O Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio já mostra a que veio. Em seus primeiros meses de implementação, operações integradas ampliaram a proteção às mulheres, fortaleceram a atuação das forças de segurança e expandiram os serviços de atendimento e acolhimento. Executivo, Legislativo e Judiciário agora atuam juntos numa estratégia nacional. O Estado brasileiro tem encarado de frente a violência contra as mulheres.
Diante disso, Minas Gerais precisa se olhar no espelho. Esta semana assistimos chocadas à tentativa brutal de feminicídio contra Ana Cláudia Rodrigues da Silva Souza, 41 anos. Sequestrada e jogada de um penhasco pelo ex-companheiro na Serra do Rola-Moça, a família de Ana Cláudia pode comemorar o seu segundo nascimento.
Ela havia relatado ameaças a familiares. Sobreviveu agarrada à vegetação por horas, até ser resgatada. Houve sinais. Houve escalada. E o ciclo não foi interrompido a tempo. O feminicídio começa muito antes da morte e muitas mulheres não conseguem renascer.
O Atlas da Violência 2026 mostra Minas com taxa de homicídios de mulheres abaixo da média nacional. Quando olhamos mais de perto, os dados escondem desigualdades brutais.
Mulheres negras seguem sendo a maioria das vítimas. E os homicídios de mulheres dentro das residências (indicador frequentemente utilizado para aproximar a mensuração dos feminicídios) não acompanham a redução observada nos homicídios em geral.
Em Belo Horizonte, estudos que reclassificam mortes inicialmente registradas como de intenção indeterminada indicam que a violência letal contra mulheres pode estar subestimada. A violência não é contada, porque não é nomeada, não é adequadamente classificada e fica invisível.
O movimento de mulheres repete há anos: o feminicídio é um processo. Passa pela perseguição, pelo controle, pelo ciúme, pela humilhação naturalizada na escola, no trabalho, na família. E hoje atravessa também o ambiente digital, onde a misoginia virou linguagem cotidiana e, de forma muito preocupante, tem capturado nossos meninos e adolescentes.
Têm crescido comunidades digitais associadas ao universo red pill, incel, “macho alfa” e “macho sigma”. Embora não sejam homogêneas, parte significativa desses ambientes promove narrativas de superioridade masculina, hostilidade à igualdade de gênero e naturalização da violência simbólica contra as mulheres.
Disfarçadas de entretenimento ou “desenvolvimento masculino”, essas e outras comunidades disseminam e normalizam a ideia de que mulheres devem ser controladas, punidas ou submetidas. O que vivia em fóruns extremistas hoje domina as redes em escala massiva.
É uma economia digital da misoginia. Modelos de negócio baseados em engajamento tendem a amplificar conteúdos polarizadores, incluindo discursos misóginos, porque esses conteúdos frequentemente geram elevada interação e circulação. Influenciadores vendem cursos e mentorias baseados em ressentimento, radicalização e disseminação de desinformação e manipulação de dados.
Resposta institucional segue fragmentada
A violência verbal é um degrau de uma escada que leva à violência física e tem no seu topo a morte. O feminicídio é o fim de uma longa cadeia de eventos nocivos contra o corpo, a saúde física e mental, a reputação e o bem-estar das mulheres.
Enquanto isso, a resposta institucional segue fragmentada. Ainda observamos decisões judiciais e práticas institucionais que reproduzem estereótipos de gênero, revitimizam mulheres, relativizam a violência e contribuem para a impunidade sistêmica.
Se o problema é disseminado numa cadeia de práticas prejudiciais contra as mulheres, o debate não pode se reduzir à punição e ao aumento de pena.
Em 2025, o STF alterou significativamente o regime de responsabilização das plataformas digitais, ampliando o dever de ação diante de conteúdos ilícitos e discursos violentos. Em 2026, o Senado aprovou projeto que inclui a misoginia entre as condutas punidas por discriminação e incitação ao ódio, proposta que ainda segue em tramitação no Congresso Nacional. O governo federal também tem avançado no debate sobre a regulação do ambiente digital. São respostas a um cenário em que o ódio contra as mulheres circula com naturalidade e impacto massivo.
Cada elo dessa cadeia exige política pública específica: educação para a igualdade, rede de proteção fortalecida, atendimento especializado, integração entre saúde e segurança, dados qualificados e responsabilização de quem lucra com a humilhação.
Minas precisa encarar uma verdade dura: o feminicídio não se explica só por indivíduos violentos que cometem excessos. Ele expõe omissões, cultura e falhas do Estado: a proteção que não chegou, a violência naturalizada, as políticas insuficientes, um sistema que não reconhece o risco a tempo, nem protege as mulheres mais vulneráveis.
Olhar para isso com honestidade é o primeiro passo para impedir que novas histórias terminem em morte.
Significa que o estado e os municípios mineiros têm que atuar em várias frentes: ampliar a política de enfrentamento no interior e na Região Metropolitana; fortalecer as ações de prevenção; integrar perícia, atendimento em saúde e segurança; e garantir que cada mulher seja reconhecida pelo Estado com o nome correto da violência que sofreu.
O Brasil começou a enfrentar o feminicídio. Minas Gerais não pode ficar para trás.
Macaé Evaristo é deputada estadual (PT-MG) e ex-Ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania.
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Leia outros artigos de Macaé Evaristo em sua coluna no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

