Mauri Cruz

Advogado socioambiental (PUC/RS), especialista em direitos humanos (UFRGS/ESMPU), professor de pós-graduação nas disciplinas de planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade urbana, contratos, licitações, parcerias e gestão de organizações da sociedade civil. Diretor Executivo do Instituto de Direitos Humanos – IDhES, consultor, sócio e diretor da Usideias – Usina, Ideias e Projetos Ltda pela qual atua nos temas de pesquisa, planejamento, gestão, comunicação e avaliação de programas e projetos há mais de 20 anos.

Se não é direito de todos, é privilégio de alguns

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Assalariados que ganham até R$ 5 mil brutos por mês estarão totalmente isentos do IR
Assalariados que ganham até R$ 5 mil brutos por mês estarão totalmente isentos do IR | Crédito: Marcello Casal/ABr

Reflexões para a construção de um Brasil democrático

O capitalismo é a sociedade dos privilégios. Sua gênese assenta-se no mecanismo de apropriação do trabalho alheio para enriquecimento dos detentores dos bens e dos meios de produção. Marx, no Livro I de O Capital[1], já demonstrou que a agregação de valor aos bens e mercadorias é fruto do trabalho humano e que os donos da terra e das máquinas, ao se apropriarem da maior parte desse valor, usurpam o que não lhes pertence.

Para explicar de forma mais simples: ter uma fazenda não torna automaticamente seu proprietário rico; pelo contrário, pode deixá-lo endividado com as despesas de cuidado e manutenção. Agora, se esse proprietário contratar trabalhadores para limpar, plantar, cuidar, colher, ensacar e vender o produto do plantio, e por todo esse trabalho pagar uma mísera parte do resultado, ele enriquecerá às custas do trabalho alheio. A isso Marx chamou de mais-valia. Por isso, no capitalismo sempre haverá duas classes sociais: a que trabalha para o funcionamento da sociedade e é mal remunerada, e a que se apropria do fruto desse trabalho. Quem cultiva valores éticos, defende a justiça, a igualdade de condições e é contra os privilégios deve ser anticapitalista.

Já o capitalismo brasileiro elevou essa lógica de acumulação à enésima potência, começando pela concentração da terra nas mãos da elite agrária. E não foi por mérito. Até 1850, todo o território brasileiro era propriedade da monarquia, e o acesso à terra se dava por concessão imperial de uso, as chamadas sesmarias. O único proprietário de terras era o imperador. Isso significa que, até aquele ano, os antepassados da atual elite brasileira não eram donos de nada. Foi a publicação da Lei nº 601/1850[2] que estabeleceu a propriedade da terra para quem exercia a posse, porém condicionada ao pagamento de altos valores. Essa norma visava inviabilizar que a maioria do povo brasileiro à época, formado por escravizados recém‑libertos, imigrantes pobres e descendentes de povos indígenas pudessem adquirir terras, dando início a exclusão social e garantindo o domínio da elite agrária em todo país. Trinta e oito anos antes da abolição da escravidão, as elites criaram um mecanismo de exclusão econômica e social que organiza a estrutura de desigualdade da sociedade brasileira até os dias de hoje.

Todos os dias nos perguntamos como é possível que, numa das maiores economias do mundo, tenhamos um número tão grande de pessoas vivendo em condições precárias (ver Tabelas 1 e 2). A explicação para essa contradição está no conjunto de sistemas que construíram e perpetuam os privilégios, gerando e aprofundando as desigualdades. Esses sistemas – econômico, político e institucional – criam uma lógica de pretensa legitimidade social e formal.

Tivemos um exemplo disso na semana passada. Apesar de o Supremo Tribunal Federal ter vetado a remuneração de servidores dos três Poderes acima do teto constitucional, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ)[3] “legalizou” uma série de novos penduricalhos para juízes e promotores – dentre eles, auxílio‑moradia e auxílio‑creche. Com isso, o salário mensal de juízes pode ultrapassar R$ 80 mil, quase o dobro do teto constitucional, numa clara decisão voltada à manutenção de privilégios de menos de 2% do total de servidores públicos federais (ver Tabela 3).

No mesmo sentido, há o absurdo das pensões para filhas solteiras de militares que, embora tenha sido extinto em 2021, segue sendo pago a cerca de 180 mil que recebem R$ 6 bilhões por ano[4], uma média de R$ 28 mil mensais para cada beneficiária. Para se ter uma ideia, o Programa Bolsa Família[5] paga R$ 600,00 mensais para 22 milhões de famílias – o que abrange mais de 80 milhões de pessoas, cerca de 36% da população brasileira.

Outro mecanismo de perpetuação das desigualdades é o sistema tributário brasileiro, que historicamente tem taxado os salários e o consumo e isentado a riqueza. Com a aprovação, pelo Governo Lula III, da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5.000 mensais[6], a maioria da população se deu conta de que mais de 50 milhões de brasileiros assalariados pagavam IRPF, enquanto os lucros e dividendos dos banqueiros, grandes empresários nacionais e multinacionais são isentos. (ver Tabelas 4 e 5).

Frente a esse quadro, o que fazer?

1.⁠ ⁠Reforma Agrária

A primeira luta – e uma das mais estratégicas – é a luta pela reforma agrária. A concentração da propriedade da terra é elemento central na estrutura do capitalismo brasileiro e funciona como instrumento de dominação e controle das elites sobre a maioria do povo. Luta histórica do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), em conjunto com outras organizações e movimentos sociais do campo e da cidade, a reforma agrária tem como objetivo democratizar a propriedade da terra como elemento de soberania alimentar e como alavanca para um desenvolvimento econômico inclusivo e de distribuição de renda. A divisão da terra terá impacto direto na produção de alimentos saudáveis, na descentralização do desenvolvimento e na criação de uma classe social de pequenos e médios produtores rurais, fortalecendo a economia das pequenas e médias cidades. Terá ainda impacto direto na proteção e preservação ambiental e no desenvolvimento da autonomia alimentar e energética das comunidades. Não há como superar as desigualdades sem a divisão da terra.

2.⁠ ⁠Reforma Tributária – Taxação dos Super-Ricos

Como vimos, a estrutura do Imposto de Renda no Brasil historicamente taxou os mais pobres por meio do consumo e isentou ou aliviou os mais ricos. Por isso, uma segunda iniciativa – e uma das mais relevantes – é a taxação dos super-ricos. Na semana passada, mais de 80 organizações da sociedade civil brasileira, dentre elas o Instituto de Direitos Humanos (IDhES), lançaram a campanha “Taxar os super-ricos: justiça tributária começa no topo”. O objetivo principal é sensibilizar e mobilizar a sociedade em torno da construção de um sistema tributário justo e progressivo, capaz de financiar políticas que reduzam as desigualdades, com recorte de gênero, racial e popular. O atual estágio da reforma tributária unificou os impostos sobre a produção e circulação de mercadorias (impostos sobre o consumo pagos pela maioria da população), mas ainda não incidiu sobre as isenções e imunidades concedidas às elites brasileiras. É preciso que essa pauta seja assumida de forma conjunta e articulada por todas as organizações e movimentos sociais neste ano em que a cidadania será chamada a decidir os rumos do país. O trabalho paga imposto, o lucro não. É preciso mudar essa regra para acabar com a desigualdade.

3.⁠ ⁠Reforma Política

As elites brasileiras criticam o Estado, mas sua riqueza está intimamente ligada às políticas públicas, isenções e benefícios. Só o Plano Safra distribui mais de R$ 400 bilhões para o agronegócio, que vende suas commodities com isenção de impostos para o mercado exterior. O sistema financeiro mantém as mais altas taxas de juros do mundo, carreando o fruto do trabalho do povo brasileiro para o enriquecimento da elite financeira. Veja-se o escândalo das “Bolsomaster”[7], que envolveu bilhões de reais dos fundos de previdência de servidores do Rio de Janeiro, Distrito Federal e Minas Gerais, dentre outros estados e municípios. Todos esses privilégios são construídos a partir da elite parlamentar no Congresso Nacional. Some-se a isso as emendas parlamentares – instrumento que subverte a democracia brasileira ao criar mecanismos de perpetuação dos atuais parlamentares, corroendo a legitimidade democrática dos eleitos que, literalmente, compram e sequestram o voto de suas bases. Uma reforma política efetiva deve estabelecer mecanismos de democracia direta e participativa, retirando da representação política a dimensão de poder econômico que a deturpa e a corrompe.

4. Reforma do Sistema Financeiro

A soberania de um povo decorre da unidade territorial, da unidade social e da moeda nacional. Não há nenhum povo soberano sem moeda própria. O neoliberalismo “vendeu” a ideia da globalização como sendo passaporte para o futuro. Mas na verdade, o objetivo foi subordinar os estados nacionais soberanos aos interesses do capital transnacional monopolista. No bojo desta política, foi construída a ideia da autonomia dos bancos centrais nacionais, retirando do país o controle sobre sua moeda e sobre parte essencial da política econômica. Em função deste mecanismo, o Brasil pratica a maior taxa de juros do mundo e, através dela, suga a renda do povo brasileiro para o sistema financeiro internacional. É essencial, para que se combata as desigualdades, que seja revista a autonomia do Banco Central e que a política monetária seja controlada numa lógica de soberania e empoderamento do povo brasileiro, subvertendo a lógica da subordinação ao mercado. Sem controle social sobre a política econômica, não se construirá uma sociedade igualitária.

5.⁠ ⁠Reforma do Poder Judiciário

Finalmente – e não menos importante – é essencial uma reforma do Poder Judiciário, sustentáculo para a manutenção e legitimação dos sistemas e mecanismos que promovem e protegem os privilégios e, por consequência, as desigualdades. É preciso criar mecanismos de cotas para a nomeação de juízes e promotores, instituir controle público e social sobre as promoções para evitar que a estrutura judiciária seja controlada por castas, famílias ou até organizações comerciais. É fundamental rever as aposentadorias compulsórias para juízes e promotores condenados por crimes, extinguir os penduricalhos e garantir o respeito às normas constitucionais. Também são necessários mecanismos de transparência para evitar conluios, venda de sentenças e a utilização do Judiciário em práticas como o lawfare.

Conclusão: é fundamental que, neste ano em que a nação brasileira decidirá os rumos de seu futuro, sejamos capazes de demonstrar que o Brasil só será uma nação verdadeiramente democrática quando puser fim aos privilégios de sua elite. A construção de um país justo e igualitário é uma tarefa a ser realizada para que a cidadania seja plena, universal e duradoura.

  TABELA 01- RANKING DAS MAIORES ECONOMIAS DO MUNDO – 2024  
RANKINGPAÍSESPIB BRUTO (US$)PIB PER CAPITA (US$)RANKING PIB PER CAPITA
EUA30 trilhões $                       85.959,89 1º 
CHINA20 trilhões $                       14.285,71 9º 
ALEMANHA5 trilhões $                       59.523,81 2º 
JAPÃO4,2 trilhões $                       33.870,97 7º 
INDIA4,1 trilhões $                          2.733,3311º
REINO UNIDO3,9 trilhões $                       55.714,29 3º 
FRANÇA3,4 trilhões $                       49.275,36 5º 
ITÁLIA2,5 trilhões $                       42.372,88 6º 
RÚSSIA2,5 trilhões $                       17.123,29
10ºCANADÁ2,4 trilhões $                       54.761,90 4º 
11ºBRASIL2,3 trilhões $                       10.407,2410º

                                   FONTE: Fundo Monetário Internacional – FMI

  TABELA 02 – RANKING DA DESIGUALDADE DAS MAIORES ECONOMIA DO MUNDO – 2024
RANKINGPAÍSESINDICE GINI (2)RANKING DESIGUALDADE (3)
11ºBRASIL0,48
EUA0,41
CHINA0,36
RUSSIA0,35
REINO UNIDO0,34
INDIA0,33
JAPÃO0,32
ITÁLIA0,31
ALEMANHA0,3
FRANÇA0,3
10ºCANADÁ0,3

FONTE: Banco Mundial – O Indice GINI varia de 0 (igualdade absoluta) a 1,0 (desigualdade absoluta). Segundo o GINI, o país menos desigual é a Eslováquia com índice 0,20 o e mais desigual é a África do Sul com 0,60.

TABELA 03 – SÁLÁRIOS PÚBLICOS ACIMA DO TETO CONSTITUCIONAL – 2024
CarreirasQtde%
Poder Judiciário21.0001%
Poder Executivo12.0000,4%
Ministério Público10.0000,4%
Poder Legislativo10.0000,4%
NÚMERO DE SERVIDORES QUE RECEBEM ACIMA DO TETO53.0001,96%
TOTAL SERVIDORES PÚBLICOS2.700.000100%

FONTE: Supremo Tribunal Federal – STF

TABELA 04 – ALÍQUOTAS DO IMPOSTO DE RENDA – 2025
Faixa SalarialQtde de trabalhadores%IRPF 2025
 Até R$ 2.428,80     48.533.14044,75%Isento
 R$            3.000,00     27.742.55025,58%7,50%
 R$            4.500,00     13.405.65612,36%15%
 R$            7.500,00       9.425.1748,69%22%
 R$           15.000,00      6.127.9905,65%27%
 R$          30.000,00      2.136.6621,97%27%
 R$          60.000,00        650.7600,60%27%
 R$          90.000,00         216.9200,20%27%
  Acima de R$ 100.000,00        108.4600,1%27%
TOTAL  108.460.000100% 

                                   FONTE: Secretaria Nacional da Receita Federal do Brasil

TABELA 05 – ALÍQUOTA DO IMPOSTO DE RENDA 2026
Faixa SalarialQtde de Trabalhadores% IRPF 2027
Até R$ 5.000,00               94.506.62187% Isento
Até R$ 7.350,00                  4.712.5874,3%13%
Acima de R$. 7.350,00                 9.240.7928,5%27%
TOTAL            108.460.000100% 

                                   FONTE: Secretaria Nacional da Receita Federal do Brasil

FONTES


[1] MARX, Karl – Livro I: O Capital: crítica da economia política. Tradução Rubens Enderle, Ed. Boitempo, São Paulo, 2013.

[2] https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l0601-1850.htm

[3] https://iclnoticias.com.br/cnj-cnmp-ampliam-penduricalhos-regra-simbolica/

[4] https://www.sociedademilitar.com.br/2026/04/governo-paga-r-6-bilhoes-ao-ano-de-pensao-para-filhas-solteiras-de-militares-e-beneficio-volta-ao-centro-do-debate-em-brasilia-thz.html

[5] https://www.gov.br/mds/pt-br/acoes-e-programas/bolsa-familia

[6] https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/janeiro/receita-divulga-nova-tabela-do-irpf-com-as-mudancas-apos-isencao-para-quem-ganha-ate-r-5-mil

[7] https://www.gazetadopovo.com.br/republica/lula-culpa-governo-bolsonaro-escandalo-banco-master/

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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