O impulso de acumular bens seria inerente à própria condição humana? Ou será que o sistema capitalista construiu uma narrativa que busca associar acúmulo de objetos e felicidade?
A ideologia capitalista transmite a ideia de que a satisfação está apenas na aquisição de objetos de desejo. É só prestar a atenção no modo com que as diferentes histórias são contadas nas mídias.
O ápice de qualquer filme é o resultado final: o casamento, a formatura, o resgate de determinada pessoa ou objeto, evitar a destruição do mundo, etc. Em suma, o destaque é sempre a conquista de algo desejado. Dificilmente a abordagem está no tempo de construção de determinada conquista.
Claro que isso implica diretamente na pressa que atravessa a nossa existência. Hiper acelerados, queremos tudo para ontem! A carreira perfeita, o parceiro que complete todas as faltas, a virada de chave que tornará a minha existência um sinônimo de “sucesso” – participar de algum reality show, ganhar na mega-sena, encontrar o “amor da vida” -, a aquisição de um objeto qualquer que recentemente foi lançado no mercado e traz uma imaginária mensagem de felicidade, etc.
Aliás, sobre isso existe um conceito chamado lapidação a ouro, que é quando determinado objeto é carregado com um certo valor subliminar que o atravessa. Explico, a maioria dos carros populares podem te levar para onde você quer, mas o carro modelo X da marca Y traz em sua propaganda a ideia de que ao adquiri-lo virá mais que um carro com quatro rodas, com ele você também poderá obter poder, status, performance. Se tornará atraente, desejável, potente!
Mas claro que tudo isso é finito, afinal, logo um novo produto será lançado e então, para renovar esta sensação de potência precisará realizar um novo investimento: um carro novo, o celular do ano, a roupa da moda, frequentar novos espaços gourmetizados, etc.
Vivemos a lógica acumulativa do sistema capitalista. “Quanto mais objetos de desejo tenho, mais satisfeito me sinto”. Será? Quantas vezes você já comprou algo que desejava e logo após a posse, o furor do momento foi se esvaziando? Parece que o prazer estava justamente no desejo de possuí-lo e não no objeto em si.
Então, mesmo que a lógica de acumulação não seja eficaz em produzir satisfação, por que ela se sustenta? Por que será que o ato de consumir carrega a sensação de pertencimento ao laço social? Pela lógica capitalista que atravessa os discursos? Hoje, só somos legitimados enquanto sujeitos na medida que consumimos?
* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

