Observatório das Metrópoles nas Eleições de Salvador

O Observatório das Metrópoles reúne pesquisadores sobre as cidades em todas as regiões do Brasil, tendo um núcleo na Região Metropolitana de Salvador. As colunas tratam de temas como mobilidade, moradia, segurança e urbanismo. Um olhar crítico e propositivo sobre o desenvolvimento de Salvador e sua região metropolitana, visando contribuir para um futuro urbano justo e sustentável.

Remover para habitar: os nós da moradia popular no Brasil

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Unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida | Crédito: Agência Brasil

A remoção jamais é mera questão burocrática ou jurídica abstrata, pois é um mecanismo ativo de segregação socioespacial

Por André Augusto Araújo Oliveira*

Se o Estado está construindo moradias enquanto remove moradores de seus territórios históricos, de que direito à moradia estamos falando na prática?

Enquanto o Brasil acumula um déficit habitacional de quase 6 milhões de moradias, mais de 190 mil famílias foram ameaçadas ou efetivamente removidas de seus lares nos últimos anos, segundo a campanha Despejo Zero. A conta não fecha: ao mesmo tempo em que o poder público anuncia novas entregas do Minha Casa, Minha Vida, a máquina urbana segue operando por meio de desapropriações forçadas e reassentamentos compulsórios, empurrando a população mais pobre para as periferias desprovidas de serviços básicos.

Essa dinâmica evidencia que o problema não reside apenas na falta de teto, mas no modelo de cidade que o Estado financia. Em vez de consolidar as comunidades em áreas centrais e já providas de infraestrutura, os novos conjuntos habitacionais são sistematicamente erguidos nas franjas mais distantes do tecido urbano, onde o solo é mais barato. Ao trocar uma ocupação consolidada próxima ao trabalho, à saúde e à escola por um endereço periférico sem transporte público ou saneamento adequado, a política habitacional deixa de combater a exclusão e passa a institucionalizar a segregação socioespacial.

O impacto no bolso é mensurável: segundo o relatório do déficit habitacional da Fundação João Pinheiro, o ônus excessivo com moradia urbana atinge mais de 3 milhões de famílias, concentrando 84% dos casos na faixa de renda de até três salários mínimos. Ao serem transferidos para conjuntos distantes, os moradores somam a essas contas novas custos fixos e até 20% a mais da renda comprometida com tarifas de transporte coletivo, conforme apontam estudos de mobilidade urbana do IPEA. A distância física dos polos de emprego reduz a renda do trabalho informal e quebra a rede de vizinhança indispensável para mães chefes de família que dependem de apoio comunitário para trabalhar.

É neste contraste que a política habitacional se revela como tendo seu limite estrutural dentro da lógica capitalista de produção do espaço. Uma família trabalhadora pode ganhar a chave de um apartamento formalizado e, no mesmo momento, perder definitivamente seu território. Pode conseguir quatro paredes rebocadas e ver destruída a rede de apoio que é fundamental para o cuidado dos filhos e a subsistência coletiva. Pode deixar uma ocupação precária e ser levada a conjuntos periféricos isolados, sem emprego próximo, sem linhas de ônibus regulares e sem o convívio comunitário conquistado na luta diária.

A questão que se impõe à reflexão pública é direta: quando a moradia chega apenas como justificativa para uma remoção estamos garantindo de fato um direito social fundamental ou estamos gerenciando a expulsão sistemática dos pobres das áreas valorizadas da cidade?

A luta pelo solo urbano e a expulsão de classe

As cidades no Brasil não são erguidas por mero consenso técnico ou planejamento neutro. Elas representam o produto de um conflito de classes permanente e violento pelo uso e pela apropriação do solo urbano. Trata-se de uma luta árdua por investimentos estatais, infraestrutura viária, saneamento, mobilidade, valor imobiliário e pelo direito básico de existir no espaço público.

Em Salvador, essa contradição estrutural ganha contornos nítidos nas intervenções viárias e de transporte de massa. Enquanto grandes eixos de integração conectam polos econômicos e valorizam vetores imobiliários, projetos como o VLT do Subúrbio e as aberturas de corredores expressos impõem a marcação e demolição de centenas de imóveis populares ao longo da orla ferroviária. A promessa de sustentabilidade ecológica e fluidez do tráfego mascara a desarticulação de territórios consolidados, onde o direito de permanência de populações historicamente vulnerabilizadas é sistematicamente sacrificado em nome de um modelo de cidade que moderniza a circulação sem incluir quem nela habita.

Não se pode negar a urgência de intervenções urbanas estruturantes. A denúncia que deve ser feita diz respeito ao caráter de classe dessas transformações: o capital imobiliário capta a valorização gerada por investimentos do Estado, enquanto as comunidades vulneráveis são obrigadas a sofrer os danos do desterro sozinhas. A remoção jamais é mera questão burocrática ou jurídica abstrata, pois é um mecanismo ativo de segregação socioespacial.

Habitar é criar raízes: a moradia além do objeto físico

A política habitacional brasileira limitou-se, por muito tempo, a uma lógica puramente numérica de entrega de chaves. Essa visão mercadológica atende às metas da construção civil, mas ignora o que significa habitar de fato. O ato de habitar ultrapassa os limites físicos de quatro paredes: ele se realiza no pertencimento a um território vivo, integrado à malha urbana e sustentado por laços comunitários e redes de suporte mútuo.

Habitar, portanto, é conhecer as esquinas, ter acesso fácil ao transporte, contar com a creche comunitária, confiar a chave da casa ao vizinho em momentos de urgência, comprar no pequeno comércio local e construir memórias coletivas de resistência. O território é a matéria viva do habitar. Ao remover uma comunidade trabalhadora, o poder público rompe trajetórias consolidadas de décadas. A distância da nova moradia em relação ao trabalho converte-se em horas diárias de deslocamento precário, e o fechamento dos pequenos pontos comerciais elimina as fontes de renda informal. Essa ruptura recai com violência desproporcional sobre os grupos mais vulneráveis: segundo a pesquisa de Déficit Habitacional da Fundação João Pinheiro (2022), mais de 60% dos domicílios com inadequação no Brasil são chefiados por mulheres, e mais de 53% têm como responsável pessoas que se declaram não brancas. A perda da rede de apoio comunitário atinge no coração a sobrevivência dessas famílias. Diante de cada projeto habitacional periférico, impõe-se a pergunta: o que restou da vida dessas pessoas além do teto?

Aprofundamento da segregação e racismo territorial

O padrão habitacional predominante tende a gerar casas à custa de distanciamentos e a intensificar a segregação. A unidade de baixa renda é produzida em periferias distantes de equipamentos públicos para evitar conflitos com a especulação sobre os terrenos centrais e valorizados. O Estado diminui indicadores de precarização habitacional em suas planilhas, enquanto encarece o custo de sobrevivência das famílias, que passam a gastar mais tempo, energia física e dinheiro para se deslocarem pela cidade.

A geografia da precariedade urbana reflete diretamente a divisão racial do país: no Brasil, 72% da população residente em assentamentos precários é preta ou parda, conforme mapeamento do IBGE. O caso de Salvador materializa essa fratura histórica. Na capital baiana, onde os bairros periféricos e a orla ferroviária concentram mais de 80% de moradores autodeclarados negros, cada projeto de expansão viária ou requalificação turística se traduz em ordens de despejo que afetam predominantemente corpos negros e lares chefiados por mulheres. Favelas e palafitas não nasceram do acaso, mas da exclusão sistemática herdada do pós-abolição. Quando o maquinário do Estado avança para desocupar esses territórios, quem é empurrado para a periferia distante tem raça, gênero e classe muito bem definidos.

Pelo direito à permanência e à função social da terra

O direito à cidade deve ser afirmado a partir do direito à permanência territorial. O planejamento urbano popular não tolera a remoção como primeiro recurso técnico da administração pública. Antes de qualquer despejo, o Estado deve realizar a urbanização das favelas, regularização da posse fundiária, saneamento básico e contenção de encostas pela engenharia pública.

A população que ergueu seu bairro pela solidariedade comunitária não é um entrave ao desenvolvimento; ela é o verdadeiro sujeito da produção da cidade. O programa de moradia de interesse social precisa se conectar com a reforma urbana, usando os instrumentos de combate à especulação imobiliária presentes no Estatuto da Cidade.
É insustentável manter imóveis desocupados a serviço da especulação imobiliária em áreas centrais enquanto a classe trabalhadora é empurrada para as bordas metropolitanas.

Em Salvador, o Censo Demográfico do IBGE registrou mais de 100 mil domicílios vagos, um volume que supera com folga o deficit habitacional absoluto do município. Para reverter esse contrassenso, o poder público precisa aplicar com rigor os instrumentos previstos no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001): notificar os proprietários para o Parcelamento, Edificação ou Utilização Compulsórios (PEUC), aplicar o IPTU progressivo no tempo e recorrer à desapropriação com pagamento em títulos da dívida pública para os imóveis que descumprem sua função social, convertendo edifícios centrais abandonados em habitação de interesse social sob controle democrático das comunidades.

A reforma habitacional implica substituir a lógica mercantilista da entrega de chaves pela urbanização de territórios com equipamentos públicos, cultura, praças, escolas e saneamento ecológico. Não admitimos a falsa escolha entre o abandono e a remoção forçada.

Uma cidade verdadeiramente democrática, justa e soberana não se mede pelo ritmo que moderniza suas avenidas para o mercado, mas pela sua capacidade de garantir a permanência digna da classe trabalhadora nos locais onde ela decidiu viver, amar e resistir. Enquanto a política de moradia for usada como disfarce para a remoção dos pobres, continuaremos construindo prédios sobre a destruição de histórias coletivas. E uma metrópole construída através da expulsão popular jamais será moderna, civilizada e justa: será a repetição da barbárie segregadora dentro do território brasileiro.

*André Augusto Araújo Oliveira é assistente social, mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL) e doutorando em Arquitetura e Urbanismo pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP). Atua nas interseções entre desigualdade social, direito à cidade, política de habitação de interesse social e estudos territoriais com enfoque em práticas antirracistas. Dedica-se à análise da construção social da invisibilidade urbana. Integra e coordena o Núcleo de Serviço Social da Maitá Assessoria Técnica em Habitação de Interesse Social (ATHIS); Membro da Rede BrCidades, atuante no Núcleo Salvador; Membro da Rede Negra de Planejamento Urbano e Regional e Integrante do Observatório das Metrópoles Núcleo Salvador.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Jamile Araújo

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