Observatório das Metrópoles - Núcleo Curitiba

O Observatório das Metrópoles é um projeto do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) que trabalha de forma sistemática e articulada sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional, tendo como referência a compreensão das mudanças das relações entre sociedade, economia, Estado e os territórios conformados pelas grandes aglomerações urbanas brasileiras.

Aluguéis cada vez mais caros em Curitiba; quando o desafio não é falta de moradia, mas quem pode pagar por ela

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Aluguéis cada vez mais caros em Curitiba
O descompasso entre aluguel e renda força famílias a morarem longe, dividirem casas, adiarem a saída de casa ou comprometerem grande parte do salário para conseguir morar. | Crédito: Foto: Giovanna Tramujas

Sem regulação adequada e sem a atuação do Estado, o aluguel deixa de ser uma alternativa e passa a ser mais um fator de exclusão

Em Curitiba, encontrar um aluguel que caiba no bolso deixou de ser apenas um desafio e se tornou, para muitos, uma realidade quase impossível. Nos últimos anos, os preços dos aluguéis subiram rapidamente, sem que a renda da população acompanhasse esse movimento.

Esse descompasso se materializa nas dificuldades enfrentadas no dia a dia da população. Para conseguir pagar o aluguel, muitas famílias são empurradas para áreas cada vez mais distantes da cidade urbanizada e das centralidades. Outras passam a dividir a moradia com mais pessoas ou adiam a saída da casa dos pais. Ao mesmo tempo, cresce o número de trabalhadores que comprometem uma parcela cada vez maior da renda para garantir um lugar para morar.

Olhar para esse cenário é urgente para que se possa garantir moradia digna para grande parte da classe trabalhadora. Isso porque, para muitos, morar de aluguel deixou de ser uma fase passageira e vem se tornando uma condição permanente. Em Curitiba, essa realidade acompanha a tendência nacional. Segundo o último censo do IBGE, entre 2016 e 2022, a proporção de domicílios alugados na cidade cresceu de 21,9% para 26,5%, o que representa cerca de 99 mil pessoas a mais vivendo nessa condição.

Essa transformação não aconteceu por acaso. O aumento da demanda por aluguel está ligado a mudanças mais amplas no mercado imobiliário brasileiro e às próprias condições econômicas da população. Desde 2015, e de forma ainda mais intensa durante a pandemia, a alta dos juros e a redução dos subsídios habitacionais tornaram mais difícil acessar outras formas de moradia.

Nesse contexto, o aluguel ganha cada vez mais centralidade como solução habitacional nas cidades, e vale dizer: ele não é o vilão dessa história. Pelo contrário, pode ser uma alternativa importante em diferentes momentos da vida, seja pela necessidade de mobilidade, pelas condições financeiras ou mesmo por escolha. O problema é que justamente essa opção vem se tornando cada vez mais cara e limitada, sobretudo nas áreas com melhor acesso a empregos, serviços e infraestrutura.

Entre 2017 e 2024, Curitiba registrou um dos maiores aumentos reais do aluguel entre as capitais brasileiras,cerca de 60%, segundo o índice FipeZAP. Esse avanço ajuda a dimensionar a gravidade do problema. Cada vez mais famílias vivem o chamado ônus excessivo com aluguel — quando mais de 30% da renda é comprometida apenas com moradia. Hoje, esse já é o principal fator do déficit habitacional no país. Na Região Metropolitana de Curitiba, o número de domicílios nessa situação saltou de cerca de 45 mil, em 2014, para mais de 60 mil em 2023.

A alta dos aluguéis é só uma questão de demanda?

Entender por que mais pessoas passaram a depender do aluguel e por que a demanda aumentou por esse tipo de moradia é importante, mas não explica, por si só, a alta dos preços com a locação. Com frequência, veículos de imprensa e profissionais do setor imobiliário em Curitiba têm atribuído esse aumento à falta de imóveis, associada à crise na construção civil. A aposta era de que a retomada recente dos empreendimentos na cidade aliviasse o cenário dos preços dos aluguéis ao ampliar a oferta de novos imóveis.

A realidade, porém, é mais complexa. Em 2022, Curitiba tinha mais de 82 mil imóveis desocupados, cerca de 12% do total de domicílios da cidade. Isso indica que o problema não é simplesmente a falta de unidades para alugar, mas a forma como elas são colocadas no mercado e acessadas pela população.

Trata-se, na verdade, de uma escassez produzida pelo próprio mercado, em que a oferta é direcionada principalmente a quem pode pagar mais. Grande parte desses imóveis estão nas áreas mais valorizadas e bem localizadas, o que coloca em dúvida se apenas construir mais unidades habitacionais será suficiente para diminuir a pressão sobre o mercado de locação e o preço dos aluguéis.

Assim como em muitas cidades brasileiras, Curitiba vive um processo de extração crescente de renda pelo mercado imobiliário. Isso se expressa na expansão de plataformas como o Airbnb, que deslocam imóveis do aluguel de longo prazo para estadias curtas, e na proliferação de apartamentos compactos e studios, pensados mais como investimento do que como moradia de famílias, com preços mais altos por metro quadrado. Embora esses movimentos não tenham a mesma escala de cidades como São Paulo, por exemplo, em Curitiba ele também gera exclusão. Na prática, o aluguel passa a ser tratado cada vez mais como ativo financeiro e se torna acessível sobretudo a quem pode pagar, deixando de fora uma parcela significativa da população.

É importante ainda dizer que o aumento dos aluguéis não ocorre de forma homogênea na cidade. Em Curitiba, a valorização segue concentrada nos eixos mais estruturados, mas já avança sobre áreas que, até pouco tempo, eram mais acessíveis. Bairros como Rebouças e Prado Velho passaram a atrair novos empreendimentos e investimentos, com destaque para a proliferação de unidades compactas, de um dormitório, voltadas ao aluguel. Esse movimento é impulsionado, entre outros fatores, por mudanças na legislação urbana que ampliaram o potencial construtivo nessas regiões após a revisão do Plano Diretor de 2015 e da Lei de Uso e Ocupação do Solo de 2019.

Se tomarmos como base o preço médio de locação em Curitiba para uma unidade de 40 m², observa-se que, diante dos valores vigentes do salário mínimo regional, os aluguéis passaram a se aproximar — e, em alguns casos, até a superar — esse patamar.

Para ilustrar, um apartamento de 40 m² no Centro custa, em média, R$ 2.394, o que corresponde a cerca de 113,6% do salário mínimo regional. No Rebouças, o valor é ainda mais elevado, chegando a R$ 3.175,60, equivalente a aproximadamente 150,8% dessa mesma renda.

Esse quadro se agrava quando se observa a distribuição da oferta. Mesmo em bairros mais afastados, onde se esperaria maior acessibilidade, a situação pouco muda. Levantamentos em portais imobiliários indicam uma forte desconexão entre renda e oferta: embora mais de 45% da população receba até 2 salários mínimos, apenas cerca de 1,9% dos imóveis disponíveis são compatíveis com esse nível de renda. Em contrapartida, unidades voltadas a rendas acima de 5 salários mínimos concentram mais de 60% da oferta, evidenciando uma escassez estrutural de moradias acessíveis no mercado formal.

Dessa forma, os impactos do aumento dos preços dos aluguéis precisam ser tratados como um problema concreto da classe trabalhadora. O que para alguns aparece como um acréscimo na despesa mensal, para muitas famílias significa viver sob constante ameaça de despejo ou de não conseguir renovar o contrato. As consequências são diretas, como deslocamentos forçados para periferias cada vez mais distantes, adaptação a moradias menores ou em piores condições e, nos casos mais críticos, o recurso a ocupações e assentamentos precários. Além disso, nem sempre essa dinâmica decorre apenas da alta dos preços. Muitas vezes, o que agrava a situação é o endurecimento dos contratos de aluguel, que passam a exigir uma série de garantias e reduzem drasticamente as opções disponíveis para quem está em maior vulnerabilidade.

O que está em jogo não é apenas onde se mora, mas quem consegue permanecer na cidade em condições dignas. Aos poucos, um padrão conhecido se reforça: áreas centrais e bem servidas tornam-se inacessíveis para grande parte da população, enquanto a periferização da moradia se intensifica em direção a novas frentes de expansão urbana.

Onde entra o Estado na crise da moradia?

Para além das dinâmicas macroeconômicas e dos interesses do mercado, o Estado também tem um papel ativo nesse processo — e precisa assumir suas responsabilidades. Um exemplo é a falta de políticas urbanas e habitacionais para enfrentar a grande quantidade de imóveis vazios em áreas bem localizadas, que poderiam ser colocados para aluguel e ajudar a ampliar o acesso à moradia.

Outro ponto é a forma como o poder público regula (ou deixa de regular) o mercado. Mudanças nos parâmetros construtivos acabam favorecendo certos tipos de empreendimentos, enquanto os preços dos aluguéis seguem pouco controlados e plataformas como o Airbnb se expandem com pouca regulação. Ao mesmo tempo, a produção de habitação de interesse social continua insuficiente diante da demanda de quem mais precisa.

É nesse contexto que entra a discussão sobre acessibilidade habitacional, ou seja, a capacidade real de uma família de arcar com os custos da moradia sem comprometer o restante do orçamento. Não importa se o acesso se dá por aluguel, financiamento ou outras formas. A questão central é se, depois de pagar pela casa, ainda sobra renda suficiente para despesas básicas como alimentação, transporte e saúde. Quando esse equilíbrio se rompe, isto é, quando a moradia passa a consumir uma parcela excessiva da renda, as famílias ficam sob pressão constante e mais expostas ao risco de perder sua moradia.

Dessa forma, sem regulação adequada e sem a atuação do Estado, o aluguel deixa de ser uma alternativa e passa a ser mais um fator de exclusão. É nesse ponto que a intervenção pública se torna essencial, para garantir que o acesso à moradia não fique restrito apenas a quem pode pagar mais.

É justamente por isso que a crise da moradia não pode ser tratada como algo natural ou inevitável. Ela resulta de escolhas — econômicas, políticas e urbanísticas — que podem e devem ser debatidas. Discutir alternativas, como a regulação do aluguel, a ampliação das políticas de habitação social, a locação social e o melhor aproveitamento de imóveis vazios, é um passo fundamental para enfrentar um problema que, mais do que urbano, é profundamente social e urgente — afinal, as pessoas precisam morar.

*Giovanna Kapasi Tramujas e Madianita Nunes da Silva

Giovanna Tramujas é Arquiteta e Urbanista, Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano da Universidade Federal do Paraná (PPU/UFPR). Integra o Núcleo Curitiba do Observatório das Metrópoles e o Laboratório de Habitação e Urbanismo (LAHURB) da UFPR.

Madianita Nunes da Silva é Arquiteta e Urbanista, Mestre e Doutora em Geografia pela UFPR, com Pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Planejamento e Gestão do Território da UFABC, Professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano da UFPR. Integra o Núcleo Curitiba do Observatório das Metrópoles e o Laboratório de Habitação e Urbanismo (LAHURB) da UFPR.

**O Núcleo Curitiba do Observatório das Metrópoles (NC-OM) reúne pesquisadoras/es de diversas áreas do conhecimento, como Geografia, Arquitetura, Sociologia, Direito e Economia, com ampla atuação na mobilização política. Em parceria com o Brasil de Fato – PR produz artigos de opinião com o intuito de democratizar a ciência e construir coletivamente conhecimentos e práticas, junto aos diversos segmentos sociais, compreendendo tal estratégia como fundamental para o enfrentamento das desigualdades e violências materiais e simbólicas que marcam a espacialidade urbana contemporânea.

***Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida
Sindicalizadas/os no SISMUC

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