Por Camila da Conceição Magalhães*
Qual a primeira imagem que te vem à mente quando o mote lançado é coco de roda? Acredito que uma das primeiras imagens que surgem são mulheres vestidas em suas saias de chita. Essas mulheres compõem o corpo de brincantes que executam os passos da dança do coco de roda seguindo a batida acelerada do bumba ou bombo – espécie de zabumba geralmente feito em madeira e couro – e da cantiga entoada pelo puxador de coco. É importante frisar o papel dessas mulheres na manutenção da brincadeira do coco de roda, repassando seus saberes por meio da oralidade de geração a geração.

Também sou brincante de coco. Não só o de roda, como também o samba de coco que é a brincadeira lá de minha terra, não à toa conhecida como Capital do Samba de Coco, cidade de Arcoverde, Sertão de pernambucano. Desde lá, observo famílias de coco que preservam a memória e o legado do samba de coco, a exemplo do centenário Samba de Coco Irmãs Lopes, liderado pela Mestra Severina Lopes.
Brincadeira de coco, no território indígena Xukuru de Ororubá, em Pesqueira (PE), em maio de 2019
Do Sertão de Pernambuco à Paraíba, pude ver de perto mulheres que fazem a roda girar, ocupando todos os papéis dentro da brincadeira. Seja organizando a roda, puxando uma toada ou o coro, tocando uma zabumba, um ganzá. Fazem com que a brincadeira adormeça.

E sobre essa perspectiva, a pesquisadora Taiane Cristine dos Santos em sua dissertação de mestrado, defendida em 2025, fala sobre o processo de “acordar do coco”, reavivando práticas culturais que, de algum modo, estavam adormecidas. Processo que contou com forte presença e liderança feminina. Para pensar essas confluências entre as histórias que perpassam essas mulheres, Taiane Santos, em sua pesquisa, constrói uma cartografia social afetiva. A autora liga histórias de muita luta aos territórios paraibanos do Conde, no Litoral Sul, e Baía da Traição e Mataraca, no Litoral Norte.
[…] o protagonismo feminino no coco de roda precisa ser compreendido como parte de uma luta mais ampla pela memória, pela ancestralidade e pelo direito de existir fora dos marcos coloniais. Assim, ao considerarmos a trajetória das mulheres no coco de roda, é fundamental reconhecer que sua atuação, seja na liderança, na transmissão dos saberes ou nos bastidores, foi e continua sendo central para a vitalidade dessa prática cultural. As mulheres, mesmo silenciadas nos registros oficiais, sempre estiveram presentes, fazendo a roda girar, com seus corpos, vozes e saberes ancestrais (Taiane Santos).
O “acordar” da brincadeira me parece um processo que se repete em diversas regiões, seguindo tempos distintos, mas com o mesmo propósito que é manter viva a brincadeira por meio das novas gerações. Utilizando a brincadeira com uma tecnologia ancestral de resistência – ou poderia dizer uma Inteligência Ancestral – que une comunidades, transforma o cotidiano em festa e abrilhanta os olhos atentos.

Tomando como norte a cartografia afetiva de Taiane Santos, inicia-se uma série na qual buscarei apresentar algumas dessas mulheres que fazem a roda girar trazendo o coco de roda como um estandarte para suas lutas diárias. Serão cinco artigos tendo como protagonistas as mestras, brincantes, mães, trabalhadoras, e por que não, sobreviventes. Aguardem as próximas edições da coluna Memórias e Poéticas Pluri-versas Antirracistas, vinculada ao projeto Comunidade Colaborativa de Mulheres Afro-brasileiras e Ameríndias (Cocam).
Dica de leitura
Deixo como sugestão, a quem interessar um maior aprofundamento, a dissertação Entre Quilombos e Aldeias: o acordar do coco de roda e a afirmação de identidades indígenas e quilombolas na Paraíba-PB, da autora Taiane Cristine Brito dos Santos, defendida em 2025.
*Camila da Conceição Magalhães é brincante e pesquisadora da cultura popular, graduanda do curso de antropologia com habilitação em antropologia visual na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Atualmente é extensionista bolsista no projeto Cocam.
**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

