Então vai!
Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras, Nós e os livros; o mais recente lançamento de Cidinha da Silva, saiu pela editora Relicário, pela NÓS.OTRAS, coleção que eu amo, recomendo todos seus livros, mesmo os que ainda não li.
Ao longo de 17 ensaios, 16 deles, dentro de três movimentos : Casulo, Lagarta, Borboleta, a autora vai criando manifestos/reflexões. Dialogando de um jeito tão belo como sincero e difícil. A sensação que (me) percorreu ao longo de 138 páginas é que este é o livro que (nos/me) faltava. Que precisava ser escrito e lido. Obrigadax Cidinha.
Antes de continuar preciso fazer uma advertência. Para quem não conhece a Cidinha, ela não escreve para deixar as leitoras, e possíveis leitores, a gosto, sentadas no sofá bebendo um drink. Isto ela já o deixa nítido no título. A autora propõe uma leitura ativa, na qual a gente vai levantando os olhos e conversando e, até, por vezes discutindo com ela. Entendo isto como uma proposta necessária, pois eu não procuro em cada livro me encontrar, mas conhecer outras ideias, ver a través dos olhos e experiências de outrxs escritorxs o que elxs pensam. E abrir caminhos e a mente. Também podem sentir algum estranhamento — como eu senti — ao não ver algumas poetas citadas, como o caso de Ana Dos Santos e Lilian Rocha, duas mulheres muito importantes e ativas na cenaliterária alegrense.
Voltemos ao início. Tudo começou bem. Tive a delícia de ver o lançamento na livraria Baleia — em Porto Alegre — numa mesa luxuosa. A autora veio conversar conosco, ela, uma verdadeira mina mineira. Como lembra a data na dedicatória, foi no 7/5/26. Estavam junto com ela, na mesa, as escritoras Taiasmin Ohnmatch e Luciany Aparecida, e, na mediação, a livreira Nanni Rios.
Não lembro de quanto tempo estivemos reunidas à beira desse foguinho literário, sei que os minutos pararam, detendo ou amplificado as sensações, e entramos nessa metamorfose de palavras e reflexões que ficam reverberando como pedra que cai na água. Nas águas.
Foi uma mesa composta por três mulheres negras e uma branca. Três lésbicas e uma heterossexual. Três escritoras e uma livreira. Entendam, esse meu quê com os números escapa de mim.
Voltando ao livro, ou, entrando nele, a escritora Cidinha da Silva, com uma longa trajetória como prosadora — tem “23 livros publicados por editoras importantes, ao longo de 20 anos de carreira, com cerca de 440 mil exemplares em circulação” — se propõe aqui “escrutinar situações frequentes vividas por escritoras negras no mercado editorial”. Cita vários exemplos de propostas de trabalho não remunerado, mostrando o intercâmbio de correios sem citar nomes. Um dos casos, acontece quando alguém na resposta lhe diz que aceita sua opinião, ao que ela escreve, não como resposta, mas para “nós” : “preciso dizer que não se trata de opinião. Estava em debate o posicionamento político e professional de recusa a ter o labor explorado — e também a voz erguida diante dessa tentativa.”
Vou copiar aqui um trechinho de uma resposta que ela dá em outra ocasião, agora, um editor que a convida a publicar como se fosse uma autora novinha e desconhecida, fazendo uma “abordagem capciosa” : “Uma vantagem de ser uma autora contra-hegemônica é que, por não acreditar no jeito que os homens dizem que as coisas são, a gente inventa jeitos mais confortáveis para a gente, dialoga com o que está estabelecido e cria lugares de existência para a gente viver livre e feliz, ainda que lutando sempre”. Mais adiante, referindo-se a ele, ela escreve : “Se não firmamos o pé, homens como esse editor — um senhor branco na casa dos 60 anos, pouco cobiçado pelo mercado editorial, mesmo com seus 30 anos de experiência — continuarão a se dirigir a autoras consolidadas de forma a diminuí-las por serem negras, como se saíssemos correndo atrás das migalhas que um editor branco nos ofereça”. Acho linda e forte a forma em que Cidinha se coloca aqui. Precisamos replicar estas respostas para ver e ter cada vez mais referências.
Lendo estes diálogos epistolares, Cidinha nos deixa menos sós, nos abre as portas a reflexões às quais muitas vezes ficam só conosco. É fundamental ver e mostrar o que para uns é normal e para outrxs deve de ser mudado. Desta forma, politiza-se o debate.
E por falar em politizar, a autora me desafia a pensar uma ideia na qual eu já venho dando voltas, mas ela é bem categórica. “Na minha condição particular de escritora negra, posso refutar a ideia de que ‘escrevo, logo sou escritora’ afirmando que ‘canto, gosto de cantar, mas não sou cantora’. Ou seja, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.
Cidinha: tu tens toda a razão. Eu sou um dos casos que incentiva às mulheridades que escrevem a se assumir como escritoras, mas concordo contigo. Uma coisa é escrever um dia, dois, três, até lançar um livro. Diferente das pessoas que nos dedicamos ao ofício e escrevemos acordando cedo, ou trabalhando até tarde, mas não o fazemos “só” nos momentos que baixa a inspiração, mas trabalhamos com a transpiração. Acontece que, como uma vez me disse uma companheira, se fosse um homem, ele teria se assumido em seguida, nós, mulheridades, mesmo tendo vários livros publicados, ainda nos é difícil. Nem Clarice Lispector se dizia escritora, mas amadora. Desde esse lugar eu empolgo para ocuparmos esse espaço.
Para ir concluindo algo que não termina aqui, vou deixar um final que não é spoiler :“Assim é também com minha literatura: não delego funções a ela. Eu crio e coloco no mundo. O restante é com a recepção”.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

