Não tinha se cumprido uma semana do 25 de Novembro, dia Internacional de combate às violências contra as mulheridades e já estávamos lamentando novos ataques!
Será que eu deveria falar desses casos, dos descasos do patriarcado, ou vocês já devem de saber ao que estou me referindo? Vou deixar alguns links aqui: com a Márcia Tiburi que vai dar mais uma geral falando de misoginia e patriarcado, Manuela D’Ávila referindo-se aos três casos terríveis de violência acontecidos nos últimos dias.
Em março o Brasil de Fato fazia uma reportagem sobre os 10 anos da Lei sobre feminicídio, vale lembrar que em 2015 a presidentA era uma feminista e aqui tem o maravilhoso podcast De Fato, no qual nossa kerida editora Katia Marko e Ayrton Centeno entrevistam a nossa deputada federal Fernanda Melchiona, falando da epidemia de feminicídios.
Gostaria de insistir aqui com algo que eu já falei várias vezes nestas colunas, o ponto não é mais mulheres no poder, a pauta é o feminiSmo. As próprias mulheridades (utilizo este termo para chamar a atenção nas pluralidades e também, eu, como pessoa não binária, me sinto mais confortável nessa outra expressão, reconhecendo o coletivo, porém, dando uma voltinha) acham que isso não pode acontecer com elas, até a violência respingar ao seu lado? Quando não são elas próprias o alvo da violência.
O feminiSmo (e escrevo com S para diferenciar do adjetivo feminino) é um movimento social e polítiko. Não é por mim, é por nós-todas. A luta mais representativa disto é a bandeira pela legalização do aborto. Muitas feminiStas já estamos na menopausa, algumas somos lésbikas, travestis, homens trans e compomos juntas/es este sonho que tem a ver com o coletivo, nunca com o individual.
Então, importante frisar, não se trata só de ser mulheres, mas de ter o projeto político do feminiSmo. Temos muitos exemplos de mulheres no poder que não são nem um pouco o que a gente deseja. Neste momento há uma comandante, a Nádia, presidindo a Câmera de vereadorxs. Dias atrás ela mandou reprimir com gases lacrimogêneos a vereadoras negras, travestis, gay. Não é nem um pouco esse tipo de mulheres que queremos!
Voltando ao início, está me preocupando o silêncio gritante de quem se diz companheiro.
Eu quero ouvir a indignAção deles, dos homens! Assim como as pessoas brancas nos indignamos com as violências que acontecem com pessoas negras, com pessoas indígenas, quero ouvir os homens que se dizem companheiros.
Dias atrás, durante a Feira do livro, aconteceu uma palestra muito esperada da kerida Milly Lacombe. Na hora das perguntas, pegou o microfone um homem do esporte, veio se declarar feminista, falando de costas à palestrante. Ele contou de suas proezas domésticas, como lavar louça, mostrando como é um marido moderno que ajuda. Muito bem, assim é fácil, o que eu quero ver é o senhor postar essas palavras nas suas redes sociais e ocupar os espaços masculinos normativos com esse mesmo discurso. Quero ver o senhor levando a palavra para dentro do esporte, enfrentar os técnicos que dão risada da camiseta rosa, aí, você poderia explicar que é para visibilizar o câncer de mama, mas que também qual seria o problema se fossem viados?, acaso dentro da heterossexualidade, não tem homens que estão matando as suas companheiras e ex-companheiras? Milly acabava de mencionar o machismo que existe no esporte e, especificamente, no futebol, então, nós precisamos de vocês, mas não vindo ocupar nossos espaços, ocupem os de vocês, levem a palavra aonde a gente não tem como entrar, por exemplo, no vestiário masculino.
Digo isso mesmo aos homens companheiros que vêm falar nos nossos microfones no 8 de março. Aí é muito fácil se mostrar companheiro, eu queria ver eles fazendo campanha para duas mulheres chegarem à prefeitura. O esquerdomachismo gaúcho e graúdo preferiu reeleger o Melo do que fazer campanha para Maria do Rosário e Tamyres.
Pois então, nós feminiStas, queremos que o 8 de março seja todo dia. E queremos contar com a ajuda dos homens que se dizem nossos companheiros.
É extremadamente preocupante o que estamos vivendo.
As mulheridades somos mais da metade da população, mas o machismo em épocas de fascismo sai dos armários e se organiza. Lembram quando Bolsonaro gritou para a deputada Maria do Rosário, que só não a estuprava porque ela não merecia e a chamou de vagabunda, está tudo aqui aliás, que presente hein, minha gente, ele acabou indo preso no 22 de novembro, dia do aniversário dela, que maravilha! E os seis milicos de alta patente foram presos no dia 25 de Novembro.
Eu quis pensar que seria um símbolo. Uma esperança, um ar fresco. Mas essa esperança durou pouco.
Bora criar uma campanha!
Desconfie de todo homem que não se posicione politicamente nas suas redes e falas contra os feminicídios.
É hora de agir e reagir! Os homens querem falar e nós queremos ouvi-los. Mas desde os seus próprios lugares, não nos nossos.
Precisamos fazer pressão para que eles sintam na própria carne o que a gente está vivendo e sentindo. Por que quando uma palestra é com mulheres os homens não vão? Na mesa que mediei na feira do livro, com Marcia Tiburi, Manuela D’Ávila e Lilian Rocha, Marcia contou 6 homens. SEIS! Entre umas 200 pessoas que assistiam. Algo está muito errado em muitas partes, né? Se é em muitas partes, talvez seja o momento de começar a olhar por inteiro. Isso se chama machismo, misoginia, patriarcado.
Precisamos falar mais sobre o projeto político FeminiSta.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

