A série da Netflix You (Você, em português) conta a história de um gerente de livraria, Joe Goldberg, e como ele manipula as mulheres até conquistá-las. Não importa se precisa matar, caso alguém atrapalhe seus objetivos. Para Joe, está tudo bem, e os fins justificam os meios.
No primeiro episódio da série, lançada em 2018, Joe conhece a universitária Guinevere Beck, e como bom observador, vai traçando, a partir das roupas, gestos e os livros que ela procura na livraria, um perfil da mulher que ele deseja, não como namorada ou companheira, mas como propriedade. Joe fala pouco sobre si, mas é um ótimo observador.
Beck posta em suas redes sociais, como o Instagram, toda a sua rotina: onde estuda, mora, o que gosta de comer, ler, onde trabalha, para onde vai com as amigas para se divertir, enfim, deixa rastros digitais que Joe descobre rapidamente, em uma rápida olhada nos perfis de Beck nas plataformas. Então, ele passa a acompanhar a rotina da estudante de maneira digital, até começar a segui-la em todos os locais que ela vai, elaborando um roteiro de como se aproximar de Beck e atraí-la para sua teia misógina.
A história é uma ficção, mas pode acontecer na vida real. Nas redes sociais ficamos muito à vontade para postarmos nosso cotidiano mesmo, com o objetivo de mostrar aos nossos amigos e amigas, a conquista de um novo emprego, nossos gostos musicais, onde vamos para nos divertir, se gostamos de animais ou não, quem são nossos amigos e amigas, e até aquele boyzinho ou boyzinha que estamos saindo. E aí não percebemos que do outro lado da tela, há pessoas observando nossa vida, sem sabermos quais as suas reais intenções, esperando o momento certo de se aproximar, como fez Joe com Beck, mostrando-se educado, gentil e disposto e ficar ao lado dela, sempre a postos para o que ela precisar. Joe sabe como conquistar Beck, mesmo que isso demore meses, mas ele não tem pressa, já que as redes sociais já passaram todas as informações de quem é Beck e ele sabe bem o tempo que tem e o que precisa fazer para dominá-la.
O Instagram, por exemplo, oferece a opção de informamos a nossa localização. Se vamos ao shopping frequentemente e sempre divulgamos o nome e endereço desse local, isso fica registrado, e as pessoas que nos seguem sabem qual o nosso shopping preferido. Você pode dizer: “Ah!, mas meu perfil é fechado, só meus amigos e amigas têm acesso”. Ok, mas você confia plenamente nas plataformas digitais? Eu não confio! Acredito que não temos controle sobre as “nossas” redes sociais.
Para mim, já apareceram pessoas como seguidoras que nem conheço e não me recordo de tê-las adicionado! Sempre há mudanças no local onde postar as fotos, vídeos, o layout das plataformas sempre está mudando, e o algoritmo age da forma como é treinado pela equipe de cada plataforma, sem que a gente saiba como dominá-lo, como ele funciona. Às vezes até conseguimos, mas é por pouco tempo, e logo são elas, as plataformas que nos guiam e ficam com os nossos dados para manipulá-los como bem entenderem. Além de expô-los sem a nossa autorização. Quer dizer, a autorização a gente dá quando assina os tais termos de compromisso, sem nem ler o que estamos assinando, ou lemos e assinamos mesmo assim, mesmo com clausulas dúbias. As plataformas não se responsabilizam pelo o que acontece com nossos dados nem o que acontece conosco.
Para piorar essa situação, recentemente, o Instagram disponibilizou uma nova ferramenta, o Maps. Ela informava a localização de todas as pessoas que usam a plataforma, seja de qual local do planeta ela estivesse. E não precisava ser amiga da pessoa que estava compartilhando, qualquer uma/um de nós podia ter acesso. Isso para um Joe da vida é uma mão na roda, e para nós, mulheres, é um perigo!
A maioria das pessoas que usam o Instagram reclamou e a plataforma veio a público dizer foi um “acidente”. Essa conversa não cola, Zuckerberg! O fato é que a localização de muitas pessoas estava disponível para quem quisesse ver. E ninguém pediu isso, mas o Instagram foi lá e fez, sem pedir permissão nem comunicar a ninguém essa nova modalidade. Quando percebemos, a localização de todas e todos que usam o Instagram já havia sido divulgada!
Outra decisão do Instagram foi a retirar a criptografia das mensagens. Ou seja, a conversa que você tiver com sua amiga, ou namorada/o, ou alguma informação sensível do trabalho, por exemplo, pode ser disponibilizada, perdendo assim a sua privacidade. Isso pode colocar em risco jornalistas, ativistas e defensoras/es dos direitos humanos, movimentos sociais, que tenham que se comunicar com segurança.
Além disso, se o perfil é particular, as mensagens deveriam ser de conhecimento apenas das pessoas que estão na conversa, mas não é assim que o Instagram pensa. Uma mulher que procure ajuda para sair de uma situação de violência corre risco imenso por causa dessa ação do Instagram, caso peça socorro, trocando mensagem pelo Instagram. O pedido dela pode ser tornar público e o agressor saber que ela está denunciando-o por violência.
Existem muitos Joes espalhados por aí e as plataformas digitais não estão preocupadas com a segurança das mulheres, mas sim com o lucro e as vantagens que irão obter a partir da exploração de nossos dados.
*Mabel Dias é jornalista, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE, associada ao Coletivo Intervozes, observadora credenciada no Observatório Paraibano de Jornalismo e conselheira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos. Autora do livro A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do Alerta Nacional (editora Arribaçã).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

