Mesmo que distantes geograficamente, o continente africano vem sentindo os efeitos concretos do conflito entre Irã e Israel. Em fevereiro de 2026, os Estados Unidos, junto a Israel, iniciaram ofensivas em larga escala contra o território iraniano. Os ataques aéreos coordenados visavam atingir pontos estratégicos, como a infraestrutura militar de mísseis iranianos, instalações nucleares e de liderança iranianas. Este conflito demonstra ser uma escalada de tensões derivadas dos impasses do programa nuclear iraniano, iniciado com a Guerra dos Doze Dias, em 2025. Diante de um sistema internacional interdependente, os efeitos do conflito armado podem ser sentidos em todo o globo, em especial no continente africano, com sua relação ao Irã, exigindo uma resposta que avalie os custos e riscos deste choque geopolítico.
O governo iraniano retalhou os ataques, fechando efetivamente o Estreito de Ormuz, uma importante rota comercial de navegação. Localizada principalmente em águas do território de Omã e parcialmente em águas territoriais iranianas, está sob a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). A marinha iraniana tem fortes recursos militares e capacidade naval, o que lhe permitiu maior vantagem de controle no estreito.
Essa é a rota de mais de 20% das exportações globais de petróleo e gás natural liquefeito do mundo. Os únicos navios de carga que vêm atravessando o estreito são de origem iraniana, enquanto as exportações de petróleo de países como Iraque, Kuwait, Catar e parte do mercado dos Emirados Árabes Unidos vêm sendo bloqueadas. De tal forma que o estrangulamento está trazendo impactos profundos em toda a economia global. O impacto do conflito nunca se resume apenas às nações envolvidas; ele se propaga pelo mundo e seus efeitos passam a ser sentidos, de maneira quase que imediata, na escassez de combustível, na elevada subida dos preços das commodities de petróleo, gás natural, fertilizantes, metais essenciais e outros insumos fundamentais para a cadeia de suprimento mundial que dependiam do acesso ao Golfo Pérsico. Como também passam a ser sentidos em sua dimensão política.
Nesse sentido, a posição do continente africano em geral para o conflito é traduzida pela União Africana com uma postura de neutralidade, evitando alinhamentos automáticos devido à sua dependência econômica, considerando que algumas das nações possuem relações comerciais e diplomáticas com ambas as partes. Trata-se de uma postura estratégica visando aos interesses nacionais de cada país. A presença iraniana em países como Senegal, África do Sul, países da região do Sahel e Sudão, que são estruturados com base em parcerias de infraestrutura, saúde, cooperação técnica e militar, apresenta uma tensão maior, gerando incertezas. A pressão internacional coloca esses vínculos à prova, forçando os governos locais a reavaliarem custos e riscos associados ao conflito. A posição da África do Sul, por exemplo, sinaliza um compromisso com a preservação da estabilidade global, defendendo um cessar-fogo imediato e a mediação multilateral como mecanismos para a resolução da crise. Além dos impactos econômicos decorrentes de sua inserção nos mercados internacionais, a postura sul-africana também é influenciada pelo legado pós-apartheid e pela histórica defesa dos direitos humanos. Nesse sentido, suas críticas dirigem-se principalmente às ações israelenses, posicionamento que levou o país a ingressar com uma ação na Corte Internacional de Justiça (CIJ), alegando violações da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio na Faixa de Gaza.
Enquanto, no caso do Sudão, a postura é neutra. Sua aproximação com o Irã ocorre enquanto o país enfrenta uma guerra civil entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Suporte Rápido (FSR). Por meio da cooperação militar, o Irã tem fornecido armamentos à SAF, reforçando sua influência na região e sinalizando oposição às investidas dos Estados Unidos e da França. Contudo, em decorrência do atual conflito envolvendo o Irã, há a possibilidade de que esse apoio militar seja reduzido, afetando a dinâmica de forças no cenário sudanês.
Diante desses aspectos, conclui-se que os efeitos do conflito armado entre Israel e Irã, embora geograficamente distantes da África, manifestam-se em diferentes instâncias em razão da interdependência econômica global. O fechamento do Estreito de Ormuz, para além de afetar o fornecimento de recursos energéticos, comprometeu fluxos financeiros mais amplos, exigindo das nações africanas uma postura diplomática estratégica diante dos desafios decorrentes desse cenário.
Desdobramentos da guerra no Sudão (2024–hoje)
A guerra civil sudanesa, dois anos após seu início em abril de 2023, tornou-se mais sofisticada do ponto de vista militar e mais complexa geopoliticamente. O confronto entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (FAR) passou a ser marcado pelo uso crescente de drones, que passaram a definir parte significativa das operações militares e a revelar o alcance das redes de apoio externo aos beligerantes.
A escalada no uso de veículos aéreos não tripulados (VANTs) pelas SAF ganhou atenção internacional em janeiro de 2024, quando imagens de satélite identificaram drones Mohajer-6 na base aérea de Wadi Sayyidna, próxima a Cartum. O equipamento é fabricado pela empresa iraniana Quds Air Industries e já havia sido utilizado pelo Irã em outros conflitos, como na Síria e na guerra da Rússia contra a Ucrânia.
A presença dos drones iranianos foi confirmada por fontes diplomáticas ao longo do primeiro semestre de 2024, com voos da companhia Qeshm Fars Air, vinculada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), transportando drones e componentes entre Teerã e Port Sudão. O impacto tático desses equipamentos foi significativo e permitiu às SAF realizar ataques mais precisos e recuperar áreas anteriormente controladas pelas FAR.
O uso de VANTs, no entanto, não se restringiu às SAF. Em maio de 2025, as FAR realizaram o primeiro ataque com drones contra Port Sudão, sede operacional do governo e principal porto do país. Ondas de drones atingiram a base aérea Osman Digna, depósitos de combustível e o aeroporto internacional da cidade. O ataque provocou apagões e interrompeu temporariamente as operações aéreas.
O episódio evidenciou uma reorganização operacional das FAR que, após perder parte de Cartum, passaram a atacar a retaguarda logística das SAF e a infraestrutura estratégica do governo. O conflito passou, assim, a assumir características de uma guerra de desgaste tecnologicamente mediada, na qual drones substituem parte das linhas de frente convencionais e a infraestrutura civil torna-se alvo militar.
O apoio iraniano às SAF se insere em uma lógica estratégica na qual o Sudão ocupa papel central como corredor de acesso ao Mar Vermelho e ao Chifre da África. Sob Omar al-Bashir, Irã e Sudão mantiveram cooperação militar estreita, e Port Sudão funcionou como ponto de transbordo de armamentos iranianos destinados a grupos como o Hamas. Após o rompimento das relações em 2016, a guerra civil abriu espaço para uma nova aproximação entre Teerã e Cartum.
A importância estratégica do Sudão está relacionada à sua posição no Mar Vermelho e à proximidade do estreito de Bab-el-Mandeb, região que ganhou centralidade após os ataques Houthis às embarcações iniciados em 2023. Nesse contexto, o Sudão tornou-se arena de um conflito indireto mais amplo, no qual Irã e Emirados Árabes Unidos apoiam lados opostos da guerra civil, enquanto Rússia, China e Turquia também disputam influência no país.
Perspectivas futuras: limites da estratégia iraniana no continente e cenários possíveis
A priori, é evidente que o Irã já possui limites internos que influenciam sua atuação no cenário internacional. Entre eles, destacam-se a instabilidade econômica, a insatisfação social e as divisões dentro da elite política. Além disso, é importante considerar que a principal figura política do regime iraniano também exerce uma liderança religiosa, característica que influencia diretamente as decisões do país.
Como publicado em um artigo do The Jerusalem Post, após a morte de Mahsa Amini, em 2022, surgiu o movimento Woman, Life, Freedom (Mulher, Vida, Liberdade), que reuniu milhares de iranianos em protestos contra o regime. Durante a repressão às manifestações, mais de 700 pessoas foram mortas, incluindo 68 crianças, enquanto milhares de outras foram presas, ficaram cegas ou sofreram tortura. Tal movimento explicita a falta de convergência interna da população com o regime imposto pelo governo.
Ademais, ao analisar a possível atuação iraniana no continente africano, fica evidente que ela representa uma oportunidade para Teerã diversificar suas relações internacionais, mas ainda está longe de se tornar um espaço de influência comparável ao que o Irã exerce no Oriente Médio.
Além disso, também vale destacar que os limites externos na África também são relevantes para essa análise. Nesse sentido, de acordo com The Conversation, é notória a vulnerabilidade da estratégia iraniana no continente, uma vez que, após 2015, a pressão financeira e diplomática realizada pela Arábia Saudita fez com que Sudão, Djibuti e Eritreia rompessem relações com Teerã, o que evidencia que a presença iraniana na África depende da ausência de rivais mais capacitados.
Vale mencionar, também de acordo com The Conversation, o problema da dependência dos métodos indiretos, já que o Irã não tem tropas, bases militares consolidadas e nem investimentos econômicos robustos na África, e, assim, utiliza uma rede de influência indireta baseada em intermediários, como os Houthis no Iêmen, que pressionam o Mar Vermelho indiretamente, e instrumentos de baixo custo. Embora isso permita que o Irã atue além das suas capacidades reais, essa escolha acaba se tornando um ponto de vulnerabilidade.
Sendo assim, diante dos limites estruturais analisados, é possível delinear alguns cenários para a presença iraniana no continente africano nos próximos anos. De acordo com o African Business (2026), o impacto econômico do conflito sobre os próprios países africanos tende a reformular suas prioridades diplomáticas. Com mais de 15 nações obtendo mais da metade de seu petróleo do Oriente Médio e 29 moedas desvalorizadas desde o início da guerra, os governos do continente tendem a priorizar parcerias que ofereçam alívio econômico concreto, o que desfavorece os vínculos com um Irã que enfrenta seu próprio colapso econômico e crescente isolamento internacional.
Ainda segundo o African Business (2026), instituições pan-africanas têm defendido que a África precisa reduzir sua dependência de atores externos, investindo em cadeias regionais e autossuficiência energética. Na medida em que esse projeto avança, o modelo iraniano de influência, que sempre se apoiou nas vulnerabilidades e dependências africanas, tende a perder sustentação, sugerindo que o afastamento iraniano do continente pode ser menos passageiro do que parece.
*Nathalia de Andrade Costa, Isabella Werneck Zanon, Luiza Molina Alvarenga, Isabela Oliveira Silva são integrantes do Opeb (Observatório de Política Externa e Inserção Internacional da UFABC)
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

