Mais uma COP se inicia, e seguimos nos perguntando: quantas ainda serão necessárias para, de fato, enfrentarmos a crise climática?
Quando comecei o curso de Relações Internacionais, eu nutria certa fantasia sobre a ONU e sua capacidade de construir a paz mundial. Apesar de seu papel histórico, especialmente no pós-Segunda Guerra, desromantizar a ONU e outras instituições internacionais ocidentais é uma das tarefas centrais para nós, professores, internacionalistas populares e estudiosos das Relações Internacionais.
Historicamente, as Relações Internacionais foram um campo elitizado – marcado pelo luxo, prestígio e distinção. Não por acaso, muitas pessoas que assumem funções de internacionalização em suas organizações o fazem não necessariamente por compromisso técnico ou político, mas pela busca de “reconhecimento”. Esse personalismo empobrece a potência transformadora do internacionalismo e reduz sua dimensão coletiva.
Nos últimos anos, porém, as próprias organizações internacionais têm percebido a urgência de popularizar esse espaço. A tentativa de incluir a sociedade civil em eventos como o G20 Social (2024), o BRICS-Social (2025) e, agora, na COP30, é um pequeno sinal dessa mudança na conjuntura internacional.
Povos, comunidades, movimentos populares e organizações sociais têm mostrado crescente interesse – e necessidade – de ocupar esses espaços. Na verdade, talvez seja mais do que interesse: trata-se de rebeldia. Cansaço de permanecer afastados dos espaços de decisão que afetam diretamente suas vidas e territórios.
Reconstruir a governança internacional
Com a chegada de 2030, torna-se cada vez mais difícil acreditar na efetivação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Assim como ocorreu com a antiga Agenda do Milênio – cujas metas não foram cumpridas -, tudo indica que surgirá uma nova agenda, com um novo nome, reorganizando velhos objetivos que novamente não serão atingidos.
O que mais frustra, porém, não é o descumprimento das metas em si. O incômodo maior vem do fato de que os principais tomadores de decisão em nível internacional conhecem perfeitamente as desigualdades globais e os caminhos necessários para enfrentá-las. Têm acesso a diagnósticos, dados e análises sobre as transformações estruturais que precisam ser feitas.
Eles sabem o que é preciso fazer para construirmos uma sociedade mais justa e sustentável. Mesmo assim, não o fazem.
A desculpa da falta de recursos é insustentável. Sabemos que o problema não é escassez de dinheiro. Ele está nas fortunas acumuladas e escondidas em paraísos fiscais, na sonegação de bilionários e nos investimentos trilionários na indústria armamentista – que, hoje, mata mulheres e crianças na Palestina.
A incapacidade da ONU em enfrentar os principais conflitos internacionais é um retrato de sua profunda crise de legitimidade. Assistimos, de forma televisionada e em tempo real, ao genocídio cometido por Israel contra o povo palestino, à guerra travada entre a Rússia e a OTAN no território ucraniano e à ofensiva militar e econômica dos Estados Unidos contra países como a Venezuela. Ao mesmo tempo, a guerra tarifária desencadeada por Donald Trump aprofunda desigualdades e desestabiliza economias do Sul Global, enquanto a fome avança de maneira alarmante em diversas regiões do planeta.
Acreditamos na diplomacia dos povos construída desde as comunidades
Criada para promover a paz e a cooperação entre as nações, a ONU tem se mostrado refém dos interesses das grandes potências e incapaz de garantir justiça internacional. Sua paralisia diante do sofrimento humano e da destruição ambiental revela que o sistema multilateral contemporâneo está esgotado – e que enfrentar a crise global exige reconstruir a governança internacional a partir da soberania dos povos e da solidariedade entre eles.
A persistência das desigualdades internacionais, portanto, não é uma falha técnica, mas uma decisão política. A desigualdade não é um acidente: é um projeto deliberado que beneficia e enriquece as elites econômicas e políticas do mundo.
BRICS
Diante dessa crise de legitimidade das instituições globais, o fortalecimento do BRICS representa uma alternativa concreta para reconstruir o multilateralismo a partir do Sul Global.
O grupo tem buscado ampliar o uso de moedas locais, reduzir a dependência do dólar e criar mecanismos de financiamento entre países do Sul, voltados à transição energética e ao enfrentamento das desigualdades. Ao reafirmar o compromisso com o Acordo de Paris e com o desenvolvimento social como base de qualquer relação comercial, o BRICS aponta para um novo caminho: o da cooperação, da justiça climática e da solidariedade entre os povos.
Nós, internacionalistas populares, seguimos acreditando na diplomacia dos povos – aquela que se constrói de baixo para cima, a partir dos territórios, das comunidades e dos movimentos que formulam soluções reais e enraizadas.
Neste contexto, a solução para a crise climática não nascerá da COP30. As respostas já estão sendo construídas pelos povos do mundo inteiro. Enquanto empresas transnacionais, como a Vale – responsável por crimes socioambientais e pela morte de centenas de pessoas -, se sentam à mesa de negociações e se apresentam como “sustentáveis”, as comunidades atingidas de Brumadinho, da bacia do Paraopeba, de Mariana e do rio Doce continuam lutando por justiça e reparação integral. Ironia cruel: a Vale é uma das principais financiadoras da COP30.
Ainda assim, acreditamos no poder dos povos e dos territórios. E, por isso, é preciso reconhecer que o simples fato de a COP30 acontecer no coração da floresta amazônica não é um detalhe menor. Que a força dos povos indígenas da Amazônia e da própria floresta possa incidir politicamente sobre as autoridades e gestores internacionais, inspirando encaminhamentos à altura da urgência da crise ambiental.
Enfrentar verdadeiramente a crise
Um dos principais desafios – e também uma das entregas esperadas – da COP30 em Belém está relacionado às metas de financiamento climático. Assim como ocorre com o conceito de “desenvolvimento sustentável”, existem inúmeras definições para o que se entende por “financiamento climático”.
Muitos atores têm tratado a questão climática como uma oportunidade de investimento que pode gerar lucro. Os países desenvolvidos – principais responsáveis pela crise climática global – continuam tentando relativizar sua responsabilidade. Com frequência, o chamado financiamento climático chega aos países do Sul Global em forma de endividamento, o que reforça e aprofunda a dependência dos países periféricos em relação ao centro.
“Desenvolvimento sustentável” e “financiamento climático” possuem uma variedade de interpretações, mas o que deveria ser o verdadeiro sentido desse conceito: aquele que de fato enfrenta a crise climática.
Falar em financiamento climático voltado ao enfrentamento da crise socioambiental deveria, necessariamente, significar facilitar o acesso direto aos recursos por parte das comunidades, movimentos populares e territórios que constroem soluções a partir de suas realidades locais. Isso não se limita ao apoio pontual a pequenos projetos isolados.
Trata-se, sobretudo, de financiar a auto-organização dos povos, fortalecer processos de formação política e ambiental e articular redes de solidariedade entre os territórios atingidos.
Não é possível falar em inclusão da sociedade civil nas agendas internacionais se, na prática, as condições materiais inviabilizam a participação de milhares de organizações que têm muito a contribuir.
Pode parecer que a participação popular seja uma agenda secundária diante da urgência de “reduzir as emissões de carbono” ou “combater o desmatamento”. De fato, essas metas são cruciais. Mas, antes delas, é preciso reconhecer que a governança, o acesso à informação e a garantia da participação popular são o verdadeiro caminho para enfrentar a crise socioambiental. Sem participação popular, não há reparação integral, não há justiça socioambiental e tampouco existe “sustentabilidade”.
Radicalizar a arquitetura da governança internacional, democratizando e popularizando seus processos decisórios, é um passo essencial para qualquer avanço na agenda ambiental.
É também urgente garantir a segurança de ativistas e militantes que lutam pelo direito à água, à terra e a um meio ambiente equilibrado. Não por acaso, o número de assassinatos e perseguições a pessoas que se opõem à privatização dos bens naturais cresce de forma alarmante em todo o mundo, especialmente na América Latina.
Enfrentar a crise climática também significa assegurar que nenhum grupo social suporte uma parcela desproporcional das consequências ambientais negativas de operações econômicas ou de políticas públicas. As medidas adotadas devem, portanto, incluir recortes étnicos, raciais, de classe, de gênero e geracionais. É importante lembrar: a ausência de políticas públicas ou a omissão das autoridades também configuram racismo ambiental.
Por fim, mas não menos importante, enfrentar a crise climática significa garantir o acesso justo e equitativo aos recursos naturais. Ou seja, os bens comuns da humanidade – como água, terra, minerais e energia – devem ser compreendidos para além da lógica da mercadoria. Sua gestão precisa se orientar pela centralidade das necessidades da maioria da população, reconhecendo que esses recursos são fundamentais para a produção e a reprodução da vida em escala planetária.
Minas Gerais
Em Minas Gerais, enfrentar a crise climática também passa pela defesa do caráter público das empresas responsáveis pela gestão dos recursos naturais – como a COPASA (água), a CEMIG (energia), a GASMIG (gás) e a CODEMIG (minerais).
O governo de Romeu Zema (Novo) vem conduzindo uma política sistemática de privatização dessas empresas, transferindo bens estratégicos do povo mineiro para o controle do capital estrangeiro e afastando a população das decisões sobre seus próprios recursos. Essa política, travestida de “modernização” e “eficiência”, aprofunda a dependência econômica e enfraquece a soberania popular.
Em Minas, portanto, falar em sustentabilidade é também falar em resistência – em defender o que é público, recuperar o controle social sobre os bens comuns e impedir que o futuro do estado seja entregue à lógica do lucro. Ser sustentável, aqui, é enfrentar o projeto político de Romeu Zema, que ameaça a vida, o meio ambiente e os direitos dos trabalhadores.
Reconstruir o vínculo sociedade e natureza
Nosso afastamento da natureza, da economia, da política e da cultura está entre as raízes da crise climática. Reconstruir o vínculo entre sociedade e natureza é, portanto, um imperativo civilizatório.
A COP30 será um marco importante apenas se servir para amplificar as vozes dos povos que já estão construindo, em seus territórios, alternativas concretas ao colapso ambiental e social.
Que de Belém, no coração da Amazônia, soprem ventos de transformação capazes de recolocar a vida – e não o lucro – no centro da política global. Afinal, enfrentar a crise climática é, antes de tudo, reafirmar o direito de existir com dignidade, de produzir e viver em harmonia com a Terra.
Marina Oliveira é graduada, mestre e doutoranda em Relações Internacionais pela PUC-Minas. Atualmente é pesquisadora do Centro de Estudos Latino-americanos (CELA) da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Marina integra a coordenação estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e participa do Movimento Brasil Popular (MBP). Autora do livro “O preço de um crime socioambiental: os bastidores do processo de reparação do rompimento da barragem em Brumadinho”.
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Leia outros artigos de Marina Paula Oliveira em sua coluna no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

