Nesta terça-feira, dia 31 de março, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encaminhará à Unesco o pedido de reconhecimento do Forró como Patrimônio Imaterial da Humanidade. O possível reconhecimento trará impactos materiais para aqueles que vivem dele, como o maior acesso às políticas culturais nacionais e internacionais e a ampliação das possibilidades de trabalho, dentro e fora do Brasil. E mais: se entendermos as expressões artísticas populares tradicionais e periféricas brasileiras como importantes tecnologias de descolonização da subjetividade, seu reconhecimento tanto como patrimônio do Brasil, como da Humanidade, pode ser visto como parte de um uso contra-hegemônico das ferramentas políticas hegemônicas.
O pedido de reconhecimento das Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Imaterial da Humanidade foi entregue ao Iphan no dia 17 de março, no Theatro Santa Roza, em João Pessoa (PB). O ato foi um marco importante de um processo de mobilização social mais longo e amplo, protagonizado pela Comunidade Detentora, composta por movimentos sociais e outras organizações representativas da sociedade civil, gestores/produtores culturais, mestres, artistas, pesquisadores e poder público, entre outros.
Foi precedido por articulações nacionais e internacionais diversas, que incluíram encontros na Unesco e eventos na Europa, como o 1º Fórum Internacional do Forró de Raiz, em 2024, no Porto (Portugal), e o 1º Festival Internacional do Forró de Raiz, em 2025, em Lille (França). Foi nesse último evento que a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, e o governador de Sergipe, Fabio Mitidieri assinaram, em nome dos governadores dos estados nordestinos, um Protocolo de Intenções cujo horizonte era, exatamente, o evento desta semana.
Para Joana Alves, presidente da Associação Cultural Balaio do Nordeste e coordenadora nacional do Fórum Nacional do Forró de Raiz, que reúne representantes da Comunidade Detentora das cinco regiões do país, o pedido de reconhecimento à Unesco não é ponto de chegada, mas de partida, na longa caminhada “de um povo que dança, canta e vive o Forró, não como ritmo passageiro, mas como um território, identidade e resistência e pertencimento”.
Cabe destacar que o Fórum do Forró de Raiz, em suas várias instâncias estaduais, protagonizou a batalha pelo reconhecimento do Forró como Patrimônio Imaterial Cultural do Brasil, oficializado pelo Iphan em dezembro de 2021. A partir de então, a Comunidade Detentora apresentou um plano para a implementação da salvaguarda do patrimônio nos âmbitos local, estadual, nacional e internacional, incluindo o pedido de candidatura à Unesco.
O conceito de salvaguarda refere-se ao conjunto de medidas que visam garantir a viabilidade do patrimônio, tais como a identificação, a documentação, a investigação, a preservação, a proteção, a promoção da sustentabilidade, a valorização, a transmissão e a revitalização dos patrimônios em seus diversos aspectos (Uneso, 2005). Além de uma honraria, portanto, o reconhecimento internacional do Forró traz desdobramentos concretos para aqueles que vivem dele. É o caso, por exemplo, da presença mais fortalecida em editais de captação de recursos, do maior acesso às políticas culturais nacionais e internacionais e da ampliação de suas possibilidades laborais, dentro e fora do Brasil.
As Matrizes Tradicionais do Forró envolvem práticas comportamentais relacionadas às formas particulares de um grupo social se comunicar, vestir, alimentar, festejar, tocar, dançar, resumindo saberes e fazeres de um povo. Além da música e da dança, suas facetas mais conhecidas, trata-se de um complexo cultural que envolve outras esferas sociais, culturais, políticas, econômicas e epistemológicas, a saber: gastronomia, artesanato, moda e luteria; literatura clássica e de cordel; questões de diversidade, pertencimento e identidade; formas de sociabilidade, espiritualidade, e maneiras de lidar com a natureza; turismo comunitário; economia criativa, solidária, circular, popular e colaborativa; entre outras.
Vivenciado ao menos desde o século 19 em diversas regiões do Nordeste brasileiro, o Forró ganhou projeção nacional em 1949, na voz e na sanfona de Luiz Gonzaga, o rei do baião. Entre 1960 e 1970, esta expressão artístico-cultural foi se disseminando pelo país, no contexto de desenvolvimento desigual do território nacional e de intenso processo migratório interno, do Nordeste para outras regiões.
Na tentativa de escapar da situação de desemprego, miséria, fome e seca, os nordestinos migraram, majoritariamente, para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. No âmbito de seus processos de industrialização e/ou urbanização, estas capitais encarnavam a promessa de trabalho abundante e melhores condições de vida.
Nunca é demais relembrar o fato de termos um presidente que, em 1952, aos sete anos, subiu no pau de arara acompanhado da mãe, Dona Lindu, e de oito irmãos para, após 13 dias de viagem e cerca de 2.600 km percorridos, chegarem ao Guarujá. Não à toa, foi no caldo do programa político-econômico de diminuição da desigualdade territorial brasileira, dos governos Lula 1 e 2, que o Consórcio do Nordeste foi gestado, como estratégia de fortalecimento econômico e político da região e sua população. Ambos sistematicamente subalternizados no processo de consolidação do Estado-nação brasileiro, após a independência. Tendo o ex-governador da Bahia Rui Costa (PT) como um dos seus principais articuladores, o Consórcio foi oficializado em 2019, em um contexto de crítica — quando não oposição sistemática — da maior parte dos governadores da região, ao governo do então presidente, Jair Bolsonaro (PL).
A tragicidade da experiência vivenciada por Lula e outros milhares de migrantes nordestinos está plasmada de maneira sensível e bela no poema Triste Partida, escrito pelo “poeta da roça” Patativa do Assaré e gravado por Gonzagão em 1964:
“Setembro passou,
Outubro e novembro,
Já tamo em dezembro,
Meu Deus, que é de nós
Assim fala o pobre,
Do seco nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz […]
Sem chuva na terra,
Descamba janeiro,
Depois fevereiro,
E o mesmo verão
Entonce o nortista,
Pensando consigo,
Diz “isso é castigo”,
Não chove mais não
Apela pra março,
Que é o mês preferido,
Do santo querido,
Senhor São José
Mas nada de chuva,
Tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito,
O resto da fé
Agora pensando,
Ele segue outra trilha,
Chamando a família,
Começa a dizer,
Eu vendo meu burro,
Meu jegue e o cavalo,
Nós vamo’ a São Paulo,
Viver ou morrer
Nós vamo’ a São Paulo,
Que a coisa ‘tá feia,
Por terras alheias,
Nós vamo’ vagar
Se o nosso destino,
Não for tão mesquinho,
Daí pro mesmo cantinho,
Nós torna a voltar […]”
Claro que o sertanejo narrador nem retorna ao sertão, nem encontra a abundância ansiada na metrópole:
“Do mundo afastado,
Ali vive preso,
Sofrendo desprezo,
Devendo ao patrão
O tempo rolando,
Vai dia e vem dia,
E aquela famía,
Não volta mais não […],
Faz pena o nortista,
Tão forte, tão bravo,
Viver como escravo,
No norte e no sul.”
Destacamos neste momento uma faceta mais sutil deste processo de salvaguarda das expressões artísticas e culturais populares e tradicionais brasileiras. Embora a chancela de Estados e Organizações Internacionais traga o risco da pasteurização destas expressões e da cooptação dos seus fazedores, ela também pode revelar um projeto de resistência contra-hegemônica, em que a sociedade civil usa as ferramentas hegemônicas para desafiar a globalização neoliberal rumo a uma outra globalização, emancipatória.
Entendemos que, em uma sociedade orientada pela matriz civilizatória da modernidade capitalista e colonial, a vivência destas expressões artísticas e culturais permite ao sujeito o contato com lógicas diferentes ou mesmo contrárias àquelas dominantes. Autores como Renato Ortiz e Roberto DaMatta demonstram o potencial transformador daquilo que denominamos “festa” popular que, embora cada vez mais atravessada pelo modo de vida urbano, moderno, capitalista e ocidental, evidencia outros elementos simbólicos, materiais e práticas sociais.
Como exemplo, podemos pensar em como os princípios da solidariedade, da reciprocidade e do comunitarismo, presentes nestas expressões, são contrapostos àqueles do lucro, da competição e do individualismo. Ou como diante do desprezo aos idosos e da negação da morte, nestas “festas” nos deparamos com a valorização dos mestres e a rememoração dos ancestrais. Ainda, o contato com um ritmo de vida orientado por outras temporalidades, cíclicas, pode alertar o sujeito sobre a aceleração exacerbada da temporalidade linear e evolucionista do paradigma do progresso. Por fim, estas manifestações estão, majoritariamente, ancoradas em interpretações holísticas sobre a natureza, tão diferentes daquelas que remetem às ideias de matéria-prima e commodities.
Além de respaldar-se na esfera macropolítica das instituições e formas de produção, o sistema dominante se sustenta na micropolítica, onde uma violência mais invisível é exercida, cotidianamente, nos corpos e mentes dos indivíduos, com destaque para os subalternizados.
Como afirma Raquel Rolnik, a inscrição deste sistema em nossas subjetividades lhe dá consistência e permite a sua sustentação e reprodução. É nesta mesma toada que, em ensaio sobre a capoeira angola, o pesquisador colombiano Juan Camilo Cajigas Rotundo (2007) fala das tecnologias de descolonização da subjetividade, ou autodescolonização.
Em sintonia com o autor, entendemos que as expressões artísticas e culturais populares e tradicionais brasileiras são representativas destas tecnologias que, segundo ele, contribuem para um “desaprender crítico” e uma dinâmica de desmercantilização do sujeito, de sua vida e de suas relações. Quanto mais fôlego elas tiverem, portanto, mais ampla e maior será a capacidade de resistência (nas esferas da subjetividade, do local, do regional, do nacional, do internacional e do global). Afinal, como diz Maldonado Torres, “la descolonización [política e econômica] no se puede llevar a cabo sin un cambio en el sujeto”.
Viva o Forró! Viva a Folia de Reis (SP, MG, RJ), o Bumba-meu-boi (MA), a Catira (PR), a Umbanda, o Frevo (PE), a Congada (SP, MG), a Cavalhada (GO), o Tambor de Crioula (MA), as celebrações da batata (Panti), do milho (Pônhê) e o canto (Increr) dos Krahô e tantas outras produzidas por outros grupos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, periféricos, caiçaras e de terreiro! Que venha este reconhecimento, pela Unesco, do Forró como Patrimônio Imaterial da Humanidade!
*Bruna Muriel F. Huertas é professora da UFABC, coordenadora do GT Poder, Cultura e Subjetividades do OPEB e coordenadora do projeto de extensão e cultura Salvaguarda e Internacionalização do Patrimônio Imaterial Cultural do Brasil -SIPIC
**Isabel Santos é Coordenadora do Fórum Forró de Raiz de São Paulo e colaboradora externa/orientadora no projeto SIPIC
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

