, humanizada e sem violações dos direitos humanos.

Autora: Mabel Dias é jornalista, associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, observadora credenciada do Observatório Paraibano de Jornalismo, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE e autora do livro “A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do programa Alerta Nacional”, da editora Arribaçã e selo Anayde Beiriz.

Mídia brasileira omite os motivos dos ataques do governo Trump à Venezuela e reforça desinformação

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A capital Caracas foi uma das regiões mais atingidas pelo bombardeio dos Estados Unidos; na foto, o forte Tiuna, ao fundo, em chamas
A capital Caracas foi uma das regiões mais atingidas pelo bombardeio dos Estados Unidos; na foto, o forte Tiuna, ao fundo, em chamas | Crédito: AFP

Caso Trump ordene um ataque ao Brasil, como fez com a Venezuela, qual será a narrativa que a grande mídia brasileira vai adotar para justificar a invasão?

Por Mabel Dias*

Fui surpreendida às 6h40 da manhã no sábado, 3 de janeiro de 2026, com as notícias divulgadas pela Rede Globo sobre os ataques aéreos e o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e a sua esposa, Cilia Adela Flores, pelo governo dos Estados Unidos.

A cobertura dos telejornais da Globo sobre os ataques dos Estados Unidos a embarcações no Mar Pacífico já deixava muito a desejar, pois não informavam as reais intenções do governo de extrema direita de Donald Trump, não só sobre a Venezuela, mas sobre toda a América Latina: dominação e exploração de territórios; na Venezuela, o petróleo; no Brasil, as terras raras. 

Enquanto o jornal norte-americano New York Times afirmou em seu editorial no dia 3 de janeiro de 2026 que “o ataque de Trump à Venezuela é ilegal e insensato”, a grande mídia brasileira optou, mais uma vez, pelo jornalismo declaratório em sua cobertura, acusando Maduro de ditador, e legitimando o discurso de Trump, presidente de uma nação imperialista, que segue realizando golpes contra nações soberanas.

No primeiro dia de 2026, o Jornal Hoje, transmitido a partir das 13h30, exibia uma reportagem em que dava, novamente, voz ao governo Trump, justificando os ataques às embarcações no Pacífico como “combate ao narcotráfico”. A correspondente da Globo nos Estados Unidos, Carolina Cimenti, comenta, timididamente a notícia, afirmando que os EUA nunca apresentaram evidências de que o tráfico de drogas era facilitado pelo governo da Venezuela. A narrativa da Globo, aliada à de Maduro ditador, foi o casamento perfeito para justificar o discurso do governo Trump junto à população brasileira, apoiando assim as invasões e ataques a mais um país da América Latina.

Em 1964, os ataques políticos e econômicos dos Estados Unidos e o apoio dos meios de comunicação brasileiros ao golpe civil-militar, dentre eles a Rede Globo, resultou em ditaduras que duraram mais de 20 anos. Segundo o professor Sergio Amadeu da Silveira, da Universidade Federal do ABC, em São Paulo, “os Estados Unidos são ladrões de petróleo, dirigidos pelo CEO, Donald Trump”. Dados do U.S. Energy Information Administration informam que a Venezuela está em primeiro lugar no mundo com as maiores reservas de petróleo.

Após o sequestro de Maduro e de Cilia Flores, o Fantástico no domingo (4) e novamente o Jornal Hoje, na segunda (5), seguiram repetindo a narrativa do governo norte-americano contra Nicolás Maduro de contribuir com o narcotráfico e, por isso, “ter sido capturado.” Porém, a Globo “esqueceu” de mencionar nessa notícia: enquanto bombardeava as embarcações no Pacifíco, Trump perdoou Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras, condenado por chefiar um esquema de narcotráfico entre 2014 e 2022. Informação publicada pelo editorial do New York Times e ocultada pela mídia brasileira.

Os governos da extrema direita são adeptos da desinformação para confundir a opinião pública, gerar caos e confusão e, com base em mentiras, justificar seus atos autoritários e violadores dos direitos humanos. Infelizmente, o jornalismo declaratório da grande mídia reforça isso.

O governo Trump usou e usa de desinformação para justificar seu modo autocrata de governar. Por isso, mesmo que seja uma voz oficial do governo para falar sobre os ataques às embarcações na Venezuela, ela pode reproduzir desinformação. Nesse sentido, a imprensa deve questionar o governo, contextualizar os fatos, não reproduzindo releases ou informações manipuladas por um governo que se apoia em desinformação para governar. Os governos da extrema direita são adeptos da desinformação para confundir a opinião pública, gerar caos e confusão e, com base em mentiras, justificar seus atos autoritários e violadores dos direitos humanos. Infelizmente, o jornalismo declaratório da grande mídia reforça isso.

Pesquisas esclarecem que a desinformação é uma tática utilizada pela extrema direita durante as eleições, quando estão no poder e no pós-eleições. Temos exemplos disso no Brasil, durante as eleições de 2018, e no próprio governo de Bolsonaro, quando alegou que as urnas eletrônicas eram fraudadas e para acobertar a falta de cuidado e prevenção de seu governo com a pandemia da Covid-19, em 2020, que matou cerca de 700 mil pessoas no Brasil, só para citar dois exemplos. Como se não bastasse, a grande mídia nacional repercutir um discurso oficial desinformador dos Estados Unidos em relação aos ataques à Venezuela e a prisão de Nicolas Maduro, uma TV local da Paraíba, divulgou um vídeo que mostra pessoas arrancando um cartaz gigante com foto de Maduro em um prédio, com a legenda “Cartazes com imagens de Maduro estão sendo removidos. População comemora”. Perguntei ao perfil da TV Master no Instagram onde tinham conseguido o vídeo, qual era a fonte, mas não obtive resposta. Vídeos que mostram a população da Venezuela defendendo a soberania popular do país não foram divulgados pela Master.

Não adianta a Globo ter um quadro em sua programação que desmente boatos e conteúdos desinformativos que circulam na internet, como o Fato ou Fake, se em seus telejornais ela omite a verdade aos telespectadores sobre os interesses reais que movem os Estados Unidos contra a Venezuela, e o porquê atribui apenas a Maduro a classificação de ditador, e não a Trump.

Segundo o sociólogo, Estevam Dedalus, “a rotulação de Maduro como ditador e a resistência em aplicar o mesmo termo a Trump expressam menos uma avaliação técnica dos regimes políticos e mais uma disputa pelo controle do sentido, na qual os grandes conglomerados midiáticos atuam como produtores de consenso. Trata-se, portanto, de um exemplo claro do papel da mídia na reprodução simbólica das hierarquias internacionais, agindo como mediadora entre interesses imperiais e a opinião pública nacional. Ao produzir um consenso em torno da ideia de que Maduro é um ditador, produz-se assim a legitimação necessária para intervenções militares e sanções econômicas”.

Para a coordenadora executiva do Intervozes, Ramênia Vieira, a cobertura da Globo é vazia de argumentos em não mostrar o que está em jogo com estes ataques. “O que Trump quer é diminuir as relações que a Venezuela tem com a China, diminuindo assim o poder da China, foi assim com o canal do Panamá e tantos outros casos envolvendo governos dos Estados Unidos. Toda esta questão é política, e ligar o governo da Venezuela com o narcoterrorismo é absurdo! A Globo não faz nem o básico que ela deveria fazer, porque os ataques aconteceram em território neutro, internacional, violando o direito internacional, isso não nem questionado. Além disso, eles não mostram também que o que Trump quer não é defender o povo venezuelano, mas sim dominar o território venezuelano, colocando alguém no poder que faça as vontades do governo dos Estados Unidos.”

Na coletiva de imprensa que fez, logo após a invasão da Venezuela e o sequestro de Maduro e de Cilla Flores, Donald Trump escancarou seus objetivos com os ataques: “tomar e vender muito petróleo da Venezuela, que será administrado por empresas norte-americanas”. Trump ainda proferiu ameaças a Gustavo Petro, presidente da Colômbia.  Os Estados Unidos já demonstraram interesse nas terras raras do Brasil, que podem ser usadas para fabricação de lâmpadas de Led, lasers, superímãs dos discos rígidos de computadores e motores de carros elétricos. O Brasil ocupa o segundo lugar de reservas mundiais de terras raras, com 22 milhões de toneladas. Em primeiro lugar está a China, com 44 milhões, segundo reportagem de Júlio Bernardes, publicada em 2021 pelo Jornal da USP.

Caso o governo Trump ordene um ataque ao Brasil, como fez com a Venezuela, qual será a narrativa que a grande mídia brasileira vai adotar para justificar a invasão dos Estados Unidos ao país?

*Mabel Dias é jornalista, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE, associada ao Coletivo Intervozes, observadora credenciada no Observatório Paraibano de Jornalismo e conselheira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos. Autora do livro A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do Alerta Nacional (editora Arribaçã).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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