A Cidade é Nossa

O Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) é uma organização popular nacional que constrói a luta nas periferias das cidades grandes e médias do Brasil, promovendo a auto-organização da classe trabalhadora a partir de seus territórios de moradia: bairros, favelas e ocupações. O movimento atua na educação popular e construção da luta por direitos, com destaque para: direito à moradia, combate a todo tipo de violência contra as mulheres e ao racismo, direito ao trabalho, soberania alimentar, cultura e saúde. O MTD escreve mensalmente para o Brasil de Fato, na coluna “A Cidade é Nossa”.

Trabalho precarizado e moradia inacessível: o retrato da crise urbana no Brasil

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União dos Movimentos por Moradia faz marcha pelo fim dos despejos, no centro de São Paulo
União dos Movimentos por Moradia faz marcha pelo fim dos despejos, no centro de São Paulo | Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

O mundo das aplicações financeiras, atento e condizente com a cartilha neoliberal, impõe sua lógica também em uma escala para além da domiciliar.

O mundo do trabalho atravessou transformações profundas, que impactam diretamente o acesso aos direitos básicos da classe trabalhadora. No Brasil, políticas construídas ao longo de décadas foram corroídas após o golpe de 2016, dando mais espaço ao trabalho precarizado, tendo como um de seus principais marcadores a pejotização. Os principais atingidos são os mais pobres, que trabalham sem garantia de futuro e direitos. Porém, esses impactos também atingem profissões regulamentadas, gerando insegurança financeira na classe média. 

Sob a hegemonia neoliberal, onde tudo tem um custo crescente que disputa o orçamento familiar, o comprometimento da renda para garantir o básico impossibilita reservas. Consideramos o recorte das mães-solo: segundo o IBGE, são 55% das mães brasileiras, em sua maioria mulheres negras. Suas despesas fixas mensais giram em torno de 26% para alimentação, 32% aluguel, 11 % mobilidade, 30% por filho, segundo dados da ONG Habitat para a Humanidade Brasil. A vida se torna cada vez mais cara, com a renda mais instável e sonhos sendo suprimidos. 

É urgente a retomada de um horizonte em que o trabalhador tenha perspectivas de gerar fundos para destinação de bens duráveis e estruturais, como a casa, por exemplo. Mas consolidou-se uma lógica em que a renda é continuamente corroída, comprometida e disputada. 

Nesse contexto, o trabalho perde espaço de ser garantidor de direitos, e a promessa de uma vida mais segura e planejada se desfaz. Sem estabilidade e com renda comprometida, a moradia torna-se um horizonte adiado porque vive-se para pagar a conta mais urgente, sem possibilidade de se fazer reservas, planejar futuro e articular saídas coletivas.

Esta lógica tem prejudicado o desenvolvimento pleno de famílias, gerado ansiedade generalizada na vida adulta, sem dar perspectiva de futuro para a juventude. É nítido o aumento das populações vulneráveis nas ruas. 

A moradia é a porta de entrada de todos os direitos para se construir uma vida com dignidade. Sob o regime neoliberal, a oferta de moradia se apresenta pela via exclusiva da financeirização. Isto, em um mercado de trabalho frágil de direitos, longevidade e de renda comprometida, impossibilita a conquista concreta do lar.

Dados do déficit habitacional brasileiro: em 2022, o país registrava cerca de 6,2 milhões de domicílios em déficit, o equivalente a 8,3% dos domicílios ocupados, evidenciando a dimensão estrutural da negação do direito à moradia e a urgência de políticas públicas que enfrentem essa realidade.

O mundo das aplicações financeiras, atento e condizente com a cartilha neoliberal, impõe sua lógica também em uma escala para além da domiciliar. A cidade, lugar das relações integradas entre a vida e trabalho, meio ambiente e comunidades, deixa de ser tratada como território vivo da classe trabalhadora para se tornar ativo financeiroPaulo Pinto/Agência Brasil. Mapeiam potencialidades de investimentos para atender rentistas e especuladores, sem responsabilidade socioambiental.  O meio ambiente construído é alvo da especulação.

Instrumentos de planejamento urbano elaborados para garantir o direito à cidade e uma visão de gestão democrática e equilíbrio de forças de poder, muitas vezes, não são aplicados ou apropriados, passando uma mensagem clara de que esse modelo de cidade é para o mercado e não para as pessoas. 

Áreas bem localizadas, com infraestrutura oriunda de recurso público, são cercadas e privatizadas. Enquanto isso, a maioria é empurrada para expansão da cidade sem infraestrutura, serviços básicos e assistência social, isto é, gentrificação. Trata-se de um estado não democrático, com custo social alto.

O jogo é claro: a cidade neoliberal concentra riqueza em alguns pontos e aumenta o custo de vida em toda a sua extensão, atravessa a dinâmica da vida e do trabalho. Expulsa dos centros a população que vê a vida encarecer e diluir oportunidades. Nesse modelo, na ausência do Estado promotor da seguridade social, abre-se espaço para o mercado informal e criminoso na moradia, estruturado pela grilagem e por relações desiguais de poder. 

Lotes irregulares oriundos do esquema de grilagem surgem como única saída possível no orçamento dos mais vulneráveis, mas vêm acompanhados de exploração e endividamento. A grilagem não se restringe a oferta informal do lote, também atua na agiotagem para compra de material de construção para quem não tem acesso a crédito e reservas e atravessa instrumentos de ordenamento territorial, mirando em famílias inteiras que têm urgência por moradia. 

Debaixo do teto precário, mas sendo o teto possível, o ciclo é frágil: o Estado aparece não como promotor do direito, mas para a fiscalização tardia e promotora de despejo. Essa dinâmica não é pontual, mas sistêmica. Dados da Campanha Despejo Zero mostram que, entre 2020 e agosto de 2025, foram identificados 3.078 conflitos por terra e moradia no Brasil, afetando mais de 2 milhões de pessoas. Entre elas, 66,3% são pessoas negras e 62,6% são mulheres, além de um número expressivo de crianças e idosos. Esses dados revelam que a exclusão urbana e os despejos atingem de forma desproporcional os grupos historicamente mais vulnerabilizados, evidenciando o caráter racial, de gênero e de classe da crise habitacional.

É nesse cenário que as organizações sociais cumprem um papel fundamental, embora muitas vezes sobrecarregadas diante de tanta urgência e desigualdades que atacam direitos básicos, como teto, comida e trabalho. As comunidades se abraçam na coletividade e na fé, construindo instrumentos como cozinhas solidárias, hortas urbanas, coletivos de cultura, formações em educação popular, redes de economia solidária, associações de moradores e parcerias com universidades e defensorias públicas. Organizam uma rede de mitigação e resistência, construindo massa crítica e apontamento para a construção de alternativas, cobrando o direito de morar e morar com direitos!

Essas iniciativas não são mero paliativo: são respostas concretas à omissão do Estado e a um mercado predatório e apontam para um outro projeto de sociedade, baseado na solidariedade, fraternidade e na garantia de direitos. Práticas revelam uma fé concreta, encarnada no cotidiano das lutas. 

Em 2026, a proposta da Pastoral da Moradia e Favelas, que tem como inspiração o Papa Francisco em seu discurso de 2014 (“nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que provém do trabalho”), aponta para o direito à cidade e à morada digna, onde a cidades sejam para o convívio em comunhão, onde a moradia seja o espaço de repor as energias e cultivar relações, celebrando a vida e a integração social.

*André Tavares é arquiteto urbanista e militante do MTD no Distrito Federal. 

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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