Nina Fideles

Nina Fideles é jornalista e diretora-executiva do Brasil de Fato desde 2021. Fez parte da comunicação do MST, fundou a Radioagência NP e editou o Jornal Sem Terra e a Revista Caros Amigos. Graduada em Jornalismo pelo UniCeub e pós-graduada em Teorias Sociais e Produção do Conhecimento pela UFRJ em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes, escreve sobre geopolítica, imperialismo e disputas de narrativa a partir da perspectiva da classe trabalhadora e dos povos do Sul Global.

O placar da 6×1

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Centenas de manifestantes fecharam uma das pistas da avenida Paulista pelo fim da escala 6x1.
Milhares de manifestantes reivindicam o fim da escala 6×1 em São Paulo | Crédito: Elineudo Meira/@fotografia.75

A aprovação da PEC da redução da 6x1 e a mudança da Constituição brasileira rompem com uma ideia de imutabilidade.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 escancara muito mais sobre o Brasil do que a própria jornada de trabalho. A resistência feroz à aprovação da PEC na Câmara, que representa avanço inédito em nossa história constitucional, remonta à formação do país. Os resquícios da escravidão estão inscritos não apenas na estrutura econômica, mas na cultura e no imaginário social de uma nação que naturalizou seus abismos.

O sociólogo Jessé Souza, em “A Elite do Atraso”, demonstra como a lógica da escravidão moldou as estruturas mais profundas do Brasil e ainda as governa. Essas estruturas operam a serviço de uma parcela da população que condena a outra à incapacidade de imaginar outro modelo de sociedade. Uma elite que não consegue imaginar o ponto de vista de quem a serve. É o que explica por que parte do país não apenas aceita a 6×1, mas a defende, sem qualquer constrangimento, do microfone aos palanques e parlamentos.

Os argumentos dos opositores são, no mínimo, desconcertantes. Como a declaração da diretora-executiva jurídica da Fiesp, Luciana Nunes Freire, feita na última quarta-feira (1º), durante audiência pública no Senado. A fala expõe a capacidade argumentativa de quem defende a não redução da jornada: individual, mesquinha e ignorante.

“Eu trabalho 5×2 e, aos sábados, qualquer mulher que está nesse plenário, que está no centro urbano ou que está numa comunidade, vai ao salão de cabeleireiro. E vai estar fechado aos sábados para nos atender? […] Aos domingos eu abasteço o supermercado, busco comida para minha família, compro remédio para minha mãe. Vai estar tudo fechado aos domingos para mim? É certo isso?”

A ignorância tem a qualidade de não se reconhecer. Reserva aos ignorantes um lugar inabalável de suas próprias convicções, um mundo que comporta o que a cognição permite. E essa lógica se aplica a quem se acostumou a ser servido, a despeito da vida do outro.

É exatamente isso que a fala da diretora da Fiesp revela. Uma pessoa que trabalha 5×2, frequenta o salão aos sábados e abastece o supermercado aos domingos vai ao Senado defender que outra pessoa, aquela que a atende, lhe serve, que abre o salão antes que ela chegue e fecha depois que ela vai embora, continue trabalhando seis dias por semana. E não enxerga contradição alguma nisso.

O direito ao tempo

Karl Marx oferece uma base precisa para compreender o que está em disputa quando a pauta é o tempo dedicado ao trabalho. Para Marx, o tempo livre, aqui entendido como aquele que excede a mera reprodução material da vida e a produção de mais-valia, não é conforto nem recompensa. É a condição fundamental para o desenvolvimento humano e exercício de suas subjetividades. É no tempo do não-trabalho que o ser humano lê, contempla, cria e participa.

Uma sociedade que reduz o trabalhador ao tempo produtivo bloqueia, de forma seletiva e a favor da manutenção de privilégios, a formação de seres humanos capazes de construir novas formas de organização. Reduzir a jornada é também uma questão de emancipação coletiva e é a luta de classes em sua forma mais concreta.

Sem tempo livre, o trabalhador não apenas se cansa, ele aprofunda uma alienação já existente. Não há espaço para contemplar a própria realidade, para compreender o que lhe foi tirado ou o que poderia ser almejado. E, sem essa consciência, não há indignação. O que a escala 6×1 produz, portanto, não é apenas um corpo exausto, mas um sujeito incapaz de perceber a própria condição e que imputa a si, somente a si, a responsabilidade sobre as condições injustas de sua realidade.

A escala 6×1, para além de uma jornada excessiva, é um mecanismo de produção de corpos e mentes impedidos de se tornarem plenos e de movimentarem as estruturas da sociedade. Não é uma ideia irrealizável romper com isso, mas é importante dizer que não resolverá todas as contradições do mundo do trabalho. É um passo. E, por estar sendo debatida em período eleitoral, eleva o placar a favor, mas não garante sua compreensão.

A aprovação da PEC e a mudança da Constituição brasileira rompem com uma ideia de imutabilidade. Demonstram que é possível avançar, passo a passo e por meio da luta da classe trabalhadora.

Editado por: Rafaella Coury

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