Observatório das Desigualdades

Parceria entre a Fundação João Pinheiro (FJP) e o Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), o Observatório das Desigualdades, criado em agosto de 2018, é um projeto de extensão do curso de Administração Pública da FJP que busca informar sobre as diferentes faces da desigualdade social, os mecanismos que as produzem e reproduzem e as formas de enfrentá-la, difundindo e tornando mais acessível o conhecimento sobre o tema.

A jornada que não termina: desigualdade de gênero e o tempo invisível do trabalho

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Somadas as atividades remuneradas e não remuneradas, a jornada semanal feminina alcança, em média, mais de 58 horas | Crédito: Agência Nacional

Muitas mulheres acumulam o cuidado em seus próprios lares e de terceiros

Por Bruno Lazzarotti e Marina Diniz Ferreira Pinheiro

O debate sobre a redução da jornada de trabalho está no centro das discussões no Brasil atualmente. As propostas como o fim da escala 6×1 ou a adoção de jornadas semanais mais curtas são instrumentos fundamentais para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, garantir mais e melhores empregos e incentivar o aumento da produtividade. 

No entanto, quando se observa a organização real do tempo de trabalho na sociedade, torna-se evidente que esse debate, fundamental como é, permanece incompleto.

Isso ocorre porque o conceito de jornada de trabalho costuma se restringir ao tempo de trabalho remunerado, ignorando uma dimensão essencial da reprodução social: o trabalho doméstico e de cuidados realizado fora do mercado. 

Quando essas atividades são incorporadas à análise, o cenário se torna mais dramático e as desigualdades sociais, mais evidentes. O que emerge não é apenas uma desigualdade de renda ou de oportunidades profissionais, mas uma profunda desigualdade na distribuição do tempo.

Dados recentes sobre uso do tempo, apresentados pelo MADE/FEAUSP na nota “Escala 7×0: a jornada que não acaba para as mulheres brasileiras”,  mostram que, no Brasil, as mulheres dedicam muito mais horas ao trabalho não remunerado do que os homens. 

Somadas as atividades remuneradas e não remuneradas, a jornada semanal feminina alcança, em média, mais de 58 horas, enquanto a masculina é em torno de 50 horas. Essa diferença revela que, para uma parcela significativa das mulheres, o trabalho se estende ao longo de todos os dias da semana, se tornando na prática uma escala 7×0, sem direito a um descanso regular.

A persistência da divisão sexual do trabalho

Essa realidade não resulta de escolhas individuais isoladas, mas de uma organização social historicamente construída. A divisão sexual do trabalho, aspecto central da dominação patriarcal, continua estruturando a distribuição das atividades entre homens e mulheres.

Enquanto os homens permanecem mais concentrados na esfera produtiva, que gera remuneração e reconhecimento econômico, as mulheres continuam assumindo a maior parte das responsabilidades ligadas à esfera do cuidado, que envolve a atenção de crianças, de idosos, de pessoas com deficiência e a manutenção cotidiana do lar. 

Embora a participação feminina no mercado de trabalho tenha se ampliado muito nas últimas décadas, isso não foi acompanhado por uma redistribuição equivalente das tarefas domésticas. 

A nota do  MADE evidencia que mesmo as mulheres incluídas nas dinâmicas laborais possuem uma escala de atividades não remuneradas muito maior do que a de homens que exercem a mesma jornada de trabalho remunerado. 

Por exemplo, enquanto as mulheres que trabalham remuneradamente 40 horas semanais realizam mais 19,5 horas de atividades não remuneradas, o que equivale a quase três dias extras de trabalho por semana, os homens que trabalham nessa escala realizam menos da metade de horas de atividades não remuneradas, apenas 8,7 horas dessas tarefas. 

O resultado é a consolidação de jornadas duplas ou mesmo triplas, nas quais o trabalho remunerado se soma às responsabilidades domésticas e ao cuidado intensivo de familiares, o que gera uma rotina exaustiva, principalmente para as mulheres. 

Essa sobrecarga revela uma contradição central das economias contemporâneas. O funcionamento do mercado depende de atividades fundamentais para a vida, como alimentar, educar, cuidar e manter os espaços domésticos, mas essas atividades continuam sendo tratadas como invisíveis ou secundárias nas estatísticas econômicas, desvalorizando e apagando a exaustão das mulheres ao conciliarem inúmeras atividades em suas rotinas.

Desigualdades que atravessam gênero, classe e raça

A desigualdade no uso do tempo também se manifesta de forma particularmente intensa quando observada a partir de outros marcadores sociais. No contexto brasileiro, mulheres negras estão desproporcionalmente concentradas em ocupações de cuidado remunerado, como o trabalho doméstico e os serviços de assistência, atividades frequentemente marcadas por baixos salários, alta informalidade e reduzida proteção trabalhista.

Com isso, muitas mulheres acumulam simultaneamente o cuidado em seus próprios lares e o trabalho de cuidado realizado em residências de terceiros. A aparente solução encontrada por famílias de maior renda, a terceirização do trabalho doméstico, frequentemente implica a transferência dessa sobrecarga para outras mulheres em posições sociais mais vulneráveis.

Assim, a desigualdade de gênero no uso do tempo não pode ser compreendida isoladamente. Ela se articula com estruturas históricas de desigualdade racial e social que continuam organizando o mercado de trabalho brasileiro.

Reduzir jornadas e redistribuir o tempo

Com a análise desse cenário desigual, a discussão sobre a redução da jornada de trabalho adquire um significado mais amplo. Diminuir o tempo dedicado ao trabalho remunerado, sem redução de salário, pode representar um passo importante para melhorar o bem-estar da população. É igualmente importante que o tempo liberado não seja absorvido pelo trabalho doméstico não remunerado.

A superação dessa escala 7×0 exige transformações mais profundas na forma como o trabalho de cuidados é organizado na sociedade. Isso envolve a implementação de políticas públicas que ampliem creches, ensino integral, serviços para idosos, redes comunitárias de apoio e diversas outras infraestruturas sociais de cuidados, e além disso uma mudança cultural que promova uma divisão mais equilibrada dessas responsabilidades entre homens e mulheres.

Mais do que uma questão individual, é necessário reconhecer que o tempo dedicado à manutenção da vida é um elemento central da organização econômica e social. Ignorar esse fator significa perpetuar desigualdades que permanecem invisíveis nas estatísticas, mas profundamente presentes na experiência cotidiana de milhões de mulheres.

Bruno Lazzarotti é pesquisador e coordenador do Observatório das Desigualdades e Marina Diniz Ferreira Pinheiro é estudante e bolsista da Fundação João Pinheiro.

Leia outros artigos do Observatório das Desigualdades em sua coluna no Brasil de Fato MG

Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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