Paulo Nogueira Batista Jr.

Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela editora LeYa o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, segunda edição, 2021.

A Era do Obscurantismo

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Gaza após novos ataques de Israel, neste sábado (1º)
Gaza após novos ataques de Israel, em 1º de agosto de 2026 | Crédito: Eyad Baba/AFP

Como ignorar que o colonialismo de assentamento e o genocídio praticado por Israel na Palestina têm diversos precedentes?

Estamos atravessando a mais perigosa situação geopolítica desde a Segunda Guerra Mundial. O brasileiro, que adora se iludir, precisa abrir os olhos urgentemente.

Quais são as características marcantes desta fase, cujo início remonta à primeira ou segunda década do século XXI? Creio que podemos destacar quatro pontos: 

1) A ascensão e consolidação de um mundo multipolar, marcado pelo rápido progresso da China e de outras nações do Leste da Ásia. 

2) O declínio relativo do Ocidente, acelerado por escolhas estratégicas altamente problemáticas dos Estados Unidos (a abertura de uma guerra de três frentes contra a Rússia, a China e o Irã e, desde 2025, uma fragmentação inédita do Ocidente). 

3) A relutância, mais do que isso – a recusa terminante do Ocidente de aceitar seu declínio relativo – a ponto de estar disposto a violar todos os princípios, contratos e regras, além de praticar abertamente toda sorte de violência e pirataria. Estados Unidos e aliados mostram-se prontos, como estamos vendo, a realizar operações militares e até mesmo ir à guerra na tentativa de preservar e talvez reverter seu domínio decadente. 

4) Apesar do declínio, o Ocidente, em especial a superpotência Estados Unidos, não deve ser subestimado, pois pode fazer – e faz – grandes estragos urbi et orbi.

Uma importante faceta do declínio do Império Ocidental é a degradação intelectual e moral das elites ocidentais. Basta lembrar a baixa qualidade dos atuais líderes europeus, com poucas exceções, e dos presidentes dos Estados Unidos. Os estadunidenses realizaram a façanha de eleger George W. Bush não uma, mas duas vezes para a presidência da República. Elegeram depois Donald J. Trump não uma, mas duas vezes. 

O que veio a público sobre o poderoso esquema Jeffrey Epstein, com sua penetração entre lideranças de renome, incluindo políticos, empresários e intelectuais, desvendou uma rede de corrupção, libertinagem e pedofilia, cuja existência e alcance poucos poderiam imaginar. Instalou-se a barbárie nas oligarquias do Ocidente.

A intensificação do racismo no Ocidente e suas implicações geopolíticas

Tudo isso é (ou deveria ser) bastante conhecido em suas linhas gerais. Menos reconhecidas são as conotações raciais presentes nessa tensa situação geopolítica. Nem sempre se leva na devida conta a existência de um racismo disseminado, arraigado, de natureza estrutural, que acrescenta uma conotação especialmente perversa ao quadro geopolítico. 

O mundo pode ser dividido, para certos propósitos, em duas partes: o Ocidente Coletivo e o Sul Global. O Ocidente Coletivo costuma ser definido como os países de alta renda liderados pelos Estados Unidos; inclui Canadá, União Europeia, Reino Unido, Austrália, Israel, Japão, Coreia do Sul e alguns outros países de alta renda. Excluídos os países asiáticos de alta renda (Japão, Coreia do Sul e Cingapura), a população do Ocidente representa algo como 12% da população mundial, com tendência a perder peso. O Sul Global é normalmente entendido como correspondendo ao resto do mundo, isto é, os países emergentes ou reemergentes e em desenvolvimento da Eurásia, Ásia, África e América Latina. O que temos é The West and the Rest, título pertinente de um livro de Niall Ferguson. O Ocidente se vê pressionado pela ascensão do “Resto”, onde vivem nada menos que cerca de 86% da humanidade. 

Um ponto central: aproximadamente 3/4 da população que reside no Ocidente é branca – com as minorias não brancas funcionando principalmente como trabalhadores de baixa qualificação em empregos que, como se sabe, os brancos não estão mais dispostos a ocupar. A população do Sul Global é totalmente diferente em termos de composição racial – os brancos são minoria; a grande maioria é representada por pretos, pardos, amarelos, mestiços etc. Historicamente, os brancos são minoria na África, na Ásia e mesmo na América Latina, onde a colonização europeia teve mais peso.

É do Ocidente branco que provém um racismo estrutural, ancorado na convicção de que a civilização ocidental, mais desenvolvida e sofisticada, é produto de povos superiores. Civilizações muito mais antigas, como a chinesa, a indiana e a iraniana, sorriem ironicamente diante dessa pretensão. Certa vez perguntaram a Mahatma Gandhi que avaliação ele fazia, afinal, da civilização ocidental. E ele respondeu: “Seria uma boa ideia”.

O racismo ocidental é um fenômeno antigo. Na segunda metade do século XX, esse racismo ainda era parcialmente disfarçado por camadas variadas de hipocrisia. Durou pouco. Atualmente, o sentimento de superioridade em relação aos não-brancos tornou-se mais transparente. Podemos até lançar mão da observação cínica que se fazia no Brasil de outros tempos: “No nosso país”, dizia-se, “não há racismo porque os pretos sabem o seu lugar.” Se o racismo ocidental internacional já foi um pouco menos explícito e mais hipócrita, isso pode ser atribuído provavelmente ao fato de que, até pouco tempo atrás, “os povos não-brancos sabiam o seu lugar na ordem mundial controlada pelo Ocidente”.

Agora o quadro é outro. Os povos antes colonizados ou semicolonizados não reconhecem mais a superioridade dos brancos. Não aceitam mais os esquemas coloniais ou neocoloniais de exploração impostos pelos europeus e estadunidenses. Querem ter os seus direitos aceitos, na prática e não apenas em tese. Como declarou Vladimir Putin, “os ocidentais precisam reconhecer que o baile de vampiros aproxima-se do fim.”

Mas o Ocidente recusa-se terminantemente a aceitar que esse baile está acabando. A minoria branca do mundo entrou em estado de negação. Ressente intensamente a progressiva perda da hegemonia mundial e dos privilégios associados a ela. Humano, humano demais, diria Nietzsche. Séculos de dominação mundial não são facilmente esquecidos e abandonados. 

Não há exagero nem caricatura nessa descrição geral. Muitos exemplos poderiam ser oferecidos para fundamentá-la. Um deles é a maneira como o Ocidente vê a crescente participação do Sul Global na exploração dos recursos naturais escassos do planeta. A reação típica, desde o final do século XX, tem sido indignação e denúncias de uso predatório dos “recursos da humanidade”. A Amazônia, que é predominantemente brasileira, tem sido um alvo preferencial. O Brasil é constantemente pressionado a aceitar ingerências de governos estrangeiros ou ONGs na administração e conservação desse componente de um suposto “patrimônio da humanidade”. 

Mal se falava disso quando o Ocidente deu partida ao processo de degradação do planeta com a Revolução Industrial. Hoje é diferente, a destruição do meio ambiente não pode continuar, afirma-se. Cabe conter o progresso do Sul Global, com a sua gigantesca população, em nome da preservação do planeta “em benefício de todos”. Evidentemente, os principais países do Sul Global não compram essa retórica viesada. Mas ela é sintomática do estado de negação a que estão presos a maioria dos ocidentais. 

Resistência crescente à imigração e regressão civilizatória 

Nesse ambiente carregado, entra em funcionamento um outro fenômeno de importância crucial: a migração em larga escala para os Estados Unidos e Europa de pessoas oriundas da América Latina, África e Ásia Ocidental em busca de melhores condições de vida ou fugindo de guerras (muitas delas deflagradas pelo Ocidente). À medida que cresce essa migração, cresce a repulsa a imigrantes no Ocidente, em especial aos muçulmanos. Restrições à imigração têm conquistado amplo apoio entre europeus e estadunidenses. Essas barreiras e as formas não raro desumanas que vêm tomando o controle das fronteiras e o combate a imigrantes residentes, até mesmo legais, contribuem para um processo que pode ser designado, sem exagero, como uma regressão civilizatória nos Estados Unidos e na Europa.

A popularidade da luta contra a imigração, em ambos os lados do Atlântico Norte, reflete o desejo, até certo ponto compreensível, de proteger a cultura ocidental contra a presença crescente de pessoas pertencentes a outras culturas e outras religiões. Essa preocupação com a preservação da cultura não é muito presente, por suposto, nas elites cosmopolitas ocidentais, que pouco se importam com questões culturais e tiram partido da disponibilidade de mão de obra barata que a imigração traz. Mas é um sentimento compartilhado pelas classes médias e populares, principalmente fora dos grandes centros urbanos. 

O fundamental, entretanto, é que, misturado a esse desejo legítimo, aparece cada vez mais o racismo enraizado antes mencionado e a crença na superioridade e supremacia da raça branca. Um indicativo disso é o fato de que migrantes brancos da Ucrânia, por exemplo, enfrentam muito menos obstáculos no restante da Europa do que árabes ou africanos negros. Um imigrante ou refugiado ucraniano é visto basicamente como “um de nós”.

O que temos, na verdade, é uma nova forma de fascismo xenofóbico. No plano político-partidário, cresce uma “nova direita”, designada frequentemente como “populista”, que tem no cerne do seu discurso a rejeição radical dos imigrantes. A nova direita cresce em grande medida por causa da ressonância do discurso anti-imigração nas massas nos Estados Unidos e na Europa e, também, por certa dificuldade dos partidos tradicionais de abraçá-lo sem violentar seus princípios básicos. 

Assim como os judeus na Alemanha nazista e em outros países da Europa, os muçulmanos e outros não-brancos tornaram-se um conveniente bode expiatório para as consequências sociais adversas do declínio do Ocidente e da impossibilidade prática de continuar explorando o resto do mundo para proveito próprio. Migrantes não-brancos são responsabilizados por toda sorte de crimes e violências. São acusados, também, de substituir trabalhadores brancos e gerar desemprego entre eles – quando, na verdade, desempenham quase sempre aqueles empregos de remuneração mais baixa que a população branca rejeita ou que não podem ser facilmente automatizados.

A “nova direita” estadunidense e europeia não é propriamente nova, portanto, mas antes uma regressão a concepções e sentimentos pré-iluministas. Pode ser chamada de fascista ou nazista, pois contém elementos dessa visão de mundo, com os muçulmanos ocupando o lugar antes reservado aos judeus. A regressão civilizatória adquiriu tal dimensão que é apropriado falar de uma “Era do Obscurantismo ou Endarkenment”, ou ainda de uma “Era de Embrutecimento”. Em que outra época, poderíamos ver uma figura absolutamente tosca como Donald Trump no centro do palco mundial? Trump é um caso extremo, mas a verdade é que, para dizer o mínimo, poucos líderes ocidentais estão à altura dos cargos que ocupam. 

Em suma, Europa e Estados Unidos, antes na vanguarda do Iluminismo ou Enlightenment, patrocinam com afinco um movimento em sentido contrário. O século XVIII ficou conhecido como o “Século das Luzes”; o século XXI, a julgar pelas suas décadas iniciais, entrará para a história como o “Século das Sombras”.

O genocídio na Palestina 

Antes de falar do Brasil, um breve parêntese sobre Israel. Trata-se de um caso paradigmático, que constitui o sintoma mais claro do naufrágio da civilização ocidental. A maior crise humanitária do século XXI – o genocídio praticado por judeus israelenses contra os palestinos – é um ingrediente central dessa “Era do Obscurecimento”. O apoio a Israel por parte da Europa e, sobretudo, dos Estados Unidos compromete, de forma talvez irreversível, a adesão do Ocidente aos valores que costumava pregar. 

Israel está longe de ser um caso isolado. Como ignorar que o colonialismo de assentamento e o genocídio praticado por Israel na Palestina têm diversos precedentes? Na verdade, eles fazem parte de uma tradição secular europeia. Situada no seu contexto histórico, a criação do Estado de Israel é uma manifestação dessa tradição. E em Israel, aparecem de forma descarada traços repulsivos da cultura ocidental.

O que está acontecendo na Palestina é o mais recente genocídio colonial praticado por europeus brancos contra não-brancos. Começando no século XVI, europeus e seus descendentes destruíram povos nas Américas, na África, na Ásia e na Oceania para ocupar suas terras com imigrantes vindos das metrópoles. Na própria Europa, houve o Holocausto, genocídio que não teria a proeminência que tem se não tivesse vitimado brancos. Os diversos genocídios praticados por europeus no que hoje chamamos Sul Global atingiam outras raças, chegando inclusive a exterminá-las totalmente ou quase, como na Austrália e nas Américas do Norte e do Sul.

Uma diferença crucial e muito comentada entre o genocídio na Palestina e os anteriores: este é o primeiro com ampla e instantânea cobertura da mídia, com impacto planetário. Os alemães podiam, com alguma credibilidade, afirmar que desconheciam a extensão do que ocorria nos campos de concentração nazistas. Os israelenses não têm condições de alegar o mesmo, e nem tentam. Extremistas sionistas, dentro e fora do governo Netanyahu, chegam a orgulhar-se da matança, justificando-a como combate ao “terrorismo”. E até mesmo o assassinato de milhares de crianças é apresentado como a eliminação de “futuros terroristas”. 

O que aconteceu em Gaza é interpretado, às vezes, como um experimento do Império decadente – um genocídio transmitido globalmente em tempo real como uma advertência a todos. A mensagem é algo como: vejam o que pode acontecer a povos não-brancos que resistirem às pretensões imperiais do Ocidente.

Inevitavelmente, o apoio político, econômico e militar a Israel por parte dos Estados Unidos e da maior parte da Europa cobra um imenso preço político. Ninguém mais acredita na existência de um Ocidente de princípios e valores. Essa imagem, antes tão forte, foi destruída em nome da defesa de Israel. 

Desafios para o Brasil

Para terminar, algumas palavras sobre nosso querido país. Como ficamos nessa “Era do Obscurantismo”, nesse “Século das Sombras”? Como preparar o Brasil para uma nova era, muito diferente daquela a que estávamos acostumados?

Primeiro desafio: o brasileiro deve abandonar, o quanto antes, o seu posicionamento acomodado e a crença de que as divergências internacionais se resolvem apenas com boa-vontade, diplomacia e soft power. É imperativa uma cuidadosa preparação psicológica, econômica e militar para enfrentar as tempestades pela frente. Não é uma escolha ou algo que possa ser postergado. Trata-se da questão mais urgente com que se defronta o país.

No campo psicológico, precisamos superar em definitivo os complexos de inferioridade que rebaixam o país e tanto dificultam o nosso relacionamento internacional. Em outros termos, temos que lançar ao mar todos os resquícios de séculos de colonização cultural. Trata-se, também, de superar nosso tradicional pacifismo. Não para agredir ninguém, mas em reconhecimento de que, para viver em paz, é preciso preparar-se para a guerra. Se vis pacem para bellum, como diziam os romanos.

No plano econômico, teremos que buscar a autossuficiência nas áreas essenciais, evitando sempre que factível a dependência em relação a fornecedores estrangeiros, especialmente aqueles situados em países que aparecem como agressores potenciais. As cadeias de produção estratégicas devem ficar, em sua maior parte, dentro do território nacional ou em países confiáveis. Essa busca gera, evidentemente, perdas de eficiência econômica. Mas acabou o tempo em que se podia confiar, com alguma plausibilidade, na abertura comercial e financeira como alavancas para o desenvolvimento. 

Segundo desafio, esse mais positivo: o Brasil, por suas características, tem condições, talvez como nenhum outro país, de oferecer uma palavra nova ao mundo, uma mensagem de congraçamento e união. Vou mais longe: o nosso destino histórico talvez seja o de iniciar, junto com outras nações, uma espécie de Segunda Renascença, capaz de nos livrar das ameaças e catástrofes da “Era do Obscurantismo” em que ingressamos.

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse papel potencial do Brasil, e não quero me repetir. Remeto o leitor ou leitora a alguns capítulos do meu livro mais recente, os “Estilhaços”. Digo apenas o seguinte: por suas dimensões, por resultar da mistura de povos oriundos de todas as partes do planeta, por sua tradição de abertura ao mundo, inclusive por seu pacifismo, o brasileiro pode ter um papel de salvação mundial. O próprio sentimento de inferioridade e a própria tendência ao pacifismo, devidamente reconfigurados, nos preparam para exercer esse papel.

Delírio? Talvez. E, no entanto, repetindo uma indagação que fiz nos “Estilhaços”, não é pelo delírio que se chega à essência das coisas?

*Paulo Nogueira Batista Jr. é autor, economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou em 2024, pela Editora Contracorrente, o livro Estilhaços.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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