Observatório das Desigualdades

Parceria entre a Fundação João Pinheiro (FJP) e o Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), o Observatório das Desigualdades, criado em agosto de 2018, é um projeto de extensão do curso de Administração Pública da FJP que busca informar sobre as diferentes faces da desigualdade social, os mecanismos que as produzem e reproduzem e as formas de enfrentá-la, difundindo e tornando mais acessível o conhecimento sobre o tema.

Resistindo à lei dos super-ricos: sua influência política e a corrosão da democracia 

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Relatório recente pela OXFAM demonstra que os profetas da austeridade e do corte de impostos aos ricos pregaram em proveito próprio.
Relatório recente pela OXFAM demonstra que os profetas da austeridade e do corte de impostos aos ricos pregaram em proveito próprio. | Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Concentração de riqueza se traduz em concentração de poder

Por Bruno Lazzarotti, Matheus Arcelo e Miguel Coelho 

A tributação de grandes fortunas e dos super-ricos tem sido uma pauta recorrente no debate nacional, principalmente pelo enfrentamento à concentração de renda proposto pelo atual governo, seja como instrumento para financiar as políticas sociais, seja como forma de produzir justiça tributária. 

Diante desse debate, diversos são os argumentos dos defensores de bilionários para tentar frear as investidas contra a má distribuição: a relativização da desigualdade como problema importante, que coloca a redução da pobreza como único objetivo social legítimo e até a estigmatização de medidas redistributivas como se representassem uma “política da inveja”. 

No entanto, essa visão de mundo que, opiniões à parte, está claramente deturpada com a realidade, ignora outro efeito nefasto da concentração excessiva da riqueza: o acúmulo de poder para influenciar a política, comprometendo a igualdade política, valor central da democracia.

O pobre cada vez mais pobre e o rico cada vez mais rico

A partir do final do século XX, o mundo passou por uma inflexão extremamente relevante nesse debate: os objetivos e limites sociais da economia foram deixados em segundo plano, pela promessa de melhores resultados econômicos que, no evangelho dos ricos, levaria à terra prometida da prosperidade para todos. No entanto, o que foi apresentado em relatório recente pela OXFAM demonstra que os profetas da austeridade e do corte de impostos aos ricos pregaram em proveito próprio:

Gráfico 1: Fortuna dos bilionários em bilhões de dólares (preços constantes de setembro de 2025).

Fonte: dados: FORBES. gráfico: OXFAM (2026)

Como podemos ver no gráfico acima, esse período ficou marcado por um avanço assustador na concentração de renda, que, se comparado à população em insegurança alimentar nos últimos anos oferece um panorama ainda mais preocupante (vale destacar que nesse período houve a ascensão de novos líderes que aceleraram esse processo, como Donald Trump e Javier Milei): 

Gráfico 2: Fortuna dos bilionários e população em situação de insegurança alimentar.

Fonte: dados: FORBES. gráfico: OXFAM (2026)

A observação conjunta dos dois fatores coloca por terra um argumento clássico dos defensores de bilionários: o foco exclusivo na redução da pobreza. A concentração de renda e a insegurança alimentar se relacionam fortemente: um dos resultados desse processo de acumulação sem freios é a inviabilização da vida cotidiana para as pessoas comuns; por isso, a quantidade de pessoas em insegurança alimentar ultrapassou os 2,4 bilhões. 

Gráfico 3: Renda concentrada pelo 1% mais rico no Brasil

Fonte: Observatório de política fiscal (IBRE – FGV)

Quando se trata de Brasil, o mesmo movimento também se faz presente. Após anos de estabilidade, a concentração de renda no topo da pirâmide apresentou um forte aumento durante a pandemia, mesmo sendo um momento de retração da economia. 

O impacto desse processo na democracia

Para além da flagrante injustiça que esta concentração representa, é preciso ter em conta o quanto a concentração de riqueza se traduz em concentração de poder, minando a própria soberania popular, princípio básico das democracias contemporâneas. 

Nos tempos atuais, diante da aceleração demonstrada, os super ricos atingiram um novo patamar de patrimônio; um exemplo disso é o empresário Elon Musk, que se tornou a primeira pessoa a acumular uma fortuna superior a 500 bilhões de dólares. Evidentemente, todo esse dinheiro é muito mais que suficiente para garantir uma vida confortável para ele e todos seus familiares, inclusive os que virão até o fim dos tempos. 

Quando a magnitude de uma fortuna ultrapassa os limites da elevação de padrão de vida e até da ostentação, ela passa a ser um enorme risco para a democracia devido à infinidade de possibilidades de articulação de toda essa fortuna.

O próprio Elon Musk oferece exemplos de como grandes fortunas podem ser mobilizadas politicamente, distorcendo o processo de decisão democrática. 

Nos Estados Unidos, sua atuação alcança diretamente o debate público e as decisões políticas, seja por meio do uso estratégico de sua plataforma X (antigo Twitter) para impulsionar narrativas alinhadas a seus interesses, seja pela pressão explícita sobre governos e parlamentares em temas como regulação das big techs, políticas trabalhistas e subsídios estatais. 

Episódios recentes mostram Musk ameaçando retirar investimentos ou transferir operações de estados que adotam legislações contrárias às suas posições, além de defender abertamente candidatos e agendas que favorecem seus interesses. 

Esses movimentos evidenciam como a concentração extrema de riqueza permite que indivíduos não eleitos exerçam influência desproporcional sobre o funcionamento da democracia. 

Muito além dos casos e indivíduos específicos, estudos abrangentes, citados pelo mesmo relatório, mostram que países com  altos níveis de desigualdade apresentaram uma probabilidade sete vezes maior de erosão democrática no século XXI, mesmo quando se considera o PIB e outras variáveis dos países.

Gráfico 4: Correlação entre níveis de desigualdade e risco de enfraquecimento democrático

Fonte: E.G. Rau e S. Stokes (2025)

Diante desse cenário, torna-se impossível tratar o debate sobre grandes fortunas como uma simples divergência de opiniões ou a “política da inveja”. O que está em jogo é a própria organização da sociedade e a sobrevivência da democracia. 

Combater a concentração de renda é um ato de defesa da democracia, da justiça social e da dignidade humana, que não pode seguir refém dos interesses de super ricos que jamais foram eleitos, mas que hoje exercem influência desproporcional. 

A combinação de progressividade tributária e  políticas sociais mais abrangentes e inclusivas é o caminho evidente para interromper o caminho de concentração e buscar uma sociedade mais justa e igualitária e, ao mesmo tempo, defender a democracia.

Bruno Lazzarotti é pesquisador e coordenador do projeto; Matheus Arcelo é pesquisador e coordenador do projeto & Miguel Coelho é estudante e estagiário. 

Leia outros artigos do Observatório das Desigualdades em sua coluna no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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