mariam pessah

ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora. Autora dA saliva que umedece, poemariam – um tratado sobre línguas, 2025; Meu último poema 2023; Em breve tudo se desacomodará, 2022; entre outros. Organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre, desde 2017, e coordenadora da Oficina de escrita e escuta feminiSta. Curadora da FestiPoa literária.

Com os olhos na Palestina

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A flotilha é composta por delegações de 44 países | Crédito: Gazafreedomflotilla/Reprodução

A ideia da Flotilha nasceu de um grupo de pessoas comuns, cientes de que havia que fazer algo urgente para deter o massacre contra o povo palestino

A ideia da Flotilha Sumud Global nasceu de um grupo de pessoas comuns, do mundo inteiro, cientes de que havia que fazer algo, urgente, para deter o massacre contra o povo palestino.  O propósito era levar ajuda humanitária aos milhares de pessoas que estão precisando, muito, e são privadas das coisas mais básicas pelo exército sionista.

A importância de tantos barcos juntos, indo com o objetivo de quebrar o cerco e levar ajuda humanitária ao povo palestino, foi fundamental no cessar-fogo. (Mesmo que antes da publicação desta coluna, o povo palestino tenha voltado a ser bombardeado.) Houve muita pressão popular. O mundo inteiro se levantou pela Palestina livre, do rio ao mar. As pessoas tomaram as ruas e as redes mostrando, em tempo real, o que estava acontecendo. Não podemos parar!

Precisamos continuar com os olhos em Gaza

Na sexta-feira à noite, alguns dias após a liberação des ativistas, teve uma conversa no Sindicato dos Bancários com Lisi Proença  e Gabi Tolotti, duas das participantes da Flotilha. Também estava na mesa Claudinha dos Santos, da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino e Sabrina Quinteros Muniz, Secretária Geral do SindBancários.

Foi emocionante ouvir de suas bocas as histórias.

Resumem em números : quase 500 pessoas ativistas de 44 países, 33 dias no mar e 7 em prisão.

Eu queria tanto entender a simbologia desses números!

Peguei a calculadora e subtrai de 2.025 (o ano em que estamos), 1.492 (o ano em que Cristóbal Colombo chegou em Abya Yala), deu 533. Fiz essa conta e fiquei surpresa, pois o resultado é exatamente a soma das quase 500 pessoas ativistas mais o tempo que elas ficaram no mar.

Baita sinal de que precisamos unir nossas lutas, Palestina e Abya Yala.

Lisi e Gabi estavam em barcos diferentes, o de Lisi, era o Sirius, uma nau de 1918. Ano que marca o fim da 1ª Guerra Mundial. Ainda não tinha sido inventada a obsolescência planejada, né? 107 anos.

Gabi diz que a missão era levar ajuda humanitária para Gaza e também todos os olhos do mundo para lá. Conseguiram. Uma semana depois, mesmo que Guga Chacra tenha dito na Globo News que a razão da guinada de Trump tenha sido pelo bombardeio de Israel ao Qatar, a gente sabe que não é assim, ou não somente. O jornalista em nenhum momento faz menção à Flotilha. Que coisa feia, Guga. 

Lisi contou que quando o barco foi interceptado pelo exército sionista, foi até cômico, pois entraram militares totalmente cobertos, só os olhos à vista, portando grandes fuzis. O barco seguia navegando e eles tinham que estar com as caras fechadas, enquanto se equilibravam na embarcação da época da primeira guerra.

Dentro do barco ainda foram bem tratadas/os, pois os militares tinham medo que houvesse alguma câmera registrando. Embora eles já tivessem cortado a luz o dia anterior. Duas embarcações ficaram em paralelo ao Sirius, uma de cada lado, desta forma conseguiram fazer algo que desligou a luz, as câmaras e a internet.

No barco, deixaram o pessoal ao sol, por horas, no andar de cima, enquanto revistavam e esvaziavam o resto da embarcação. Depois fizeram descer todo mundo ao porão, sem deixar que tirassem os coletes salva-vidas dos corpos – medida de segurança – e começaram a filmar debochando, já com o barco todo saqueado, dizendo que as pessoas estavam viajando sem nada. Isso parece uma brincadeira algo tosca, pois sobram imagens dos barcos com carregamento de ajuda humanitária e, aliás, como elas diziam, como poderiam estar viajando há 33 dias sem comida, nem água para beber? Acho que nem Cristo teria aguentado.

Ao pisar em terra firme o tratamento piorou consideravelmente. Foram levadas/os para uma prisão de segurança máxima, onde as paredes tinham marcas de tortura e sangue. Foi tomado cuidado para que não se encontrassem com os detidos palestinos.  

Estando dentro das celas não sabiam o que acontecia, fora, no mundo. Gabi estava com umas italianas e, no meio do Shabat, que é o dia de descanso sagrado (começa com a primeira estrela na sexta-feira e termina com a terceira de sábado, nesse período não há ônibus), mesmo assim, uma advogada italiana, ligada ao governo, conseguiu entrar no presidio tentando convencer as ativistas italianas de uma negociação.

Se está vindo essa figura, no meio do Shabat, a pedir para que as italianas assinem um documento é porque o mundo está pegando fogo. “Não vamos assinar”. Essas pareciam ser pequenas grandes vitórias.

Enquanto isso, “Vamos bloquear tudo com a Palestina no coração”, grande parte da Itália aderiu a uma greve geral para repudiar o genocídio em Gaza, apoiar a Flotilha Global Sumud e exigir que o governo de Giorgia Meloni rompa relações com Israel e reconheça o Estado Palestino. 

A luta conseguiu que, nos últimos dias, quatro novos países reconhecessem o Estado Palestino: Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal. Mais uma vitória!

Voltando ao Brasil, bem que Lula poderia romper de vez com o Estado sionista. Quando a embaixada finalmente fez contato com xs ativistas, foi o país que mais demorou em aparecer e quando apareceu, os funcionários nem estavam por dentro do que estava se passando e, o pior de tudo, quando as pessoas foram soltas queriam que cada ativista arcasse com sua passagem de volta! Embaixada para quê?

A Palestina é a causa de nosso tempo

Este massacre visibiliza lutas que vem de muito tempo como o são as invasões de terras. Mas ainda hoje é difícil de ver isso, continuamos defendendo as fronteiras como se elas fossem naturais. O natural seria que os rios, os mares, as montanhas, as lagoas separassem um lugar do outro, sem necessariamente dividir os povos. Sempre me pergunto qual é a diferença entre o Estado sionista que um dia chegou e cravou uma bandeira gritando Esta terra é minha, com os gritos dados pelos colonizadores e posteriores governos das Terras chamadas Brasil, Argentina, México?

Nestes dias, quando as pessoas ativistas tinham sido sequestradas, era possível ouvir quem ainda torcia pelas pessoas do Brasil. Oi? Só do Brasil? Pessoas do mundo todo se mobilizando pela libertação de outro povo e nós vamos continuar a torcer por nações? Assim como a ajuda é humanitária, nossas causas também.

Que bom momento para determos a pensar sobre o que implicam os nacionalismos, as fronteiras e a dor causada por cada bandeira cravada na lomba da terra que, com certeza, traz um histórico similar ao que acontece hoje na Palestina.

Como podemos estar na luta pelo povo palestino e não estar junto com os povos originários?  Vamos pôr juntas as bandeiras da Palestina e o wiphala?

Bora juntar todas as causas libertadoras, como os quadradinhos de cores que simbolizam esta bandeira?

Aproveito em visibilizar mais uma vez que sou judia antissionista e que venho escrevendo sobre isto há tempo.

A ideia da Flotilha nasceu de um grupo de pessoas comuns, cientes de que havia que fazer algo urgente para deter o massacre contra o povo palestino.  E você, já se fez essa pergunta? O que você anda fazendo para deter o massacre?

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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