Observatório das Metrópoles - Núcleo Porto Alegre

O Observatório das Metrópoles é um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) que trabalha de forma sistemática e articulada sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional, tendo como referência a compreensão das mudanças das relações entre sociedade, economia, Estado e os territórios conformados pelas grandes aglomerações urbanas brasileiras. A rede nacional é formada por 16 núcleos situados nas principais metrópoles brasileiras. O Núcleo Porto Alegre é um dos núcleos originais da rede e congrega pesquisadores e pesquisadoras de diferentes áreas e instituições de ensino e pesquisa do estado.

A persistência da desigualdade de gênero: uma análise crítica do mercado de trabalho gaúcho em 2025

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Dados do Cempre revelam uma triste marca: a taxa de participação feminina no mercado de trabalho atingiu seu menor nível desde 2016 (44,3%) | Crédito: Foto: Arquivo Agência Brasil

A desigualdade atinge seu ápice na dimensão salarial

O mês de março traz o debate sobre a mulher e suas diferenças no que diz respeito ao mercado de trabalho. O dia 8 de março é referência quando se trata de refletir o conjunto de dificuldades relativas através de diferentes óticas: gênero, raça, idade, escolaridade. Sua inserção frequentemente oscila entre a celebração de avanços pontuais e a negligência de disparidades estruturais. Na 10ª edição do Boletim Especial do Observatório La Salle, baseado nos dados da PNAD Contínua do terceiro trimestre de 2025, fica evidente que a busca pela igualdade social entre homens e mulheres ainda enfrenta barreiras sistêmicas no Rio Grande do Sul.

Quando se percebe as dinâmicas das acusações e suas assimetrias no território estudado percebe-se que no terceiro trimestre de 2025, o contingente de pessoas ocupadas no estado totalizou 5,834 milhões, dos quais 2,645 milhões (45%) eram mulheres. Embora a proporção feminina se eleve em Porto Alegre, alcançando 48% da força de trabalho, o ritmo de crescimento revela uma assimetria preocupante. Enquanto o estado registrou uma expansão de 0,5% na ocupação feminina, o contingente masculino sofreu uma retração de 0,3%. Na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), a estabilidade masculina contrastou com um crescimento feminino de 0,4%.

Esses indicadores, à primeira vista positivos para as mulheres, exigem uma leitura sociológica: as variações positivas das mulheres, em um cenário de retração ou estagnação masculina, muitas vezes reflete a necessidade de estratégias de sobrevivência familiar em postos de menor prestígio ou maior precariedade, e não necessariamente uma conquista de espaços de liderança. Também pode estar associado a núcleos familiares cuja característica seja de mães solo.

Ao olhar a desocupação percebe-se a fragilidade das mulheres na Região Metropolitana de Porto Alegre refletida na taxa de desocupação. No estado, a taxa de desemprego total foi de 4,1%. O cenário em Porto Alegre é ainda mais crítico, com a desocupação feminina atingindo 6,4%, superando em 16% a taxa total da capital.

Mais alarmante é a variação temporal entre 2024 e 2025. Enquanto a desocupação masculina no estado encolheu significativos 24,4%, a queda para as mulheres foi de apenas 17,2%. O dado mais gritante reside na Região Metropolitana de Porto Alegre: enquanto os homens viram sua taxa de desocupação cair 16,9%, a das mulheres cresceu em 5,8% no mesmo período. Isso demonstra que os mecanismos de absorção de mão de obra estão operando de forma excludente, marginalizando a força de trabalho feminina justamente nos grandes centros urbanos.

A desigualdade atinge seu ápice na dimensão salarial. O rendimento médio mensal real no Rio Grande do Sul é de R$ 3.754,00, mas as mulheres recebem, em média, R$ 3.157,00 — aproximadamente 16% a menos que a média total e significativamente menos que os R$ 4.240,00 recebidos pelos homens. Na RMPA, a distância entre os gêneros é de R$ 1.654,00 em favor dos homens.

A análise da variação do rendimento entre o 3° trimestre de 2024 e o de 2025 expõe a face mais cruel dessa dinâmica. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, enquanto o rendimento masculino saltou 8,3%, o rendimento das mulheres sofreu uma redução real de 1,2%. Trata-se de um processo de pauperização relativa da mulher trabalhadora em meio a um cenário de crescimento para seus pares masculinos. Esta pauperização pode estar associada a diferentes fatores, não trabalhados neste artigo. Mas é prudente levantar algumas suposições: menores remunerações são um reflexo de escolarização, ou cor, ou mesmo o fato de exercer atividades mais precárias como ambulantes.

Os dados apresentados pelo Observatório La Salle não são apenas estatísticas, são evidências de que o mercado de trabalho no estado do Rio Grande do Sul e na Região Metropolitana de Porto Alegre continua a reproduzir a lógica da subordinação feminina. A disparidade salarial e a resistência das taxas de desocupação feminina exigem políticas públicas que transcendam a retórica e abordem a divisão sexual do trabalho. Como aponta a comunidade acadêmica, é imperativo problematizar a contribuição da força de trabalho feminina para que o desenvolvimento econômico se traduza, efetivamente, em bem-estar social para todas.

*Moises Waismann, Rute Henrique da Silva Ferreira, Judite Sanson de Bem são pesquisadores/as do Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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