Nas últimas décadas, a ayahuasca deixou de ser apenas uma prática espiritual restrita aos territórios indígenas e às religiões ayahuasqueiras para se tornar também uma força inspiradora de produções culturais contemporâneas. Música, cinema e até videogames têm sido atravessados por cosmologias indígenas que, historicamente marginalizadas, hoje encontram novas formas de circulação, nem sempre sem tensão, mas cada vez mais protagonizadas por seus próprios criadores.
Mais do que “influência estética”, essas obras partem de uma ética relacional: a compreensão de que a ayahuasca é um dispositivo de memória, linguagem e orientação coletiva. Quando atravessa o campo cultural, ela não aparece como espetáculo, mas sim como fio condutor de narrativas sobre território, identidade, crise climática e futuro.
Reuni quatro experiências culturais emblemáticas em que essa força se manifesta na produção cultural brasileira recente: dois documentários, um exibido na COP30, que coloca os povos indígenas no centro do debate climático global, e outro que acompanha, de dentro, o processo de retomada cultural e espiritual do povo Huni Kuin; um game criado em colaboração direta com comunidades Huni Kuin, que traduz cosmologia em experiência interativa, e um álbum musical que nasce da escuta, do rezo e do encontro entre diferentes povos, orientado pela ayahuasca.
Confira.
Cinema: União dos Povose a ayahuasca como escuta política da Terra

Exibido na COP30, em Belém, o documentário União dos Povos não trata diretamente da ayahuasca como ritual, mas é profundamente atravessado por sua lógica: a escuta. Idealizado pelo Festival Indígena União dos Povos (FIUP) e realizado majoritariamente por uma equipe indígena, o filme assume a cosmologia como método e a ancestralidade como chave de leitura da crise climática.
Narrado pela liderança tupi-guarani Jerá Reté Mirim e dirigido por Karaí Jekupé e Xinã Yurá Yawanawa, com produção da Rûnûã Nítí, o documentário se constrói como um manifesto poético que reúne vozes históricas e contemporâneas, do cacique Raoni Kayapó a Txai Suruí, de Sônia Guajajara a Dário Yanomami. A mensagem é direta: os povos indígenas não são vítimas passivas da destruição ambiental, mas guardiões de um conhecimento que sustenta a floresta há milênios.
A presença da ayahuasca se dá de forma transversal, como matriz de percepção e relação com o mundo. A ideia de que tudo está interligado (humanos, rios, espíritos, florestas) estrutura tanto a narrativa quanto a estética do filme. Sons da natureza, cantos tradicionais e imagens de territórios vivos criam uma experiência sensorial que lembra, em muitos aspectos, o estado de atenção expandida provocado pela medicina.
Ao levar esse filme à COP30, União dos Povos tencionou o debate climático global: não se trata apenas de metas e acordos internacionais, mas de reconhecer que o colapso ambiental é também espiritual, político e civilizatório. O cinema indígena, aqui, aparece como ferramenta de futuro e a ayahuasca como um modo de conhecimento que continua pedindo escuta”. Ainda não há data para a disponibilidade pública do documentário.
Cinema: Eskawata Kayawai – O Espírito da Transformaçãoe a retomada da memória Huni Kuin

Dirigido por Lara Jacoski e Patrick Belem, o documentário Eskawata Kayawai – O Espírito da Transformação acompanha um dos processos mais profundos e silenciosos em curso na Amazônia brasileira: o renascimento cultural do povo Huni Kuin após décadas de violência, apagamento e proibição sistemática de seus modos de vida. Diferente de narrativas que tratam a ayahuasca como evento pontual ou experiência individual, o filme a apresenta como eixo estruturante de um projeto coletivo de reconstrução identitária.
A história se concentra na Terra Indígena Humaitá, onde, a partir dos anos 2000, comunidades Huni Kuin passaram a retomar cantos, grafismos, rituais e saberes que haviam sido interrompidos desde o período em que foram capturados, escravizados e impedidos de praticar sua espiritualidade. A ayahuasca, o nixi pae, aparece como tecnologia ancestral de memória, não “apenas” uma medicina, mas um dispositivo de recordação, capaz de reconectar pessoas, histórias e linhagens espirituais.
Ao longo de mais de vinte anos, esse processo foi fortalecido sob a guiança do líder espiritual Ninawá Pai da Mata, cuja atuação é apresentada não como liderança carismática isolada, mas como parte de um movimento mais amplo de reorganização comunitária. O filme registra um momento de ápice cultural, em que diferentes gerações se reencontram com práticas que haviam sido quase silenciadas.
Visualmente, Eskawata Kayawai aposta numa narrativa sensível, que respeita o tempo da floresta e da escuta. Não há pressa em explicar e há muito espaço para sentir. A ayahuasca, nesse contexto, não é espetáculo nem fetiche urbano, mas força de transformação concreta, capaz de reorganizar relações internas, reafirmar vínculos com o território e projetar futuro a partir da ancestralidade.
Ao registrar esse processo de dentro, o documentário contribui para deslocar o olhar hegemônico sobre a ayahuasca: menos curiosidade externa e mais reconhecimento de sua centralidade na sobrevivência cultural dos povos que a guardam.
Games: Huni Kuin – Beya Xinã Benae a tradução da cosmologia em experiência interativa

O jogo Huni Kuin: Beya Xinã Bena (Novos Tempos) representa um marco na relação entre tecnologia e saberes indígenas no Brasil. Desenvolvido em colaboração direta com comunidades Huni Kuin do Acre, o game não apenas se inspira na ayahuasca, ele opera dentro da lógica cosmológica do nixi pae.
Sequência do premiado Huni Kuin: Yube Baitana, o jogo convida o jogador a percorrer narrativas tradicionais (shenipabu miyui), grafismos (kene), cantos e relações com os seres da floresta. Quando o personagem entra na força do nixi pae, a experiência se transforma: sons, imagens e desafios refletem o estado de percepção ampliada descrito pelos próprios Huni Kuin.
O diferencial do projeto está no processo. As histórias foram escolhidas coletivamente, as artes são baseadas em desenhos originais de artistas indígenas, os cantos, gravados em hãtxa kuin (língua Huni Kuin), foram registrados nas aldeias, e a trilha sonora utiliza sons orgânicos e rezos tradicionais. Trata-se de um jogo feito com, e não sobre, os povos indígenas.
Em Beya Xinã Bena, “novos tempos” não significam ruptura com o passado, mas fortalecimento cultural em diálogo com o mundo contemporâneo. O game aborda, inclusive, as mudanças climáticas, mostrando que a cosmologia Huni Kuin oferece não apenas memória, mas ferramentas concretas de enfrentamento dos desafios atuais.
Aqui, a ayahuasca deixa de ser exotismo e se afirma como linguagem pedagógica, estética e política capaz de atravessar telas, controles e plataformas sem perder sua raiz comunitária. O jogo completo será lançado no segundo trimestre de 2026, mas, enquanto isso, é possível baixar a versão demo aqui.
Música: Nhanderu Tenondée a ayahuasca como orientação criativa e ética

O álbum Nhanderu Tenondé nasce de uma experiência profundamente mediada pela ayahuasca, não como tema, mas como orientação de ação. Produzido por Henrique Maranhão, o projeto surge após uma cerimônia indígena que revelou algo simples e radical: antes de lançar sua própria música, ele deveria produzir um álbum dos rezos Guarani que o haviam atravessado.
Gravado com integrantes da aldeia Tabaçu Reko Ypy, em Peruíbe (SP), o disco reúne cantos tradicionais, rezos de cura e composições que afirmam a música como medicina. Para os Guarani, como lembra Awa Kywy, o rezo é a principal medicina do povo: é cantando que se cura, que se fortalece, que se conecta.
A ayahuasca aparece aqui como catalisadora de encontros e decisões éticas. Foi ela que orientou o produtor a recuar do protagonismo e assumir uma posição de escuta e serviço. Foi também ela que ajudou a dissolver o medo de misturar instrumentos contemporâneos aos cantos tradicionais, quando esse desejo partiu dos próprios indígenas.
O álbum também marca transformações internas nas comunidades, como a crescente presença das mulheres nos espaços de rezo, gravação e liderança espiritual. Para Ara Fernandes e Djatsy, cantar em estúdio é um desafio, mas também uma missão: levar a força tupi-guarani para além do território, sem perder a alma.
Nhanderu Tenondé não é visto pelas pessoas idealizadoras como um produto de mercado espiritual. É um registro histórico, um gesto de aliança e uma prova de que a ayahuasca, quando respeitada, não cria fuga da realidade e sim compromisso com ela. O lançamento do álbum está previsto para o dia 3 de abril.
*Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

