No final de 2025, pesquisas de opinião apuraram que a saúde figura como a principal preocupação dos brasileiros. Segundo o Datafolha, para 20% dos entrevistados, a saúde era o maior problema nacional; por outro lado, 19% citaram a violência e a criminalidade.
Entre os homens, a saúde surge em posição ligeiramente inferior, sinalizando que a percepção masculina tende a priorizar questões relacionadas à violência, à criminalidade e à segurança pessoal no dia a dia. Já entre as mulheres, a dinâmica é distinta: a saúde é uma preocupação expressiva, sendo mencionada por 26% das entrevistadas, seguida pela violência, com 13%, e pela economia, com 11%.
Além disso, levantamentos frequentes apontam que as cidadãs são as maiores apoiadoras do presidente Lula, o que reflete uma relevante perspectiva de intenção de voto em outubro de 2026.
Em que pese essa preocupação com a saúde pública, a satisfação dos brasileiros com o SUS cresce e supera a média da avaliação dos serviços públicos na América Latina, segundo a OCDE. Entre 2022 e 2025, houve um aumento de 9 pontos percentuais na percepção positiva da população sobre o sistema. Segundo pesquisas que realizamos, a satisfação com o órgão vem aumentando progressivamente nos últimos anos e está diretamente ligada à consciência política que se formou com o trauma da covid-19.
Com esses números, é possível afirmar que o SUS nunca foi tão valorizado e, portanto, nunca gozou de tanta legitimidade e prestígio junto à população. Desde 2022, esta é uma condição inédita nos pleitos eleitorais, configurando um debate de certa complexidade para os candidatos e candidatas.
Vejamos: se a saúde é uma preocupação e o SUS aparece como a grande resposta para a superação dessa ansiedade, a conclusão que se apresenta é que cabe aos presidenciáveis não apenas priorizar o tema, mas também apresentar caminhos concretos para o fortalecimento do sistema público.
O SUS na disputa entre Lula versus Bolsonaro em 2026
A maior preocupação dos brasileiros com um eventual governo da família Bolsonaro remonta à forma como eles lidaram com a saúde na pandemia. Como ficou apontado na CPI da covid-19, o governo Bolsonaro não apenas atrasou intencionalmente a compra de vacinas, como também viabilizou processos fraudulentos e corruptos nas negociações que promovia.
A essa condição somam-se o negacionismo de que a cloroquina seria o melhor caminho para a prevenção e a cura da doença, além do combate aberto às medidas de isolamento social, expondo milhões de brasileiros e brasileiras ao fluxo do vírus.
Como apontou uma reportagem da CNN Brasil, “sete a cada dez brasileiros (cerca de 68% a 75% da população) conhecem ou conheceram pelo menos uma pessoa que morreu vítima da covid-19”. Esta é a memória e o aprendizado que pairam sobre a escolha eleitoral de muitos cidadãos.
Por contraste, no terceiro mandato do presidente Lula (2023 – 2026), o SUS obteve uma atenção inédita, se considerados os seus governos anteriores. Apesar de limites importantes, as realizações e declarações públicas do presidente mostraram que o setor esteve entre suas prioridades:
● Redução de filas: por meio do Programa Agora Tem Especialistas, buscou diminuir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias, além de expandir as unidades móveis (carretas de saúde);
● Tratamento ao câncer: realizou-se o aporte de R$ 2,2 bilhões, visando à incorporação de novos medicamentos, ao financiamento de cirurgias robóticas oncológicas e à expansão da radioterapia;
● Recuperação e ampliação do Programa Mais Médicos: aprofundou a presença do SUS em periferias e áreas historicamente desassistidas;
● Novo PAC Saúde: procurou destinar cerca de R$ 30 bilhões para a área, ampliando as teleconsultas e a construção de novas Unidades Básicas de Saúde (UBS);
● Programa Farmácia Popular: reestruturou a oferta gratuita de medicamentos para o tratamento de diabetes, asma e hipertensão, além de ampliar a distribuição de absorventes e remédios para osteoporose e anticoncepção.
Considerando isso, como vimos, a preocupação dos brasileiros, e sobretudo das brasileiras, com a saúde ainda atinge um nível bastante elevado. Sendo o SUS percebido como o caminho, caberá ao presidente projetar um rumo mais robusto de aperfeiçoamento do sistema. Para além de políticas bem-sucedidas, há medidas estruturais que não podem ser adiadas:
● A superação das péssimas condições de trabalho dos profissionais da saúde;
● O fortalecimento da administração pública como caminho alternativo à transferência da execução dos serviços de saúde para empresas;
● A construção de uma Rede Assistencial coordenada, que supere a fragmentação da oferta por municípios;
● A ampliação do financiamento do SUS, que se encontra bem abaixo do de outros países com sistemas de saúde estatais e universais.
Nos próximos meses, teremos em mãos o programa não apenas dos presidenciáveis, como também de candidatos e candidatas a deputados e senadores. O lugar do SUS nessas formulações será uma bússola das preferências eleitorais. Para as mulheres, essa consideração tem tudo para ser um critério decisivo em suas escolhas.
Ronaldo Teodoro é cientista político e professor no Instituto de Medicina Social da UERJ.
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Leia outros artigos sobre saúde na coluna O SUS no seu Cotidiano no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

