A presença do rapé (medicina tradicional indígena) em Avatar 3 – Fogo e Cinza não é um detalhe estético nem um recurso narrativo isolado. Ela revela algo mais profundo sobre o momento histórico que atravessamos. As culturas indígenas deixaram de ocupar apenas as margens do imaginário global e passaram a ser convocadas como referências simbólicas de outras formas de viver, de relação com a Terra e de compreensão da consciência.
O cinema apenas espelha um movimento que já está em curso no mundo e, por isso, devidamente mapeado pelos povos indígenas, principalmente por aqueles que têm a biocultura da ayahuasca em sua cosmogonia.
Nesse contexto, chama a atenção a trajetória de Oona Chaplin, que interpreta a Varang, a liderança indígena do Povo das Cinzas neste episódio da trilogia. A personagem é a responsável por inserir o rapé na saga. E não é à toa. O rapé é feito, geralmente, com as cinzas da casca de alguma árvore ou sementes torradas.
A atriz fala publicamente de sua relação com medicinas tradicionais indígenas e de processos de imersão na floresta que atravessam sua vida há anos. Inclusive ela é uma das produtoras executivas do documentário Eskawata Kayawai – Espírito de Transformação, que citei no texto anterior desta coluna. Portanto, a atriz apresenta um envolvimento continuado que reflete uma busca real por reorganizar a própria forma de estar no mundo. Mesmo entre todos seus privilégios e glamour hollywoodiano, ela é “só” mais uma nessa jornada por novas formas de estar na vida, assim como você, provavelmente, e eu também.
Esse interesse crescente por medicinas e saberes indígenas não nasce do nada. Ele emerge de um esgotamento profundo do modelo de vida contemporâneo. A urbanização extrema, a aceleração constante, a competitividade, o isolamento e tantas outras mazelas produziram uma crise de sentido que atravessa indivíduos, instituições e narrativas coletivas. As culturas indígenas aparecem nesse cenário como oportunidades de outras possibilidades de relação com o corpo, o tempo, a comunidade e o cuidado. Isso, para mim, explica boa parte do por que essas culturas estão em alta.
Mas estarem em alta não significa que estão protegidas do mesmo processo de adoecimento que levou há tantos de nós até elas, como o individualismo e as desigualdades e cobranças do sistema capitalista.
O mesmo movimento que busca inspiração também produz tensões que aumentam na mesma medida do que a expansão, e a corda continua a arrebentar para o lado povos indígenas, que têm seus direitos violados não só territorialmente, mas culturalmente e simbolicamente também. No paralelo, há uma conquista de espaço de diversas lideranças indígenas no Brasil e no mundo em diversos setores. Hoje tem muito branco andando de barco e muito indígena de avião. Essa expansão de territórios físicos e simbólicos têm sido muito impulsionado pelas questões da crise climática, o reconhecimento das artes e também a relação com as bioculturas como a da ayahuasca.
Porém, quando essas culturas passam a ser vistas como portadoras de todas as respostas para o mal-estar do mundo moderno, o campo se abre para idealizações, simplificações e novas formas de extrativismo simbólico. A espiritualidade vira consumo, a medicina vira mera ferramenta a serviço do tal self e o território vira pano de fundo.

Medicinas como o rapé não existem isoladas. Elas fazem parte de sistemas vivos que envolvem território, língua, cosmologia, governança e responsabilidade coletiva. Retirá-las desses contextos sem compromisso ético, sem reciprocidade concreta e sem relação real com os povos que as sustentam não produz cura nem transformação profunda. Produz deslocamento, assimetria e muitos tipos de violência. E essas tensões serão temas centrais no Fórum Mundial da Ayahuasca, que acontece em setembro deste ano, na cidade de Girona, na Espanha.
Então, acredito que o ponto central não é perguntar o que as culturas indígenas podem nos dar, mas, sim, reconhecer o que precisa ser transformado em nossas próprias estruturas para que esse encontro não reproduza mais uma história de extração. Agora, as apropriações, a colonização e o extrativismo usam fantasia de espiritualidade, bem-estar e cuidado. Uma roupagem que vive uma das perigosas misturas atuais: a boa intenção, religiões (em seu amplo conceito), misticismo e fé. Olha, realmente, por essa nem o vespeiro esperava.
Portanto, o fato de o rapé aparecer em Avatar 3 diz menos sobre a validação dos saberes indígenas e mais sobre a crise de um mundo em que destruímos as próprias bases de sentido — ou construímos bases sem sentido? — e agora buscamos referências fora de nós mesmos num desespero profundo que tem gerado novas camadas de desafios em um mundo já colapsado pelo excesso.
Reconhecer isso exige responsabilidade política e maturidade ética. Exige compreender que os saberes indígenas podem inspirar, provocar e orientar, mas não substituem o trabalho interno, social e coletivo que cada sociedade precisa fazer para enfrentar suas próprias contradições.
As culturas indígenas não estão em evidência porque viraram tendência. Estão em evidência porque o mundo moderno entrou em colapso. Mas nenhum colapso se resolve com atalhos. E agora?
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
