Por Esther Maria Guimarães e Marina Paula Oliveira
A sorveteria do Córrego do Feijão não vende mais sorvetes desde janeiro de 2019. Foi naquele mês que, a poucas centenas de metros dali, a barragem da mina da Vale se rompeu, despejando 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos no rio Paraopeba. No caminho, a lama arrancou violentamente a vida de 272 pessoas e deixou uma ferida aberta no coração de Brumadinho.
Mas a sorveteria da Sílvia não fechou definitivamente. Hoje, a cada mês de janeiro, o espaço se transforma em lugar de memória e acolhimento, abrigando a exposição fotográfica Florescer em meio à lama – memórias que brotam, que ocupa as paredes da pequena construção.
Selecionadas a partir de álbuns de família por Carmen Sandra Barbosa e Sofia Maria Barbosa, mãe e filha moradoras da vila, as imagens retratam banhos de cachoeira, colheitas, festas na escola e na igreja. São registros da vida que pulsava no Córrego do Feijão antes do crime, dando forma e cor ao cotidiano brutalmente interrompido pela lama.
Quando a solidariedade cruza fronteiras
Foi nesse espaço, carregado de memória e afeto, que aconteceu um encontro inédito no dia em que se completaram sete anos do desastre-crime da Vale. Em 25 de janeiro, uma delegação formada por 21 pessoas da Colômbia, Peru, Bolívia e Equador visitou a comunidade para uma caminhada de memória e fé em solidariedade a Brumadinho.
Todos compartilhavam uma experiência comum: a resistência à mineração em seus territórios, como Cajamarca, na Colômbia; os Andes e a Amazônia bolivianos; o Chocó Andino, no Equador; e as lagoas alto-andinas do Peru.
A visita ao Córrego do Feijão integrou a programação do 2º Encontro da Rede Latino-Americana pelo Direito de Dizer Não à Mineração, realizado entre os dias 20 e 28 de janeiro pelo Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e pela ONG belga Catapa. O encontro ocorreu nos municípios de Mário Campos e Brumadinho, reunindo comunidades atingidas, movimentos populares e organizações internacionais para troca de experiências e construção de alianças em defesa da vida e da natureza.

Memória viva contra o esvaziamento do território
A exposição Florescer em meio à lama – memórias que brotam, organizada pelo Instituto Cordilheira em parceria com a comunidade, faz parte de um esforço coletivo para manter o Córrego do Feijão como território vivo e habitado. A antiga sorveteria se tornou um verdadeiro templo da recordação, onde a memória é mantida pelo próprio povo, em contraposição ao projeto de esvaziamento territorial imposto pela Vale.
As ruas que antes abrigavam laços comunitários fortes hoje estão marcadas por casas vazias, muitas delas com placas que anunciam: “Propriedade privada da Vale – imóvel vigiado e monitorado”. A compra dos imóveis foi uma exigência da mineradora como condição para indenizações, ampliando o controle territorial da empresa sobre a comunidade que ela mesma destruiu.
Um crime que não foi acidente
O encontro internacional em torno da memória de Brumadinho vai além de um gesto simbólico de solidariedade. Ele expressa um amadurecimento coletivo na compreensão das causas e do significado mais amplo do desastre-crime. O rompimento da barragem não foi um acidente isolado, nem resultado de falhas técnicas pontuais. Ele está diretamente ligado à lógica de maximização de lucros, ao corte de gastos com segurança e à exaustão de estruturas minerárias antigas, especialmente no contexto da queda dos preços das commodities a partir de 2014.
Tanto Mariana quanto Brumadinho são resultado de escolhas empresariais feitas para manter a competitividade da Vale em um cenário de crise global – a mesma crise da qual agora o setor tenta sair por meio do discurso da “mineração verde” e da transição energética.
Isso significa que os crimes da Vale em Mariana e Brumadinho se articulam aos efeitos prolongados da crise de 2008, que lançou disputas econômicas e militares que hoje marcam a geopolítica internacional, e ao esgotamento de um ciclo extrativista na América Latina, historicamente associado a golpes de Estado, instabilidade política e à ascensão da extrema direita no continente.
Os estouros de barragem em Brumadinho e Mariana carregam consigo as determinações complexas de um tempo histórico marcado por esgotamentos e pela exaustão de um modelo, e isso dá dimensão à importância global da justiça às famílias e ao território.
Foi sob esse abrigo da memória popular que a delegação latino-americana refletiu sobre o sentido internacionalista das palavras de ordem que ecoaram durante a caminhada: Não há futuro sem memória e Justiça por Brumadinho e Mariana.
Em todos os territórios ali representados, a promessa de uma “mineração sustentável” vem acompanhada de novos projetos de espoliação, privatização da natureza e exploração de minerais estratégicos, impulsionados pela disputa global por fontes de energia e responsáveis por revitalizar a indústria mineral após a crise das commodities.
A luta é internacional porque a violência também é
Firmar o Córrego do Feijão, Brumadinho e a bacia do rio Paraopeba como territórios internacionais de memória é afirmar que os verdadeiros recursos para um futuro diferente não estão no subsolo, mas na solidariedade entre os povos. Trata-se de escolher a cooperação em vez da guerra, a defesa dos bens comuns em vez da mercantilização da vida, e a preservação da memória das vítimas frente às tentativas de apagamento dos crimes do capital.
O conteúdo de um futuro sustentável não é técnico, mas profundamente político. E é a memória que nos compromete com a não repetição dos crimes lucrativos da mineração. A dor dessa constatação foi reforçada no próprio dia em que se completaram sete anos do crime de Brumadinho: na manhã de 25 de janeiro, estruturas da Vale nas minas de Viga e Fábrica, em Congonhas, despejaram sedimentos de minério no rio Paraopeba, já profundamente atingido desde 2019.
A programação do 2º Encontro Latino-Americano pelo Direito de Dizer Não à Mineração incluiu visitas a diversas comunidades atingidas nos municípios de Brumadinho e São Joaquim de Bicas, como a Aldeia Naô Xohã dos povos Pataxó e Pataxó Hã Hã Hãe, a comunidade do Tejuco, o Córrego do Feijão e os quilombos de Marinhos e do Sapé.
Em cada território, rodas de conversa reuniram lideranças comunitárias que compartilharam os impactos, as violações de direitos e os desafios enfrentados nos últimos sete anos, fortalecendo processos de resistência que atravessam fronteiras.

O encontro reafirmou que o crime de Brumadinho e a devastação da bacia do rio Paraopeba não são exceções, mas expressão de um modelo de mineração capitalista, predatório e colonial, que sacrifica territórios e corpos do Sul Global — especialmente na América Latina e na África. Se a violência do setor mineral opera de forma transnacional, as lutas populares também precisam se articular internacionalmente.
Sete anos após o crime da Vale, em um contexto marcado pela ausência de reparação e de justiça para as comunidades e familiares das vítimas, uma certeza permanece: a solidariedade entre os povos atingidos pela mineração é o que nos mantém de pé e nos permite respirar. Até quando? Até sempre.

Esther Maria Guimarães é mestra em Ciência Política e doutoranda em Economia pela UFMG. Integra o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), atuando no núcleo Belo Horizonte e na coordenação estadual da organização.
Marina Oliveira é graduada, mestre e doutoranda em Relações Internacionais pela PUC-Minas. Atualmente é pesquisadora do Centro de Estudos Latino-americanos (CELA) da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Marina integra a coordenação estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e participa do Movimento Brasil Popular (MBP). Autora do livro “O preço de um crime socioambiental: os bastidores do processo de reparação do rompimento da barragem em Brumadinho”.
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Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

