Ontem participei de um momento ímpar em minha vida. Fui ouvir e ver a paixão de Macaé Evaristo ao defender sua tese de doutorado. Nunca havia assistido uma defesa de doutorado, cheguei lá para prestigiar esse momento histórico da vida de Macaé, uma mulher que como a maioria de nós mulheres negras, tem uma trajetória de vida de superações, de enfrentamento, de resistência e esperança.
Vi seus olhos brilhantes e orgulhosos de ser quem é. Macaé, como sempre me surpreendendo, estava radiante em uma veste que me trouxe a imagem de Omulu, o Orixá da saúde e de Tempo, senhor de todas as certezas de que só o tempo, no tempo de Tempo é capaz de nos trazer.
Ouvir sua defesa me trouxe a certeza que sim, nós mulheres negras podemos!!
Tentei me colocar no lugar das mulheres pesquisadas e o quanto lhes custou estar naquele lugar que Macaé nos trazia, elas ocupavam lugares de poder, ainda que não o poder que merecemos, queremos e lutamos para ter, mas um poder muito digno e gratificante, conquistado por competência, dedicação. Esta escuta me deu um sentimento de orgulho tão grande destas mulheres, que quase não cabia em mim mesma.
A lucidez e competência de Macaé com uma defesa leve, emocionada e orgulhosa traz a estas mulheres dignidade, o que é fácil de traduzir a partir do próprio título da tese: Ações Afirmativas: Mulheres Negras Escrevivendo a Política.
Na tese, Macaé nos apresenta mulheres fortes, competentes e dignas de estarem onde estão em postos de direção no poder. Ela nos afirma, serem elas, mulheres que atuando em espaços públicos escrevem, a partir da vivência, a política que acreditamos ser a que pode cobrir nossos corpos pretos.
Foi tudo muito lindo, senti a humanidade transbordando das falas da banca retirando a oficialidade seca, dura e às vezes intransigente da academia daquele lugar, daquele auditório, que era só de orgulho de ver uma mulher preta ser reverenciada por sua generosidade, sagacidade, perspicácia de nos trazer a partir de seus estudos o quanto as mulheres negras, são importantes em todos espaços que ocupam, e o quanto ocupar esses espaços é revolucionário para mulheres que escrevem suas próprias histórias a partir de suas lutas, dores, alegrias e sabedoria ancestrais.
Num mundo de extremo ódio e perda de sentido de humanidade imposta por uma necropolítica que extermina não só corpos físicos, mas também corpos pensantes e inteligentes, ver emergir de uma história de superação, de luta, resistência, fé e esperança uma Doutora por mérito, por consciência e competência me lava a alma, me renova, me faz mais forte e com desejo de continuar sempre a pisar em seus passos. Só tenho a agradecer a Macaé Evaristo por sua existência, a minha benção Doutora Macaé Evaristo!!!
Makota Celinha Gonçalves é jornalista, empreendedora social da Rede Ashoka e coordenadora geral do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (CENARAB)
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