Estelamaris de Barros Dihl, Paula Pinhal de Carlos e Moisés Waismann*
O mês de março, internacionalmente dedicado à luta das mulheres, é frequentemente repleto de discursos institucionais que celebram a busca pela igualdade social e o respeito às diferenças. No entanto, a brutal realidade que emerge dos indicadores de segurança pública do Rio Grande do Sul em 2025 nos obriga a focar também na denúncia. O Boletim Especial de Indicadores de Violência Contra as Mulheres, produzido pelo Observatório UniLaSalle, publicado em março deste ano, revela que a estrutura patriarcal segue operando com força total, transformando lares em campos de subjugação e extermínio de mulheres.
Os números são avassaladores: foram registradas 52.711 ocorrências de violência contra a mulher no Estado ao longo de um único ano. Para além da frieza das estatísticas, é preciso compreender que cada unidade, número ou percentual representa uma vida marcada, um corpo ferido e um sonho interrompido.
A análise dos dados revela uma hierarquia de abusos que serve como termômetro da barbárie. A ameaça é o crime mais comum, representando 59,9% dos casos (31.558 registros), seguida pela lesão corporal, que responde por 35% (18.455 registros). Somados, esses dois tipos de violência, etapas muitas vezes anteriores ao feminicídio, mostram que o cotidiano de milhares de gaúchas é pautado pelo medo e por danos físicos e psicológicos.
O boletim também evidencia uma preocupante sazonalidade. Os meses de janeiro e dezembro, períodos de festas, calor intenso e maior convívio doméstico, registraram os maiores picos de violência, com mais de 5.000 casos cada. Isso reforça a tese de que o ambiente privado, longe dos olhos do Estado e da rede de apoio laboral, ainda é o local de maior vulnerabilidade e risco para a mulher.
O dado mais alarmante e que exige uma resposta imediata do governo e da sociedade civil é a resistência dos crimes letais à queda. Enquanto o índice geral de violência teve uma redução tímida de 1%, os crimes que podem culminar com a morte da mulher subiram.

O feminicídio consumado cresceu 10% em relação a 2024, enquanto as tentativas de feminicídio aumentaram 12%. Mais estarrecedor ainda é notar variações mensais absurdas: em abril de 2025, o feminicídio consumado teve um acréscimo de 1.000% em comparação com o ano anterior. Como aceitar que, em plena década de 2020, com legislações como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, os indicadores de letalidade continuem avançando?
Os números apresentados no Boletim não estão desconectados da realidade nacional. Dados recentes indicam que o Brasil registra, em média, quatro mulheres assassinadas por dia em razão do gênero. Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Ministério da Justiça apontam que, em mais de 80% dos casos de feminicídio, havia histórico prévio de violência doméstica, muitas vezes já formalmente denunciada. Em parcela significativa desses crimes, as vítimas possuíam medidas protetivas ativas, o que evidencia lacunas na fiscalização, no monitoramento dos agressores e na capacidade da rede de proteção de atuar de forma preventiva. Os números não apenas contabilizam mortes, mas expõem a incapacidade institucional de transformar informação em ação e alerta em proteção.
O boletim vai além de apresentar os números ou documentar o luto; ele deve ser lido como um instrumento de luta e problematização. A estabilidade nos crimes de ameaça (0% de variação anual) e o crescimento de 100% nas tentativas de feminicídio em meses como agosto mostram que a rede de proteção está falhando em interromper a espiral da violência antes que ela chegue ao desfecho fatal.
Não basta visibilizar; é preciso agir. O enfrentamento à violência contra a mulher exige investimento contínuo em educação de gênero, ampliação e fortalecimento das Delegacias da Mulher e dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, consolidação da rede de serviços especializados, suporte financeiro para vítimas que dependem economicamente de seus agressores e monitoramento rigoroso das medidas protetivas. Hoje, a ausência ou fragilidade desses serviços em muitos municípios amplia o risco e a sensação de abandono.
Como afirma a citação que abre o boletim, as diferenças biológicas não podem servir de pretexto para subordinar e inferiorizar a mulher. Enquanto os números de 2025 forem o retrato da nossa sociedade, o Rio Grande do Sul continuará em dívida com a vida e a dignidade de suas cidadãs. Que esses dados sejam o combustível para uma indignação que não termine quando as luzes de março se apagarem.
* Professoras e professor da Universidade La Salle (Canoas/RS). Moisés Waismann é pesquisador do Observatório das Metrópoles Núcleo Porto Alegre.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

