“Somos 52% da população e do eleitorado brasileiro e isso nos coloca em condições de definir os rumos da política no País. Nosso papel é debater com as mulheres, as políticas do governo Lula para a vida das mulheres”. A frase é da advogada e ativista, Marilda Ribeiro, que acaba de ser eleita para assumir a Secretaria de Mulheres do PT-PR. Tarefa de muita responsabilidade, uma vez que o partido tem duas estrelas que são protagonistas: a ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais (SRI) e a ministra Márcia Lopes, do Ministério das Mulheres. Para Marilda, nesta entrevista, o protagonismo deve ser das mulheres da esquerda e do campo popular, tendo em vista que não basta ser mulher, é necessário ter compromisso com as nossas pautas históricas de defesa dos direitos das mulheres. Principalmente porque ‘não é aceitável’ que parlamentares votem contra pautas de interesses das mulheres: “Não queremos mulheres na Câmara Federal que votem contra as políticas públicas para as mulheres, como por exemplo, as deputadas que votaram contra a política de igualdade salarial”, sustenta. Confira:
A eleição para a Secretaria de Mulheres reuniu três lideranças e só foi decidida no segundo turno. Isso mostra o interesse em fazer o debate e a importância que as mulheres têm no partido?
MARILDA RIBEIRO: A disputa entre as três lideranças e a participação de mais de 1800 filiadas é a demonstração de que somos um partido constituído com a participação das Mulheres.
O processo eleitoral da Secretaria de Mulheres, junto com as demais Secretarias e Setoriais do Partido, é parte essencial da democracia interna partidária que possibilita o debate e a participação das filiadas na definição do que queremos do PT. Na última disputa da Secretaria, no ano de 2021, eu fui candidata e tive a menor votação entre as três candidaturas, mas nosso percentual nos deu direito a duas vagas na composição do Coletivo Estadual.
Com o compromisso de construção do PT e da participação das mulheres, demos a nossa contribuição neste período.
Neste processo atual, ao disputar novamente, reafirmamos nossa disposição de retomar o protagonismo da Secretaria Estadual de Mulheres com um trabalho coletivo em todo o Estado.
Termos diversas lideranças em condições de disputar a Secretaria, é a confirmação de que a participação política das mulheres do PT é efetiva. E isso se confirma também pelo número de mulheres do PT nos cargos eletivos conquistados nos últimos processos eleitorais em todo o Brasil. Apesar da sub-representação, os números atuais representam um grande avanço no contexto histórico de exclusão das mulheres da vida política. Vamos avançar, coletivamente.
Como secretária, quais serão as primeiras ações para a pasta.
MARILDA RIBEIRO: Primeiramente, todas as ações serão em torno da unidade, acolhimento e fortalecimento das mulheres do partido. E, a partir disso, planejar e agir coletivamente. É urgente a presença efetiva da Secretaria Estadual em todo o Estado, em todos os territórios, com a retomada do programa de formação, a partir dos coletivos nos municípios e nas regiões do Estado e do suporte às mulheres que estão nas direções partidárias, nos mandatos e no dia a dia do PT.
Entre as prioridades de nossa gestão, está a efetivação de medidas de suporte ao combate à violência política de gênero. Uma violência caracterizada pelo ataque às mulheres, pelo silenciamento e adoecimento de quem ocupa cargos e se coloca na vida pública. É um ataque à democracia e ao direito de participação política das mulheres, especialmente das mulheres negras, indígenas, LBTs e periféricas.
É urgente que o Partido assuma coletivamente essa luta com uma rede interna de atendimento, acolhimento e suporte efetivo com a perspectiva feminista, antirracista, antilbtfóbica, transfeminista, anticapacitista, contra o etarismo e comprometida com a defesa dos nossos mandatos e das nossas mulheres.
Essa mesma rede deverá assegurar as condições de fortalecimento das mulheres que queiram disputar as eleições nos próximos pleitos eleitorais.
A ministra de Mulheres, Márcia Lopes, do Governo Lula é do Paraná. Qual é a importância disso?
MARILDA RIBEIRO: Nosso estado tem grandes lideranças feministas que estão em cargos importantes do Governo Federal. A presença da ministra Márcia Lopes nos enche de orgulho e também nos traz grandes responsabilidades. Ao retomar o Ministério das Mulheres e as políticas públicas para as mulheres, o presidente Lula reafirma seu compromisso com as mulheres brasileiras e com a consolidação das propostas que construímos ao longo de muitos debates com o movimento de mulheres dentro e fora do PT.
Somos parte da organização e realização de todas as Conferências de Políticas Públicas para as Mulheres e da elaboração de propostas que se concretizaram pela atuação do nosso ministério e que colocam as mulheres no Orçamento Público.
O PT entrou com ações denunciando candidaturas que fraudavam cota de gênero. Qual é a importância disso?
MARILDA RIBEIRO: A conquista das cotas é uma medida muito importante para ampliar a participação política das mulheres, mas ainda não trouxe resultados que mudem efetivamente a cultura da exclusão das mulheres. É lamentável que os partidos políticos usem as candidaturas de mulheres apenas para cumprir a lei sem assegurar as condições efetivas de participação política. No PT, a política de cotas é coisa séria, é mecanismo de reparação da histórica exclusão das mulheres. E, por isso, a denúncia das fraudes é medida educativa e necessária. Não aceitamos que as mulheres sejam colocadas como candidatas laranjas e para ter acesso ao fundo eleitoral que sirva para dar suporte às candidaturas masculinas.
Assim como é necessário entender que as mulheres devem estar atentas aos programas políticos que representam. Ao entrar na política, o façam para defender os interesses das mulheres e da classe trabalhadora.
Não queremos mulheres na Câmara Federal que votem contra as políticas públicas para as mulheres, como por exemplo, as deputadas que votaram contra a política de igualdade salarial ou a deputada que apresentou proposta legislativa de revogação da resolução do CNJ – Conselho Nacional de Justiça, que trata sobre a adoção de Perspectiva de Gênero nos julgamentos em todo o Poder Judiciário.
Queremos mulheres nos espaços de decisão política para que intervenham na política para assegurar direitos das mulheres. E isso só é possível elegendo as mulheres do PT e dos partidos do campo popular e feminista.
Para eleições de 2026, qual será o papel das mulheres, em sua avaliação?
MARILDA RIBEIRO: Somos 52% da população e do eleitorado brasileiro e isso nos coloca em condições de definir os rumos da política no País. Nosso papel é debater com as mulheres, as políticas do governo Lula para a vida das mulheres. É reconhecer e apresentar para o conjunto da sociedade que nunca antes em nosso país, tivemos tantas políticas públicas para as mulheres. E que o PT é responsável por isso. O programa político do PT é de inclusão e valorização das mulheres e, por isso, é de garantia de atuação do Estado Brasileiro como responsável pelas políticas de igualdade salarial, de combate à violência, de garantia de emprego e renda, de segurança pública, de educação, de cuidados e muitas outras políticas que reconheçam as mulheres como destinatárias da política pública a partir das especificidades que nos compõe. Em 2026 estaremos organizadas com as mulheres do campo popular para defender quem nos defende.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

