Em 13 de maio de 2019, um usuário anônimo postou no fórum do 4chan: “Se você não tomar cuidado e fizer um noclip fora da realidade nas áreas erradas, você vai acabar nos The Backrooms, onde não há nada além do fedor de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído de fundo infinito de luzes fluorescentes no zumbido máximo e aproximadamente seiscentos milhões de milhas quadradas de salas vazias segmentadas aleatoriamente para ficar preso.
Deus te salve se você ouvir algo vagando por perto, porque com certeza ele te ouviu.”
Esse é grau zero da teoria dos backrooms: a hipótese de uma dimensão paralela à nossa, uma espécie de “quarto dos fundos” da realidade, no qual as coisas não deram muito certo. Com o lançamento do trailer do filme de terror Backrooms, da cultuada produtora de cinema A24, uma teoria que circulou alimentada por fãs incansáveis, nos wikis de fanbase, chega agora à cultura mainstream.
Com esse texto, pensando junto com um artigo recente de Shira Chess, desejo pensar a hipótese de que esse fenômeno vai além da mera popularização de uma “creepypasta” (uma lenda urbana digital). E talvez estejamos vendo um fenômeno mais amplo e sintomático: a ascensão do gótico corporativo.
Institutional Gothic
Segundo Shira Chess, em artigo publicado na MIT Press, o fenômeno dos backrooms e a estética dos espaços liminares marcam a transição do gótico clássico para o que ela define como institutional gothic (a melhor tradução em português talvez seja gótico corporativo ou gótico empresarial). Se no século XVIII o horror era extraído de ruínas aristocráticas e segredos de linhagem, no século XXI o pavor reside na alienação corporativa e na realidade mediada por algoritmos, a plataformização dos afetos, da socialização e da própria vida.
Chess argumenta que o monstro deste novo gênero não é uma criatura de carne e osso, mas a própria corporação. Uma entidade invisível e onipresente que transforma ambientes funcionais (escritórios, corredores) em labirintos existenciais: “Ela abrange tudo, desde literatura gótica a folclore da internet, passando pela cultura dos videogames e pela nostalgia dos anos 80. Mas, acima de tudo, Backrooms captura um sentimento — e um que eu diria que se tornou uma condição definidora da vida sob o domínio das grandes corporações americanas: o pavor.”
Falhas na matrix
A ideia de bugs ou glitches que sustentam o conceito de no-clipping, um defeito na física dos objetos que permite escorregar para o quarto dos fundos da realidade, parece se inspirar em jogos digitais do final dos anos 1990 e 2000, com faces em três dimensões quadriculadas. Aqueles erros de texturas que nos deixavam entrever o vazio por trás de paredes e carros sólidos no cenário de um jogo, como em Half Life, ou GTA San Andreas, por exemplo. Ressoa também a teoria de que a realidade poderia ser uma simulação de computador, como em Matrix.
Impossível não se lembrar de duas cenas icônicas de Matrix Reloaded (2003) e The Matrix Revolutions (2003) que parecem ser protótipos das imagens que vieram depois: na primeira, logo no início do último filme, Neo acorda em uma estação de metrô, uma espécie de limbo, ou limiar entre a simulação e o mundo real. E também, no segundo filme, acompanhado de um chaveiro, Neo atravessa um corredor infinito, de centenas de milhares de portas, em busca do Arquiteto. Esse corredor entre realidades vai reaparecer em Matéria Escura (2024).
A ideia de que a própria vida é uma simulação artificial parece reverberar uma intuição sintomática de uma geração sitiada pela exploração capitalista e cujos anseios, desejos e angústias são sequestrados e monetizados cotidianamente pelos algoritmos das grandes corporações do Vale do Silício. Não há saída. Estamos presos num labirinto vazio e uma força invisível e disforme parece antecipar nossos movimentos.
A narrativa da realidade como simulação se desloca portanto do horizonte cyberpunk para o horror digital. Essa é uma boa pista a ser perseguida.
Ocultismo e tecnologia
A ascensão de novas tecnologias sempre trouxe consigo novas superstições. Como mostra Stefan Andriopoulos, em Aparições espectrais: o idealismo alemão, o romance gótico e a mídia óptica. Se as lanternas mágicas, construídas a partir dos conhecimentos de óptica em câmaras escuras produziam shows de fantasmas sob o reflexo de fumaça e vapor, que provocavam no espectador a sensação de ver uma aparição real, temos ainda as curiosas correlações entre televisão e telepatia, espíritos batedores norte americanos e código morse.
Antes disso, no entanto, os romances góticos se alastraram pelo século XVIII acompanhados do barateamento da produção de livros. Tratados supersticiosos e narrativas reais de aparições fantasmagóricas se alastraram com tamanha velocidade e sucesso que chamaram a atenção de pensadores como Immanuel Kant, indignado que textos apócrifos circulassem com mesma autoridade de reflexões eruditas, o filósofo alertou paras os riscos do “vício em leitura” causado por essas histórias que mobilizaram sensações corporais.
Em alemão, o romance gótico era sinônimo de “romance de calafrios”, pelas sensações que causavam nos leitores. Antecipando o efeito de real do “found footage”, subgênero do terror contemporâneo no qual alguém encontra uma gravação real de um evento assustador, o texto impresso circula muitas vezes com prefácios apócrifos, contando a descoberta de um “manuscrito real”. A leitura era impactante. Em 1792, Ludwig Tieck, depois de uma sensação de leitura em voz alta do romance O gênio, teve um surto no qual descreve inúmeras alucinações. A leitura dessas narrativas organizadas numa reprodução serial de cenas horripilantes, “geravam pavor e gozo, ao retratarem e ministrarem uma sucessão de sustos”, explica Andriopoulos. Escreve Tieck eu seu depoimento: “Meu terror continha uma espécie de gozo ensandecido, um prazer que esteja além dos limites do humano — não consigo pensar em nada mais assustador do que ver aquela aquela aparição pela segunda vez; no entanto, repito para mim mesmo, intencionalmente, o choque, o pavor atordoante daquele momento”.
Há um prazer corporal e sensorial em ser castigado pelas histórias sombrias e é justamente essa ambiguidade do prazer no pavor e na dor que instiga os leitores a buscarem a repetição da leitura. “Não é um texto que como o da tragédia visa purgar, através da emoção, o mais profundo da alma”, explica Norma Telles, no livro Encantações, “o Gótico pretende ter efeitos físicos, visa o corpo, as glândulas, a corrente sanguínea, os músculos, a epiderme, que devem reagir ao medo.”
A repetição e a seriação do fato assustador em busca do choque é incorporada pela própria forma estrutural da narrativa gótica. Como diz Andriopoulos, a respeito de Radcliffe: “o texto se empenha numa repetição do momento contundente de vazio de puro horror, no qual passado e futuro tornam-se irrelevantes”. O corpo é pura presença.
Presente eterno e Espaços liminares
Horizontes de futuro cada vez mais apocalípticos e a aceleração do cotidiano precário e asfixiante esmagaram nossa experiência do tempo. Esse é o horror do eterno presente de luzes fluorescentes e carpetes úmidos, que funciona como uma metáfora para uma geração que, precarizada e digitalizada, torna-se objeto dentro de um sistema que exige eficiência e desempenho de uma máquina, mas que produz um constante de vazio, abandono e esgotamento.
Esse presente labiríntico, composto de espaços eternos, é representativo da experiência do tempo da contemporaneidade, como definiu François Hartog. O “regime de historicidade” no qual o presente se tornou eterno é o presentismo. O tempo parece estático nos backrooms cuja arquitetura é fundada pela noção de espaços liminares (liminal spaces).
Espaços liminares são espaços horripilantes, ao mesmo tempo estranhos e familiares. Com ascensão da IA generativa, construindo imagens e vídeos com um prompt, esse conteúdo ficou ainda mais popular no TikTok e Instagram. De acordo com a escritora e pesquisadora Laura Redfern Navarro, espaços liminares são definidos como locais de transição, nostalgia e oníricos que parecem coexistir entre diferentes realidades.
“O termo ‘liminal’ deriva de ‘limiar’, referindo-se àquilo que está entre o que é e o que não é. Um estado de transição”, explica ela em sua rede social. “Esses conteúdos, geralmente apresentados em fotos, vídeos ou áudios, retratam locais comuns ou nostálgicos como: shoppings, playgrounds e corredores de hotéis. E que compartilham uma característica central: estão completamente esvaziados.”
Laura cita uma tipologia de cinco características fundamentais, levantada pelo podcast GameFM: “Baixa resolução de imagem; iluminação inusitada, que projeta sombras estranhas; ausência de saídas visíveis; perda da função original (por exemplo, um centro comercial de madrugada que não está operando como deveria); ausência total de humanos e animais.”
São um conjunto de técnicas e elementos que, me parece, visam despertar sensações específicas no corpo do receptor.
De acordo com a escritora, a comunidade brasileira no Reddit, r/espacosliminares, criada em dezembro de 2020, durante a pandemia, define esses locais como “imagens de locais vazios e de transição que evocam nostalgia, medo, solidão ou uma estranha familiaridade.”
Papel de parede amarelo
O amarelo dos backrooms já havia aparecido na literatura gótica do século XIX. No conto O papel de parede amarelo, de Charlotte Perkins Gilman, de 1892, uma mulher fragilizada é internada, pelo próprio marido, em uma espécie de retiro terapêutico em um quarto revestido por um obscuro e assustador papel de parede amarelo. Uma história de machismo e coerção.
O papel amarelado dos backrooms contemporâneos também remete a uma prisão involuntária. O curta The Backrooms (2022), um terror analógico do diretor Kane Pixels, mostra jovens gravando um filme em VHS perto do que parece uma zona industrial abandonada. De repente, o cinegrafista se afasta e afunda no chão e cai na realidade paralela. O arquivo dessa incursão na dimensão dos backrooms é o próprio filme, gravado em 23 de setembro de 1996. O câmera parece perseguido por uma versão mais disforme sombrio de um Enderman, entidade esquelética digital, de Minecraft, enquanto avança por níveis diferentes do labirinto gótico. Uma releitura formal de A bruxa de Blair (1999) com estética de games de survivor horror. O analógico é mais real. E mais pavoroso.
A seriação e a repetição do pavor do gótico clássico estão menos presentes no enredo. São materializadas pela própria paisagem infinitamente repetida e igual, como acontece também nos planos excessivamente simétricos em Severance, filmada no complexo semiabandonado da Bell Works, em Nova Jersey. A própria realidade, mediada por algoritmos que nos entregam sempre a repetição da similaridade, nos vicia no gesto maquínico de rolar os corredores de um feed infinito.
Cair no subterrâneo dos quartos dos fundos da realidade é um despertar para a realidade como uma simulação? Ou a nostalgia de empregos formais e carreiras sólidas em uma geração cada vez uberizada?
Em grande parte do mundo, estamos diante da primeira geração, desde a Segunda Guerra Mundial, que caminha para ser financeiramente mais pobre do que seus pais, rompendo com a promessa de mobilidade ascendente que sustentou o século XX. Enquanto as gerações anteriores operavam sob uma lógica de acumulação e estabilidade, os jovens de hoje habitam um cenário onde o diploma universitário já não garante o acesso à classe média e o custo de vida, impulsionado pela especulação imobiliária e pela inflação de serviços básicos, devora salários cada vez mais frágeis.
No século XXI, os fantasmas se descolaram do castelo medieval em ruínas para o escritório vazio de papel de parede amarelo e carpetado dos anos 1990; das amaldiçoadas catedrais interioranas para os shoppings urbanos, últimos templos do consumo e da socialização; das remotas florestas sombrias para os parques infantis vazios, em ruínas, como os corredores subterrâneos de metrôs que levam a lugar nenhum. Tudo vazio, como em 2020. Ou num sonho visionário, de um futuro já presente.
*Marcos Vinícius Almeida é escritor, jornalista e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUCSP. Colaborou com crítica cultural na Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, Segundo Caderno, de O Globo, entre outros. É autor do romance Pesadelo tropical (Aboio, 2023). www.marcosviniciusalmeida.com
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