Artigos publicados em importantes espaços acadêmicos colocam em xeque a centralidade da ciência ocidental e apontam para uma confluência entre diferentes formas de conhecimento
“O conhecimento não está apenas nos laboratórios, mas também está presente na floresta e na memória viva dos povos originários”. Começo por essa frase da indígena Adana Omágua Kambeba porque, para mim, ela já dá o tom de tudo que está em jogo. Uma espécie de princípio real de autoridade sobre o que conta como conhecimento na questão das bioculturas. E isso, dentro da academia, ainda pesa como desconforto.
E é nessa história que está inserido o artigo A Call for Paradigm Shift in Psychedelic Studies (Um Chamado Para uma Mudança de Paradigma nos Estudos Psicodélicos, em tradução livre), do qual Adana é uma das autoras, publicado recentemente na revista Psychedelics, da editora Elsevier, uma das principais plataformas de acesso a pesquisas científicas revisadas por pares no mundo.
O que está sendo proposto ali não é apenas um ajuste de rota dentro do campo dos estudos ‘psicodélicos’, mas uma revisão mais profunda das bases sobre as quais o campo vem sendo construído. E, principalmente, de quem historicamente teve o direito de falar, de produzir saber e de validar esse saber.
Durante muito tempo se falou sobre os povos indígenas como objeto de estudo. Depois, o discurso mudou, mas nem tanto assim: passou-se, então, a falar pelo povos indígenas. E mesmo agora, com mais presença indígena nos espaços institucionais, a escuta real ainda falha muito. A inclusão acontece até certo ponto, mas existem barreiras [não tão] invisíveis que colocam limites. Às vezes de forma escancarada, outras vezes em nuances e outras até de forma bastante republicanas, mas todas levam para o mesmo lugar de invisibilização.
O artigo é importante justamente porque toca nesse desconforto.
Para Simon Ruffell, psiquiatra e pesquisador britânico que atua na área de saúde mental e estudos com psicodélicos e também um dos autores do artigo, trata-se de “um marco na conexão entre ciência indígena e ocidental”.
Mas o que me interessa aqui é ir um pouco além dessa formulação e perguntar como isso se materializa. Porque falar em respeito é relativamente fácil. O difícil é sustentar esse respeito quando ele implica abrir mão de centralidade, de controle e de autoridade. Aí, como dizemos, o pau tora.
A volta dos que não foram
Glauber Loures, pesquisador e articulador brasileiro que atua no campo das bioculturas e dos estudos sobre psicodélicos, outro autor do artigo, considera que essa ideia de Renascimento Psicodélico é “eurocêntrica” e carrega um pressuposto problemático de que essas substâncias estariam “renascendo” agora, sendo que a verdade é que elas nunca morreram, mesmo depois de ataques brutais cometidos contra os povos que carregam por gerações esses conhecimentos. “Essas medicinas nunca deixaram de existir. Sempre estiveram ativas e centrais nas práticas de cuidado, conhecimento e relação com o mundo dos povos indígenas”, afirma Loures.
Quando a gente leva isso a sério, fica realmente difícil sustentar a ideia de renascimento, mesmo que tentem dar uma volta dizendo que é um renascimento dentro da cultura ocidental. O problema é que esse discurso apaga os povos indígenas da história ou os coloca como meros produtores de matéria prima para esses estudos “renascidos”.
É como se encontrassem algo de valor inestimável para melhorar a qualidade da saúde mental de milhares de pessoas pelo mundo em uma tumba no Egito e não houvesse nenhum faraó para reivindicar esse conhecimento porque estão todos mortos (mesmo que boa parte da cultura dos faraós seja fruto da apropriação de saberes dos povos originários Núbios, por exemplo, mas isso é outra história). Mas não, os indígenas estão bem vivos, mesmo em meio a um processo de genocídio que só no Brasil dura mais de 500 anos.
Glauber propõe a ideia de “confluência psicodélica”, dialogando com os saberes do pensador quilombola Nego Bispo. Trata-se de um encontro entre sistemas de conhecimento com histórias, lógicas e compromissos distintos, que exige reconhecer as ciências indígenas como ciência em si, e não como algo que precisa ser traduzido e validado por outro sistema para existir. Essa imposição é um ato de violência e total desrespeito com aqueles que estão aqui bem antes de o Brasil ser Brasil.
É nesse momento que a fala da Adana ganha ainda mais peso, porque quando ela afirma, no artigo, que esses saberes “nunca desapareceram, mas continuam vivos e resistentes”, ela está lembrando que não se trata de resgatar algo perdido, mas de interromper um processo contínuo de invisibilização. Porque esses conhecimentos sempre existiram e seguem existindo nos territórios, nas cidades, nas universidades e nas práticas cotidianas, mesmo quando não são reconhecidos como ciência.
A forma importa
O artigo também aponta para a necessidade de transformação concreta nas formas de pesquisa. Como coloca Jairo Lima, conselheiro sênior e fundador do Instituto Yorenka Tasorentsi, indigenista, cronista e cofundador da Conferência Indígena da Ayahuasca. “Não se trata apenas de investigar substâncias em laboratório, mas de reconhecer que esses conhecimentos emergem de contextos culturais, espirituais e ecológicos preservados por povos indígenas”. Isso implica, segundo ele, construir “modelos de pesquisa mais éticos e interculturais”, o que, na prática significa, rever desde metodologias até relações institucionais. Um desafio realmente grande para o “império científico”.
A interculturalidade tem sido uma palavra bastante utilizada, mas que nem sempre se torna prática. Até existe o discurso, mas as estruturas continuam operando da mesma forma, com os mesmos centros de decisão e os mesmos critérios de validação. Nesse sentido, existe um risco constante de que o diálogo intercultural seja apenas uma nova camada de legitimidade para práticas que continuam sendo, no fundo, extrativistas. E ninguém aguenta mais.
A pesquisadora Cristiane Bortoli, doutora em Linguagem e Identidade Amazônica, colaboradora do Instituto Yorenka Tasorentsi, responsável ao lado do ICEERS — organização sem fins lucrativos dedicada a enfrentar os desafios da globalização das medicinas tradicionais indígenas —, pelo Fórum Mundial da Ayahuasca, e também autora do artigo, chama a atenção para importância de ampliar as referências a partir das quais se produz conhecimento sobre a ayahuasca. “Esse tipo de artigo ajuda a trazer outros olhares e a questionar o que a gente costuma chamar de ciência. São reflexões que vêm de um lugar interno, ancestral, e que agora estão ganhando o mundo”, afirma.
Para ela, esse debate ganha ainda mais urgência no cenário atual. “As lideranças indígenas estão ampliando essas pautas num momento de crise, em que muitos conhecimentos ancestrais vêm sendo distorcidos”, completa.
Por isso, o que esse artigo coloca não é apenas uma proposta, mas um desafio. Ele expõe um impasse que já não dá mais para contornar: a ciência quer acessar o potencial das medicinas tradicionais indígenas, mas ainda resiste em reconhecer plenamente as ciências da floresta. Aí fica difícil. Sem esse reconhecimento, qualquer tentativa de colaboração corre o risco de repetir, de forma mais sofisticada, padrões antigos de apropriação. Mais um oferecimento do neocolonialismo.
Diplomacia Cósmica
Essa discussão também aparece em outro texto recente, publicado no Maps (Associação Multidisciplinar dos Estudos de Psicodelia na sigla em inglês) Bulletin, intitulado Cosmic Diplomacy: Kinship, Confluence, and the Future of Psychedelics (Diplomacia Cósmica: Parentesco, Confluência e o Futuro dos Psicodélicos, em tradução livre), que conta com a participação de Adana, Glauber, Jairo e também da artista visual indígena Daiara Tukano.
Nele, os autores e as autoras afirmam que “nenhuma perspectiva única pode abranger” o campo psicodélico e defendem uma abordagem baseada em confluência e relacional. Nesse sentido, essa mudança de paradigma exige acabar com a monocultura do pensamento. A ideia de diplomacia cósmica surge justamente como uma forma de sustentar esse encontro entre mundos sem reduzir um ao outro, o que, no fim das contas, está totalmente alinhado com o que esse novo momento vem exigindo.
Se esse novo paradigma vai se consolidar ou não, ainda é uma questão em aberto. Mas uma coisa é certa: não dá mais para produzir ou discutir ciência, especialmente nesse campo, sem discutir também as relações de poder que definem quem pode falar, quem pode pesquisar e quem, historicamente, foi deixado de fora.
*Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

