mariam pessah

ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora. Autora dA saliva que umedece, poemariam – um tratado sobre línguas, 2025; Meu último poema 2023; Em breve tudo se desacomodará, 2022; entre outros. Organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre, desde 2017, e coordenadora da Oficina de escrita e escuta feminiSta. Curadora da FestiPoa literária.

Quando não couber mais, transborde

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Quando não couber mais, transborde, livro de
Quando não couber mais, transborde, livro de Camila Correia | Crédito: mariam pesar

Abrace sua própria vida

Dias atrás tive a grata surpresa de receber o livro que dá nome a este texto. E me decidi a transbordar. Antes de começar a ler, já gostei do título. Me representa muito, pois sempre sinto que não caibo nos espaços com bordas previamente definidas.

Me perguntei se o trans, de transborde, teria alguma relação com transicionar de sexo ou de gênero, dado que o livro vem junto com uma sacola de pano onde está escrito trans, em uma linha, e borde na seguinte, em diferentes tamanhos, dando mais importância à primeira parte.

Camila Correia, sua autora, é formada em publicidade e propaganda e gosta de combinar sua poesia com elementos visuais. Para ela a escrita “é uma forma de terapia — um jeito de colocar para fora o que aperta por dentro.”

Quando não couber mais, transborde está dividido em quatro partes, para além do prefácio assinado por Pedro. Assim, sem sobrenome. Achei interessante, gosto de tudo o que desacomoda nossos lugares pré-formatados. Pedro é um nome comum e na hora de não ter a marca da família, mostra-se sem intenções de singularizar qual Pedro escreve. Sendo que poderia ser qualquer pessoa chamada — ou não — dessa maneira. Uma vez dei o nome de Ana a uma personagem de um conto, com o intuito de que muitas mulheridades pudessem se encontrar nela. Leio assim os nomes simples na literatura. De fato, acredito que Milton Nascimento tenha se baseado nessa ideia na hora de escrever uma das músicas mais conhecidas e com quem tanta gente se identifica: Maria, Maria. Concluindo a ideia, uma é a pessoa que escreve, mas pode haver vários outros Pedros ali dentro, emprestando seu eu a nós.

O primeiro que me chamou a atenção, ao abrir o livro, foi a proposta de não binariedade. Nas primeiras páginas, Camila (a quem conheço mais por Cami), deixa uma mensagem para “Você, que está lendo este livro” e, na página ao lado, tem um abraço de duas pessoas, sem marcadores de gênero. Ela está nos convidando a que todxs nós possamos entrar nesses braços entrelaçados. Tem algo dos desenhos de crianças, que iniciam e depois soltam a mão oferecendo autonomia para que cada umx de nós possa continuar como quiser, como bem o entender. Faz parte de transbordar a vida e cada umx seguindo o seu próprio caminho, sentindo o seu andar. 

Cami me faz pensar na importância das imagens abertas para nós, pessoas desobedientes e dissidentes sexuais e de gênero. Tem muitas imagens nas quais eu, como lésbikax feminiSta não binária não me identifico. 

Tem uma diferencia e acho importante marcá-la. Uma coisa é desenhar as pessoas dissidentes com traços de crianças, isto acho confuso e até perigoso, pois é passível de confundir o desejo sexual consensuado, com a pedofilia. Outra, é fazer um desenho aberto para que cada qual possa preencher o que sente e vê. Isto é liberdade. 

Quando não couber mais, transborde me lembrou aos livros de Rupi Kaur, também são pequenos poemas com ilustrações. Esta autora é poeta e artista plástica, nasceu na Índiae mora em Canadá. Outros jeitos de usar a boca é seu livro mais conhecido. As duas autoras dividem o livro em capítulos. O da Rupi tem: a dor, o amor, a ruptura a cura. Enquanto que o livro de Camila está separado em : amor, dor, luto, e o que fica no meio. Gostei especialmente deste último, cujos poemas seriam, novamente, os que não se encaixam nos outros títulos mais bem definidos.

Eu sou uma pessoa não binária desde um ponto de vista polítiko. Ou seja, cansei de que tempo todo a vida nos obrigue a definir se homem ou mulher, se lésbica ou heterossexual, se branco ou preto, se prosa ou poesia, se Grêmio ou Inter. Umas décadas atrás, Simone de Beauvoir fazia o prefácio de um livro que nem lembro qual era. Mas o que me marcou eram as palavras da filósofa e feminiSta francesa, quando versava sobre as possibilidades da vida e suas escolhas. Ela incentivava a procurar sempre uma terceira opção. Isto ficou em mim como a possibilidade da porta aberta. 

Estou escrevendo com a memória de algo que li e me marcou há mais de 30 anos.

O tempo passou, mas talvez isto tenha deixado marcas profundas em mim, como a escolha de sempre tentar deixar portas abertas. Fazer exercícios de imaginação de todas as possibilidades que existem entre uma opção e a outra. Por que só duas? Quem o diz?

Então, o convite a transbordar é um pouco isso. Não fique simplesmente com o dado, com o fechado, com o quadrado, avance! Abrace sua própria vida.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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