Neste 2026 comemoram-se 98 anos da escrita (e 97 da publicação) de um dos livros feministas mais conhecidos: Um teto todo seu, da autora inglesa Virginia Woolf. E no próximo domingo, 25 de janeiro, ela fará 144 anos. Feliz aniversário, Virginia! Aquele abraço direto desde o Brasil!
Enquanto a sua obra esteja viva eu falarei dela (e com ela) no presente. Seu legado é um presente que a gente ganhou dessa tremenda escritora inquieta e revolucionária.
Acabei de ler pela segunda vez esse livro imprescindível. Tenho um volume antigo, de 1985, da Editora Nova Fronteira, com tradução de Vera Ribeiro, e vejam que delícia, o nome da tradutora já aparecia na capa. Hoje em dia a tradução é considerada uma coautoria, por isso, sempre prestem atenção a isso, quem escreve o livro que você está lendo? Como se pergunta o coletivo Quem traduziu?
E por que pela segunda vez? Lógico, porque o livro é demais e também porque tenho a felicidade de participar de um clube de leitura maravilhoso no qual vamos conversar sobre ele. Quer saber? O clube que organiza Patrícia Palumbo, peraí, mas você já conhece seu podcast do Peixe voador? Vai logo alí, é uma lindeza! Ela começou na pandemia — ou, na infinitena como ela a chamava — lendo poesia, mas Patrícia já tem mais de 25 anos de rádio, outro tanto de organizar o SESC instrumental em São Paulo e, olha aí, tivemos a honra da sua presença em Porto Alegre, fazendo um podcast ao vivo durante a FestiPoa literária. Vai ouvindo o Peixe no Spotify que a Virginia está me chamando.
“Como faria uma mulher, se escrevesse como uma mulher.”
“… ela havia — comecei a pensar — dominado a primeira grande lição: escrevia como uma mulher, mas como uma mulher que esquecera de ser mulher, de modo que suas páginas se enchiam daquela curiosa qualidade sexual que só aparece quando o sexo não tem consciência de si mesmo.” “… mas nenhuma profusão de sensação ou delicadeza de percepção teria serventia a menos que ela conseguisse construir com o efêmero e o pessoal o duradouro edifício que permanece de pé.” “… ela não roçava simplesmente superfícies, mas (…) havia mergulhado o olhar até as profundezas”.
Eu fico aqui, acotovelada, olhando para Virginia, enquanto fala. Vocês também?
Tudo começou quando ela foi provocada (eles achavam que “só” a convidavam) a escrever para uma conferência sobre as mulheres e a ficção. Então, ela foi caminhar, e sentou-se à margem do rio, vejam a importância da natureza na literatura, e aí começou a viajar. Da ficção, ela fez um ensaio poético no qual vai questionar cadê as mulheres na ficção, mas não só na ficção, cadê as mulheres? Enquanto é barrada na hora que ela quer entrar na biblioteca da universidade, pelo simples fato de ser mulher. Sim. Isso acontecia também com mulheres brancas abastadas.
Então, ela construiu com o efêmero e o pessoal o duradouro edifício que permanece de pé até hoje. Sim, até hoje a seguimos lendo e continuam saindo edições, cada vez mais maravilhosas, sobre o livro.
Lendo ela, vinha-me à cabeça a típica pergunta que faziam os jornalistas até poucos anos atrás, cada vez que entrevistavam uma escritora: existe uma literatura feminina?
Cem anos atrás, Virginia já falava nisso e vejam com que propriedade!
“… a visão de duas pessoas entrando no táxi e a satisfação que isso me deu levaram-me também a perguntar se haverá dois sexos na mente, correspondendo aos dois sexos do corpo, e se eles também precisariam ser unidos para se conseguir completa satisfação e felicidade. E continuei amadoristicamente a esboçar uma planta da alma…”
Lembrando que no mesmo ano, 1928, ela escrevia Orlando. Uma pessoa que ia mudando de gênero em cada reencarnação. Então, ela construiu com o efêmero e o pessoal o duradouro edifício que permanece de pé até hoje. Vemos aqui a razão do escritor e filósofo transmasculino Paul B. Preciado ter feito um filme imenso, chamado Orlando, minha biografia política.
“É fatal ser um homem ou uma mulher, pura e simplesmente; é preciso ser masculinamente feminina ou femininamente masculina”.
Que visão não binária da vida e dos dias ela já nos oferecia. Quantos temas já aparecem dentro de um bom livro que escuta o efêmero e ergue com ele um edifício, mergulhando o olhar até as profundezas. Atravessando o tempo.
“Deem-lhe um quarto próprio e quinhentas libras por ano, deixem-na falar livremente e ponham de lado metade do que ela agora afirma, e um dia desses ela escreverá um livro melhor. Será uma poeta — disse eu, colocando A Aventura da Vida, de Mary Carmichael, no final da prateleira — dentro de mais uns cem anos”.
Eu li esta frase e não pude deixar de me perguntar, nós, escritoras/ies de hoje, seremos aquelxs das quais Virginia falava?
Concordo muito com o espaço e o tempo próprio. Outra hora menciona também a fechadura na porta, ela é bem representativa da concentração que precisamos para trabalhar. Porque não é que “nos sai bem”, são muitas horas-bunda.
Lembro de uma palestra de Ricardo Lisias em Porto Alegre. Ele se gabava de escrever todos os dias, sem importar o que acontecesse, ele escrevia. E punha de exemplo o dia que nasceu seu filho, ele não parou de escrever. Vocês querem que eu comente?
Cada vez que me queixo ou ponho escusas e porquês de não estar escrevendo, penso em Carolina Maria de Jesus. Ela caminhava quilômetros por dia catando papel. Voltava ao barraco, onde a esperavam a filha e dois filhos. Preparava a comida com o dinheiro que tinha feito durante o dia, ouvia os gritos das brigas da vizinhança e, ainda assim, lia e escrevia.
Em Quarto de despejo, uma hora ela diz que não poderia mais namorar um homem porque quem iria querer estar com uma mulher que pega no sono com o lápis na mão.
Imaginem uma Carolina, com o rigor do seu trabalho e sua criatividade, tendo um teto próprio, creche e babá para as crianças e um dinheiro básico assegurado. Não seria uma Carolina apenas, ganharíamos muitas mais escritoras.
Virginia no livro fala que as mulheres são pobres e acho que é ela a criar o termo de classe homem e classe mulher. “Fiquei pensando(…) que efeito exerce a pobreza na mente; e que efeito exerce a riqueza na mente (…) e fiquei pensando em como é desagradável ser trancada do lado de fora; e pensei em como talvez seja pior ser trancada do lado de dentro; e, pensando na segurança e na prosperidade de um sexo e na pobreza e insegurança do outro. ”
Eu também fico pensando na pobreza e nas desigualdades para além dos sexos/gêneros. Vou acrescentar aqui, além das classes sexuais, a racialização das pessoas. Não foi igual ser uma Carolina do que ser uma Clarice.
Muitos anos atrás, quando ainda existiam as listas de email — em lugar dos grupos de zap — estávamos reunidas virtualmente em um espaço de escritoras de América Latina e o Caribe, quando saiu o tema do dinheiro e a fantasia do mecenato. Ou seja, ter alguém que nos pague por escrever, como acontecia antigamente com os pintores. (Escrevo em masculino, pois todos os exemplos que me vem à cabeça são deles. As mulheres, como bem retratam as Guerrilhas Girls, só apareciam peladas nas pinturas. Eu sempre digo que adoraria ter Cem anos de solidão para poder escrever um livro, mas também, e como conversávamos naquela oportunidade, nós escrevemos com as filas das compras, o mercado, o tempo que dedicamos a preencher chamadas e editais (sobretudo as que somos autônomas e não temos salário), assim como vender nossos próprios livros, tudo isto faz parte da nossa galáxia dx escritorx. Com isto também escrevemos e com isso também tocamos a realidade.
E falando nisto, a primeira vez que li o livro, me impactou tanto que passei isso a minha personagem. Foi quando eu escrevia meu segundo romance, Em breve tudo se desacomodará. Voltando a ler, me surpreendi ao ver marcas do livro de Virginia, sem ser nomeada, logo na primeira página do meu livro e, mais a frente quando Manuela descobre num Sarau Um teto todo seu, concluindo, como diz nossa Virginia, que “os livros têm um jeito de se influenciarem mutuamente. “‘Chloe gostava de Olivia’. Li e então ocorreu-me que imensa mudança havia ali. Chloe talvez gostasse de Olivia pela primeira vez na literatura”.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

