Por Mabel Dias*
Se estivesse viva em 2026, Ângela Diniz seria assassinada. O machismo da sociedade brasileira a mataria novamente. Em 2025, faz 50 anos que a mineira Ângela Diniz foi assassinada pelo seu namorado à época, o empresário, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street. Podcasts como Praia dos Ossos, da rádio Novelo, o filme Ângela e a série da HBO, Ângela Diniz – assassinada e condenada contam a história dessa mulher, que como tantas, queria ser livre para viver seus sonhos e desejos, ser respeitada em suas escolhas, mas teve sua vida interrompida aos 32 anos de maneira brutal. Ângela foi assassinada em 1976, na casa de praia de Doca Street, na Praia dos Ossos, Armação de Búzios, no Rio de Janeiro, com quatro tiros à queima roupa. O machismo de Doca matou Ângela.
Ouvi o podcast Praia dos Ossos (excelente, por sinal!), e assisti a série da HBO, inspirada no podcast da rádio Novelo (https://www.youtube.com/watch?v=iLUQa3JMWuU&list=PLD-9mG2PTpdBXeFga4AyHQOFKlaoAXlJM), também muito boa, onde Ângela é interpretada pela atriz Marjorie Estiano, que retrata muito bem a pantera de Minas, mostrando toda a liberdade que Ângela era, os padrões sociais que quebrou, desafiando a sociedade brasileira conservadora, que ainda segue, em pleno século XXI, e não está preparada para mulheres livres e com autonomia sobre suas vidas. Pesquisas de diversos institutos, como as do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizadas anualmente, mostram que a cada ano, a violência contra as mulheres e os feminicídios crescem no Brasil. Em 2025, foram 1.470 mulheres assassinadas no país por serem mulheres, e homens com quem elas mantêm ou mantiveram um relacionamento são os responsáveis pelas suas mortes. Assim como aconteceu com Ângela. No ano em que ela foi assassinada, outras mulheres também foram vítimas de feminicídio, e o podcast Praia dos Ossos traz essas informações; na época, o assassinato de mulheres não era qualificado dessa forma, isso aconteceu apenas em 2015, através da Lei 13.104/2015, por causa da luta do movimento feminista brasileiro. No primeiro julgamento do assassinato de Ângela Diniz, Doca Street foi condenado a dois anos de prisão, mas cumpriu a pena em liberdade. Após a pressão do movimento feminista, ele teve um novo julgamento, em 1980, onde dessa vez foi condenado a 15 anos de prisão por homicídio qualificado, mas na prática, ele cumpriu apenas três anos em regime fechado. O argumento da defesa de Doca Street foi “legítima defesa da honra”, uma tese jurídica usada no Brasil até 2023, quando o STF extinguiu este argumento, usado por agressores de mulheres para justificar seus crimes.

A série da HBO retrata como era o comportamento de Doca com Ângela, e seu obsessivo controle sobre ela, seja em frases ou em atos. Em um dos episódios, Ângela reencontra um de seus ex-namorados, Tuca, em um clube, e Doca a cerca com diversos questionamentos: “Se Tuca quissesse voltar, você voltaria com ele?” Ângela começa a perceber e se incomodar com o comportamento agressivo e controlador de Doca e tenta terminar com ele várias vezes, mas como mostra o ciclo da violência contra a mulher, ela acredita no arrependimento, e volta a se relacionar com ele, e ele, não conseguindo dominar aquela mulher, decide tirar a vida dela, ilustrando aquela máxima “Se não é minha, não será de mais ninguém”, argumento machista ainda usado pelos homens nos dias de hoje para matar mulheres. Apesar da brutalidade do crime, Doca foi visto como um “injustiçado”, “um homem traído por uma Vênus lasciva”, como disse o seu advogado Evandro Lins e Silva, para defendê-lo. Doca transformou-se em vítima e Ângela em vilã, mesmo ela sendo vítima de diversas violências durante o seu relacionamento com Doca. Assim como Ângela, nós seguimos sendo julgadas e condenadas por nossos comportamentos e falas, com ameaças constantes sobre as nossas vidas e as conquistas que obtivemos com muita luta, como a qualificação do crime de matar mulheres por causa de seu gênero, que resultou na Lei do Feminicídio e na Lei Maria da Penha. A própria Maria da Penha é alvo de campanhas de desinformação e discursos de ódio, promovidas por grupos masculinistas, como os red pill, para desqualificar a lei e a sua história como mulher vítima de violência. Relatos de mulheres sobreviventes de violência continuam sendo desacreditados, elas continuam sendo culpabilizadas pela violência que sofrem, mulheres sendo pressionadas psicologicamente a negar as violências que sofreram do marido e a permanecer em um relacionamento opressor, mulheres que não podem dizer NÃO para um homem, se não, podem ser mortas ou humilhadas, o que evidencia que o patriarcado segue com suas bases firmes no Brasil.
*Mabel Dias é jornalista, associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, observadora credenciada do Observatório Paraibano de Jornalismo, integrante do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, mestra em Comunicação pela UFPB e doutoranda em Comunicação pela UFPE. Autora do livro “A desinformação e a violação aos direitos humanos das mulheres: um estudo de caso do programa Alerta Nacional (editora Arribaçã).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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