A pré-campanha em Pernambuco foi tomada por um clima de disputa de torcidas que tem puxado para baixo a qualidade do debate. Na verdade, o que menos se vê é debate. Sequer tem havido distinção de posicionamento ideológico entre os dois principais palanques que disputam o governo do estado.
Até aqui, é impossível compreender quais as diferenças fundamentais na forma como cada um encara os principais problemas do estado. Ao mesmo tempo, têm sobrado acusações, investigações e denúncias de parte a parte, munidos por exércitos digitais que fazem barulho.
Em debates fundamentais como segurança, educação e saúde isso fica muito nítido. Ambos apostam em discursos conservadores de policiamento ostensivo como pilar fundamental da política de segurança. A governadora repete à exaustão a imagem de armas em punho e a multiplicação dos “laranjinhas” nas ruas como eixo da política de segurança.
O ex-prefeito deixou o cargo fazendo a mesma sinalização ao armar a guarda municipal e agora aposta no mesmo esforço retórico dos conservadores ao falar que “bandido não terá vez em Pernambuco”. Ninguém quer o estado tomado por bandidos, mas sabemos bem para que serve esse tipo de retórica.
Na educação, assistimos a uma corrida pela entrega de vagas nas creches. Sobram acusações mútuas de incompetência nessa área, com os grupos desafiando a comparação sobre quem criou mais creches e vagas. O que falta é o debate sobre o modelo que ambos utilizam nessa “corrida”: a privatização do ensino infantil.
Ambos utilizam modelo parecido com o de Tarcísio de Freitas em São Paulo, que entrega a gestão escolar e a manutenção predial a organizações privadas. No Recife é pior, pois em alguns casos tudo é entregue às “entidades parceiras” na oferta de vagas em creches.
Quem defende a educação pública, gratuita, universal e de qualidade sabe que separar a gestão e o ensino é fatal para a promoção de uma educação de qualidade e democrática. Sabe também que esse modelo precariza ainda mais a atuação dos trabalhadores da educação.
Até aqui, nos dois principais palanques esse debate tem sido ignorado, encoberto pelo barulho estridente de “torcidas” que se empenham em se acusar mutuamente, enquanto o núcleo de suas políticas são bem semelhantes.
Na saúde também impera a lógica da privatização, seja da gestão de hospitais, seja no acesso a condições básicas de prevenção e cuidado, caso do saneamento básico.
Em Pernambuco, o atual governo privatizou a Compesa, o que para a maioria dos especialistas da área pode significar, no médio prazo, piora nos serviços à população neste estado que tem um grave índice de não acesso à coleta de esgoto. Mas, do outro lado, não se critica essa privatização e, sim, aspectos contratuais de sua realização, como se fosse possível privatizar a Compesa de forma “mais eficaz”. A oposição, aliás, é a mesma que fez a concessão privada da Compesa na região metropolitana para a empresa BRK, em 2013.
Frente à grande semelhança programática, a solução tem sido o apelo às aparências. Quem seria apoiado por quem, qual o pré-candidato se abraça à bandeira de tal ou qual cor. Assistimos a um duelo de agressões e a um debate até aqui rebaixado, recheado de acusações e encenações.
Tudo isso acompanhado das oligarquias familiares do interior que hegemonizam a Assembleia Legislativa e buscam ganhar força nesse período de transição geracional por que passa a política pernambucana, que começa a ser disputada por quadros mais jovens, boa parte deles atrelados aos pais, tios, avós e mães com mandato ou portadores de grande influência.
Em resumo, a pré-campanha para o governo de Pernambuco mais tem parecido uma disputa eleitoral de cidade pequena do que num dos estados mais importantes e mais complexos do país, com tantos desafios econômicos e sociais a vencer.
Entre os desafios, temos os da melhoria da infraestrutura, a reindustrialização, a integração mais forte de nossa economia ao circuito turístico e cultural, o combate à pobreza, a proteção contra desastres socioambientais, a moradia e o preço do aluguel, a gratuidade e qualidade do transporte, o investimento em saúde e a necessária revolução nas condições de nossa educação pública.
Até aqui não é possível distinguir para onde estamos indo ou qual a grande diferença nas políticas propostas pelos dois nomes mais fortes nas pesquisas. O debate precisa sair das páginas policiais, da mesmice e da disputa por padrinhos políticos e chegar à vida real da população.
Pernambuco é um estado importante demais, com um povo sofrido demais e não pode ficar submetido a esse tipo de disputa. O que se vê, no entanto, é a escalada de uma guerra até aqui despolitizada. No final, perdemos todos nós.

