Observatório de Política Externa Brasileira

O OPEB (Observatório de Política Externa Brasileira) é um núcleo de professores e estudantes de Relações Internacionais da UFABC que analisa, de forma crítica, a inserção internacional brasileira contemporânea. Atuando como think tank, o Observatório promove cursos e palestras, publica livros e uma newsletter quinzenal estruturada em grupos temáticos coordenados por especialistas em suas respectivas áreas: Brasil–China (Ana Tereza Marra), América Latina (Alexandre Lucchesi), Desigualdades e Diversidades (Bruna Muriel), Oriente Médio (Bruno Mendelski e Mohammed Nadir), Multilateralismo Econômico (Diego Azzi, Lucas Tasquetto, Marcelo Monteiro e Vivian Rocha), Grande Estratégia, Política de Defesa e Segurança Internacional (Elias David Morales Martinez e Flávio Rocha de Oliveira), Relações com a África (Flávio Thales), Geopolítica e Economia Política Internacional da Energia (Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser), Participação Social na Política Externa (Gilberto M. A. Rodrigues), Imprensa e Política Externa (Ismara Izepe e Ivan Fernandes), Direitos Humanos (Jana Silverman), Brasil–EUA (Nathalia Henrich), Meio Ambiente, Clima e Agricultura (Olympio Barbanti Jr.) e Migrações Internacionais (Roberta Peres).

Candidatura do Forró a Patrimônio Imaterial da Humanidade abre caminho para políticas públicas no Brasil e exterior 

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O Caminhão do Forró transforma ruas e praças do Gama em palco itinerante, levando música nordestina e tradição popular ao público.
O Caminhão do Forró transforma ruas e praças do Gama em palco itinerante | Crédito: Divulgação

Ou como diante do desprezo aos idosos e da negação da morte, nestas “festas” nos deparamos com a valorização dos mestres e a rememoração dos ancestrais.

Nesta terça-feira, dia 31 de março, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encaminhará à Unesco o pedido de reconhecimento do Forró como Patrimônio Imaterial da Humanidade. O possível reconhecimento trará impactos materiais para aqueles que vivem dele, como o maior acesso às políticas culturais nacionais e internacionais e a ampliação das possibilidades de trabalho, dentro e fora do Brasil. E mais: se entendermos as expressões artísticas populares tradicionais e periféricas brasileiras como importantes tecnologias de descolonização da subjetividade, seu reconhecimento tanto como patrimônio do Brasil, como da Humanidade, pode ser visto como parte de um uso contra-hegemônico das ferramentas políticas hegemônicas.

O pedido de reconhecimento das Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Imaterial da Humanidade foi entregue ao Iphan no dia 17 de março, no Theatro Santa Roza, em João Pessoa (PB). O ato foi um marco importante de um processo de mobilização social mais longo e amplo, protagonizado pela Comunidade Detentora, composta por movimentos sociais e outras organizações representativas da sociedade civil, gestores/produtores culturais, mestres, artistas, pesquisadores e poder público, entre outros.

Foi precedido por articulações nacionais e internacionais diversas, que incluíram encontros na Unesco e eventos na Europa, como o 1º Fórum Internacional do Forró de Raiz, em 2024, no Porto (Portugal), e o 1º Festival Internacional do Forró de Raiz, em 2025, em Lille (França). Foi nesse último evento que a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, e o governador de Sergipe, Fabio Mitidieri assinaram, em nome dos governadores dos estados nordestinos, um Protocolo de Intenções cujo horizonte era, exatamente, o evento desta semana.

Para Joana Alves, presidente da Associação Cultural Balaio do Nordeste e coordenadora nacional do Fórum Nacional do Forró de Raiz, que reúne representantes da Comunidade Detentora das cinco regiões do país, o pedido de reconhecimento à Unesco não é ponto de chegada, mas de partida, na longa caminhada “de um povo que dança, canta e vive o Forró, não como ritmo passageiro, mas como um território, identidade e resistência e pertencimento”.

Cabe destacar que o Fórum do Forró de Raiz, em suas várias instâncias estaduais, protagonizou a batalha pelo reconhecimento do Forró como Patrimônio Imaterial Cultural do Brasil, oficializado pelo Iphan em dezembro de 2021. A partir de então, a Comunidade Detentora apresentou um plano para a implementação da salvaguarda do patrimônio nos âmbitos local, estadual, nacional e internacional, incluindo o pedido de candidatura à Unesco.

O conceito de salvaguarda refere-se ao conjunto de medidas que visam garantir a viabilidade do patrimônio, tais como a identificação, a documentação, a investigação, a preservação, a proteção, a promoção da sustentabilidade, a valorização, a transmissão e a revitalização dos patrimônios em seus diversos aspectos (Uneso, 2005). Além de uma honraria, portanto, o reconhecimento internacional do Forró traz desdobramentos concretos para aqueles que vivem dele. É o caso, por exemplo, da presença mais fortalecida em editais de captação de recursos, do maior acesso às políticas culturais nacionais e internacionais e da ampliação de suas possibilidades laborais, dentro e fora do Brasil. 

As Matrizes Tradicionais do Forró envolvem práticas comportamentais relacionadas às formas particulares de um grupo social se comunicar, vestir, alimentar, festejar, tocar, dançar, resumindo saberes e fazeres de um povo. Além da música e da dança, suas facetas mais conhecidas, trata-se de um complexo cultural que envolve outras esferas sociais, culturais, políticas, econômicas e epistemológicas, a saber: gastronomia, artesanato, moda e luteria; literatura clássica e de cordel; questões de diversidade, pertencimento e identidade; formas de sociabilidade, espiritualidade, e maneiras de lidar com a natureza; turismo comunitário; economia criativa, solidária, circular, popular e colaborativa; entre outras. 

Vivenciado ao menos desde o século 19 em diversas regiões do Nordeste brasileiro, o Forró ganhou projeção nacional em 1949, na voz e na sanfona de Luiz Gonzaga, o rei do baião. Entre 1960 e 1970, esta expressão artístico-cultural foi se disseminando pelo país, no contexto de desenvolvimento desigual do território nacional e de intenso processo migratório interno, do Nordeste para outras regiões. 

Na tentativa de escapar da situação de desemprego, miséria, fome e seca, os nordestinos migraram, majoritariamente, para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.  No âmbito de seus processos de industrialização e/ou urbanização, estas capitais encarnavam a promessa de trabalho abundante e melhores condições de vida.

Nunca é demais relembrar o fato de termos um presidente que, em 1952, aos sete anos, subiu no pau de arara acompanhado da mãe, Dona Lindu, e de oito irmãos para, após 13 dias de viagem e cerca de 2.600 km percorridos, chegarem ao Guarujá.  Não à toa, foi no caldo do programa político-econômico de diminuição da desigualdade territorial brasileira, dos governos Lula 1 e 2, que o Consórcio do Nordeste foi gestado, como estratégia de fortalecimento econômico e político da região e sua população. Ambos sistematicamente subalternizados no processo de consolidação do Estado-nação brasileiro, após a independência. Tendo o ex-governador da Bahia Rui Costa (PT) como um dos seus principais articuladores, o Consórcio foi oficializado em 2019, em um contexto de crítica — quando não oposição sistemática — da maior parte dos governadores da região, ao governo do então presidente, Jair Bolsonaro (PL).

A tragicidade da experiência vivenciada por Lula e outros milhares de migrantes nordestinos está plasmada de maneira sensível e bela no poema Triste Partida, escrito pelo “poeta da roça” Patativa do Assaré e gravado por Gonzagão em 1964: 

“Setembro passou,

Outubro e novembro,

Já tamo em dezembro,

Meu Deus, que é de nós

Assim fala o pobre,

Do seco nordeste,

Com medo da peste,

Da fome feroz […]

Sem chuva na terra,

Descamba janeiro,

Depois fevereiro,

E o mesmo verão

Entonce o nortista,

Pensando consigo,

Diz “isso é castigo”,

Não chove mais não

Apela pra março,

Que é o mês preferido,

Do santo querido,

Senhor São José

Mas nada de chuva,

Tá tudo sem jeito,

Lhe foge do peito,

O resto da fé

Agora pensando,

Ele segue outra trilha,

Chamando a família,

Começa a dizer,

Eu vendo meu burro,

Meu jegue e o cavalo,

Nós vamo’ a São Paulo,

Viver ou morrer

Nós vamo’ a São Paulo,

Que a coisa ‘tá feia,

Por terras alheias,

Nós vamo’ vagar

Se o nosso destino,

Não for tão mesquinho,

Daí pro mesmo cantinho,

Nós torna a voltar […]”

 
Claro que o sertanejo narrador nem retorna ao sertão, nem encontra a abundância ansiada na metrópole: 

“Do mundo afastado, 

Ali vive preso, 

Sofrendo desprezo,

Devendo ao patrão

O tempo rolando, 

Vai dia e vem dia,

E aquela famía, 

Não volta mais não […],

Faz pena o nortista, 

Tão forte, tão bravo, 

Viver como escravo, 

No norte e no sul.”

Destacamos neste momento uma faceta mais sutil deste processo de salvaguarda das expressões artísticas e culturais populares e tradicionais brasileiras. Embora a chancela de Estados e Organizações Internacionais traga o risco da pasteurização destas expressões e da cooptação dos seus fazedores, ela também pode revelar um projeto de resistência contra-hegemônica, em que a sociedade civil usa as ferramentas hegemônicas para desafiar a globalização neoliberal rumo a uma outra globalização, emancipatória. 

Entendemos que, em uma sociedade orientada pela matriz civilizatória da modernidade capitalista e colonial, a vivência destas expressões artísticas e culturais permite ao sujeito o contato com lógicas diferentes ou mesmo contrárias àquelas dominantes. Autores como Renato Ortiz e Roberto DaMatta demonstram o potencial transformador daquilo que denominamos “festa” popular que, embora cada vez mais atravessada pelo modo de vida urbano, moderno, capitalista e ocidental, evidencia outros elementos simbólicos, materiais e práticas sociais. 

Como exemplo, podemos pensar em como os princípios da solidariedade, da reciprocidade e do comunitarismo, presentes nestas expressões, são contrapostos àqueles do lucro, da competição e do individualismo.  Ou como diante do desprezo aos idosos e da negação da morte, nestas “festas” nos deparamos com a valorização dos mestres e a rememoração dos ancestrais. Ainda, o contato com um ritmo de vida orientado por outras temporalidades, cíclicas, pode alertar o sujeito sobre a aceleração exacerbada da temporalidade linear e evolucionista do paradigma do progresso. Por fim, estas manifestações estão, majoritariamente, ancoradas em interpretações holísticas sobre a natureza, tão diferentes daquelas que remetem às ideias de matéria-prima e commodities. 

Além de respaldar-se na esfera macropolítica das instituições e formas de produção, o sistema dominante se sustenta na micropolítica, onde uma violência mais invisível é exercida, cotidianamente, nos corpos e mentes dos indivíduos, com destaque para os subalternizados.

Como afirma Raquel Rolnik, a inscrição deste sistema em nossas subjetividades lhe dá consistência e permite a sua sustentação e reprodução. É nesta mesma toada que, em ensaio sobre a capoeira angola, o pesquisador colombiano Juan Camilo Cajigas Rotundo (2007) fala das tecnologias de descolonização da subjetividade, ou autodescolonização. 

Em sintonia com o autor, entendemos que as expressões artísticas e culturais populares e tradicionais brasileiras são representativas destas tecnologias  que, segundo ele, contribuem para um  “desaprender crítico” e uma dinâmica de desmercantilização do sujeito, de sua vida e de suas relações. Quanto mais fôlego elas tiverem, portanto, mais ampla e maior será a capacidade de resistência (nas esferas da subjetividade, do local, do regional, do nacional, do internacional e do global).  Afinal, como diz Maldonado Torres, “la descolonización [política e econômica] no se puede llevar a cabo sin un cambio en el sujeto”. 

Viva o Forró! Viva a Folia de Reis (SP, MG, RJ), o Bumba-meu-boi (MA), a Catira (PR), a Umbanda, o Frevo (PE), a Congada (SP, MG), a Cavalhada (GO), o Tambor de Crioula (MA), as celebrações da batata (Panti), do milho (Pônhê) e o canto (Increr) dos Krahô e tantas outras produzidas por outros grupos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, periféricos, caiçaras e de terreiro! Que venha este reconhecimento, pela Unesco, do Forró como Patrimônio Imaterial da Humanidade! 

*Bruna Muriel F. Huertas é professora da UFABC, coordenadora do GT Poder, Cultura e Subjetividades do OPEB e coordenadora do projeto de extensão e cultura Salvaguarda e Internacionalização do Patrimônio Imaterial Cultural do Brasil -SIPIC

**Isabel Santos é Coordenadora do Fórum Forró de Raiz de São Paulo e colaboradora externa/orientadora no projeto SIPIC

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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