Em 2007 estávamos reunidas no VII ELFLAC – Encontro lésbico Feminista Latino-Americano e Caribenho, em Santiago do Chile, quando criamos a data.
RebeldiaS lésbicaS. No plural, não uma, mas muitas. Que bonito, né?
Caberia se perguntar se já, o fato de ser lésbica não é uma rebeldia. Certamente. Para o CIStema hetero-patriarcal, com certeza.
Mas queremos mais!
Precisamos da rebeldia permanente para não sermos engolidas/es pelo sistema.
Mas será que todas/es queremos o mesmo?
Para algumas lésbicas, só o fato de poder se identificar como mulher homossexual, ou gay, é suficiente. Aiiii que pouco, gata. Faz anos que digo e que escrevo que o lesbianismo nos dá a ferramenta de desmontar o sis-CIS-tema e nos reapropriarmos dele. Escolher como queremos viver e habitar o mundo. Sonhá-lo, desenhá-lo e habitá-lo. Com todas as nossas ganas e contradições.
Sem sonho não há materializAção.
Por isso faz tempo que insisto na volta do termo lesbianISMO, com ismo de movimento social e polítiko.
Voltando à importância das pluralidades, eu não me identifico nem como mulher, nem como homossexual, nem como gay.
Viva a pluralidade!
Por que não como mulher? Fazendo uma rápida síntese, primeiro veio Simone de Beauvoir e disse que ninguém nasce mulher, torna-se. Uns anos depois, veio Monique Wittig, da mesma turma e escreveu um texto maravilhoso que ainda hoje é tão emblemático quanto controvertido, nele, afirmava que as lésbicas não são/somos mulheres. Esse é um posicionamento político, uma fuga desse sistema que impõe suas verdades e, do qual muitas e muites de nós, desejamos implodir muitas das imposições que, pelo fato de nascer com vagina, o sistema hetero-patriarcal-capitalista-racista nos designa.
Se anos atrás, Simonenette já tinha escrito que não se nasce mulher, mas torna-se, a afirmação de Monique vai ser uma continuação desse pensamento feminista. Um ir se adentrando nessa brecha.
Não sou homossexual nem gay, sou lésbica, sou sapatão. Na sociedade patriarcal, se você fecha os olhos e pensa em homossexual ou gay, vai imaginar um homem, dificilmente seja ao encontro de uma lésbica que sua imaginação vai viajar. Precisamos afiar nosso vocabulário e, quem sabe, abraçar mais o conflito com as palavras fechadas. Entender o equilíbrio instável. Amo o movimento que se reflete no permanente transitar. Desde esse lugar de movimento-polítiko, eu me assumo sapatão não binarie. Minha não binariedade questiona o par, a rigidez, o quadrado. A não saída. Homem ou mulher? Masculino ou feminino? Negro ou branco? Cis ou Trans? Meu ser andrógino vai falar mais alto, minha korpa / korpe / korpx é meu grito de incomodidade, de não adaptação no CIStema.
Nossa língua lesbiana nos dá a possibilidade de nos desorganizar e reorganizar. Foi assim que aconteceu comigo : a heterossexualidade me deu um nome e o lesbianismo ajudou a me renomear. Explico. Nasci numa família heterossexual e me chamaram Mariana. Que estranho soa, né? Porque esse nome não sou eu. Muitos anos depois, já desde o exílio, como chama Virginia Cano no seu livro Ética tortillera (sapatão), desde a busca, desde uma nova-outra-Terra-língua eu tirei o a final do meu nome. Uns 15 anos atrás, eu estava no Fazendo gênero e uma hora pensei, mas eu não quero fazê-lo, o que mais quero é desfazê-lo, refazê-lo, implodi-lo, desmontá-lo. Na época nem se falava em não binariedade e eu não tinha referências de pessoas que podiam mudar seu nome. Mas já estavam entre nós as rebeldias lésbicas.
Anos mais tarde, escrevendo um poema sobre o meu nome, troquei o n final, pelo m. Se eu tivesse continuado na heterossexualidade compulsória, será que eu teria parado para pensar em como eu queria me chamar?, em tentar encontrar o meu nome?
Será que eu teria descoberto a potência e a liberdade de ter o guidão nas minhas próprias mãos e mudar a direção imposta pelo sistema?
Há uns 20 anos que grafo meu nome com letras minúsculas. Não é erro ortográfico, é desobediência civil é a possibilidade de pensar onde eu quero pôr as maiúsculas, como por exemplo, em feminiSmo, para diferenciá-la de feminino; ou em ARTivista.
Aproveito a data do 13 de outubro, das Rebeldias lésbikas, para reivindicar a (re)volta do LesbianISMO feminiSta, como movimento social e polítiko.
Deixo dois convites
- segunda-feira, 13 de outubro, vou conversar sobre o movimento lésbiko em Abya Yala. Atividade a convite de Formigão e Crua. Será no Utopia e Luta, às 18 horas.
- Durante a Feira do livro, vou ministrar a oficina Feminismo e lesbianismo, o que têm a ver esses movimentos sociais e políticos com a literatura. Quarta-feira, 5 de novembro, 18h, Sala Vitrine de Lançamento (Clube do Comércio – Andradas, 1085 – 4°andar). A marca do sufixo ismo implica a existência de um movimento social e político, falaremos dessa importância na literatura escrita por mulheridades e quais as diferenças entre ser feminina e ser feminiSta.
Me despeço lembrando que quando estamos juntas/juntes nos contagiamos e nos tornamos poderosas/es, fortes e felizes.
Bora continuar refletindo em círculos feminiStas e continuar tecendo estratégias de fuga, de festa e de gozo.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

